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Um post sobre comida e plaina

Rosinha é cheia de planos. Thiago contou a ela que teria um dia de folga na semana, no meio das férias, e ela logo fez um “combinado”: “Pai, vou levar você conhecer a Japan House!“. Claro que topamos o convite! Eu já havia visitado o lugar uma porção de vezes, e particularmente, eu adoro. Gosto do ambiente, as exposições sempre são muito bonitas e interessantes e mais recentemente, adoro sentar no balcão do café e provar as delícias!

Vou abrir um parênteses aqui para contar um pouco mais da nossa paixão pelo Japão. Eu sempre gostei muito da culinária japonesa, desde pequena. Incentivada pelos meus pais, que também sempre se metiam a conhecer os mais tradicionais restaurantes da cidade. Quando conheci o Thiago, e ele me convidou para um primeiro encontro, eu sugeri ir numa Temakeria (que na época era a novidade!). Claro que ele também já tinha muito apreço pela cultura japonesa, principalmente pela tradição do trabalho com a madeira. Logo, começamos a assistir juntos todos os episódios disponíveis da série da NHK Begin Japanology no Youtube. É praticamente uma enciclopédia de tudo que você pode imaginar sobre o Japão. Abrange temas como “alergia ao pólen”, até os “bentôs” e “neve”.

Quando entro na Japan House sinto uma impressão muito forte e imagino que seja a mesma sensação de colocar os pés no Japão. É uma espécie de sensação que condensa algumas das características da cultura japonesa e que nos fazem sentir profundamente conectados a ela: o respeito às tradições, uma reverência aos ancestrais e uma ritualização da vida. Vejo isso nos mínimos detalhes sempre que vou lá.

Essas características estão muito presentes na comida. Dessa vez, no café da Japan House, resolvi provar um matcha latte com calda de frutas vermelhas. Antes de nos sentarmos ali, vimos uma exposição sobre o chá e claro que fiquei com água na boca para provar um matcha. Como fazia muito calor, pedi a versão gelada. A espera no balcão minuciosamente limpo, com tudo muito organizado, já me dá uma certa aura especial. A bandeja chega com pequenos recipientes, todos muito simples e bonitos. Misturei o matcha no leite gelado com a calda no fundo do copo. Cores lindas! Misturei tudo, dei o primeiro gole e achei que iria odiar. Mas eu amei. Tive vontade de tomar tudo de uma vez, o que frequentemente faço com bebidas. Mas o ambiente me convidou a apreciar. Gole por gole. Que delicioso! Me lembrei da sensação de descobrir coisas novas e de como isso é bom. Geralmente esse sentimento vem mais em viagens, e há quatro anos sendo mãe, depois de uma pandemia e um desgoverno brutais, essa sensação me deu uma alegria silenciosa e calma, mas muito boa. E como é bom poder viajar dentro da minha própria cidade!

Outro pensamento me invade: a experiência de comer está muito atrelada ao ambiente também. Poder provar um matcha naquele espaço tem outro sabor do que se estivesse em casa. Definitivamente comer não é só sobre se alimentar.

Depois daquela experiência eu queria mais: fomos para a Liberdade – o bairro japonês de São Paulo. Depois de umas entradinhas no Izakaya Kintaro, partimos para o Izakaya Issa. E lá, mais uma vez no dia, provei algo novo. Pedimos takoyaki, bolinhos recheado de polvo e servido com lascas de peixe bonito, o katsuobushi, por cima. Eu já havia visto diversos vídeos das lascas de bonito se movimentando por cima de takoyaki ou okonomiyaki pela internet afora, mas mesmo assim foi impressionante ver ao vivo. Por conta da espessura tão fina, as lascas acabam se movimentando com o calor, dando a impressão que algo ali está vivo! Poder compartilhar esse momento com a Rosinha foi tão prazeroso quando o sabor da comida! Ela ficou eufórica com o “bicho que se mexia”. Ficou hesitando, deu vários gritinhos de medo e por fim provou e amou! Muito corajosa!

E finalmente, chego ao tema desse post. Katsuobushi. É, eu havia pensado em escrever sobre esse alimento aqui, pois a sua produção é muito intrigante. O peixe bonito é desidratado, fermentado e defumado num processo de preservação tão incrível, que o produto final é tão duro quanto a madeira. Impossível cortar com faca e por isso é servido em lascas ou raspas. E adivinha qual ferramenta é utilizada para isso? Sim! Uma plaina, muito parecida com as dos marceneiros. Até as lascas se parecem muito com os cavacos de madeira. O nome desse utensílio é kezuriki. Encontrei esse artigo dando muitos detalhes de como se cortar corretamente o katsuobushi: https://thejapanesefoodlab.com/shave-katsuobushi/

Na verdade mesmo, eu não queria falar somente do peixe bonito. Nessas férias, nós também nos deparamos com outra comida feita com plaina. Será que vocês já sabem o que é? Comprei uma raspadinha na praia do Guarujá pra Rosa só pra ela ver o moço usando a plaininha de metal que raspa o gelo. Fiquei super curiosa pra descobrir de onde veio essa invenção e fui atrás da história dessa sobremesa gelada. E não é que encontrei várias referências ao kakigori, a raspadinha japonesa? Dizem que é fabricada desde o século VI, olha só! Mas não encontrei referência a serem feitas com nenhuma ferramenta específica ou parecida com a plaina, como a que encontrei feita na praia. Na verdade, existem umas fotos de máquinas de raspar gelo decoradas e bem bonitas. Nunca iria imaginar essa conexão… mas fiquei ainda mais intrigada. Será que existe alguma outra comida feita com plainas? Se souber, me conta aqui nos comentários!

Ah, o próximo curso de plaina do Saber com as Mãos será uma surpresa!! Aguardem as novidades!!

Mas você também já pode se inscrever no curso confirmado para outubro. Confere lá no site da Forjaria Escola e garanta sua vaga!

Lembrando que o curso online está sempre aberto e disponível para compra aqui no nosso site.

Mais Referências:
Palestra Katsuobushi: técnica que atravessa séculos e oceanos realizada em junho de 2023 na Japan House:
https://www.youtube.com/watch?v=FGGgGxdH9oA

Vídeo de vendedor de raspadinha na praia:
https://www.youtube.com/watch?v=Aq4qk1VtgXI

Vídeo de vendedor de kakigori com máquina manual:
https://www.youtube.com/watch?v=UMvd1UnyU4I