Desde que visitamos o Parque Estadual do Ibitipoca, há alguns anos, sempre que temos oportunidade de viajar, eu invento de explorar o parque mais próximo do nosso destino. E dessa vez não deu outra. Arrastei os cunhados e o marido até o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, há 300km de Juazeiro, na Bahia. A gente gosta de estrada, hehe.

Foram umas boas horas nessa estrada de terra aí. De novo aquela sensação de ir pra dentro do dentro. Chegamos em São Raimundo Nonato já de noitinha, jantamos uma pizza na cidade e um refrigerante de caju pra acompanhar.
No dia seguinte, fomos nos informar de como visitar o Parque. É necessário ter um guia contratado para entrar. Pegamos o telefone de alguns na pousada, acertamos os passeios para o dia seguinte e fomos visitar o Museu do Homem Americano. Eu não sabia muito sobre a história desse lugar. E visitar o Museu nos deu a dimensão do privilégio que era estar ali.

A concretização do Museu, do Parque e de tantas outras iniciativas da região são esforços da arqueóloga brasileira Niède Guidon que, na década de 70 foi informada por um morador da região da existência de pinturas rupestres. A pesquisa da Niède, encontrou mais de mil sítios arqueológicos na região (o maior número da América Latina) e fez uma descoberta que muda a teoria do povoamento do continente americano. Até hoje, a teoria mais aceita é a de que o homem chegou aqui caminhando pelo Estreito de Bering há cerca de 15 mil anos atrás. Porém, Niède encontrou vestígios da presença humana 43 mil anos mais antigos. Ou seja, a origem do homem americano é nordestino!
No Museu, é possível encontrar inúmeros artefatos, verdadeiros tesouros dessa nossa origem. Vestígios de um tempo e época em que é quase impossível imaginar. Percorrendo os corredores eu tentava me colocar no lugar desses homens e mulheres. Como era essa vida? Como era esse mundo?




No segundo andar, vestígios um pouco mais próximos de nosso tempo. Ali eu já reconhecia a cultura indígena. Mas algo me chamou a atenção. Parece que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia. Sabem essa sensação? Então, foi isso que senti quando vi as urnas funerárias redondas, em forma de útero, feitas de barro. Não havia muita explicação do porque enterraram seus mortos assim. Mas eu gostos de pensar que é por que quando a gente morre, devemos voltar ao útero, mas dessa vez ao da mãe terra.

Falando em cerâmica, fomos visitar mais o Grupo de Cerâmica Artesanal da Serra da Capivara que fica em Coronel José Dias, município próximo de São Raimundo Nonato. Primeiro, desfrutamos de um almoço delicioso, e depois fomos super bem recebidos na fábrica ao lado. Nos deram um tour super detalhado e ainda colocamos a mão na massa. A iniciativa é mais uma de mérito da Niède. Ela logo percebeu que para que o Parque se mantivesse vivo e protegido, era necessário envolver toda a comunidade. Para isso, resgatou esse fazer ancestral da região: trabalhar o barro. Criada em 1992, o grupo emprega mais de 30 artesãos, além de treinar os mais jovens. Pra quem é de São Paulo, talvez já tenha visto as peças lindas na loja TokStok. São copos, pratos, tigelas, vasos e outros que celebram as pinturas rupestres que podemos ver no Parque. Foi lindo ver o barro no Museu e depois vivo nas mãos das pessoas que vivem ali.









Para finalizar o dia, fomos visitar o recém-inaugurado Museu da Natureza. Bem diferente do primeiro que visitamos, este apresenta uma experiência mais imersiva e tecnológica. Mas o mais bonito mesmo é ver a História Natural da região ser contada com tanto esmero, cuidado e orgulho. De novo, a sensação de ter encontrado um tesouro me inundava. Para fechar o dia, a natureza se impôs. O último ponto do Museu, o mirante, nos presenteou com os últimos raios de sol.










