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Diário de Viagem

Roda de São Gonçalo

No primeiro dia do ano, organizaram uma Roda de São Gonçalo pra gente ver como era. A gente, “os meninos”, como todos nos chamavam. Desde que a gente se conheceu o Thiago me falava: “a gente precisa ir pra Bahia”. Sempre me contava da família com muito carinho. E nesse dia eu me senti mais do que nunca parte dela e entendi por que ele insistia tanto pra gente ir pra lá.

Acho que foi ideia do Tio Lelinho. Ele se surpreendeu que a gente não sabia o que era Roda de São Gonçalo. É uma dança, que se faz pra pagar uma promessa ao santo. Dançam seis pares, homem com homem e mulher com mulher. E tem música ao vivo com os contra-guias que tocam violão e pandeiro. Então não havia dúvida: antes da gente partir pro Piauí, a gente tinha que brincar de Roda.

Foi tudo armado pelo Lelinho. Chamou os amigos e o resto da família. Marcou o encontro na acaxa. Ah, acaxa. A fazenda da família, A origem de tudo. Lá que os ancestrais nasceram e tiveram filhos. O ponto que conecta toda essa gente. Não basta ir pra Juremal, tem que ir pro interior da Jurema. Fomos de carona até lá, uns 20 minutos no máximo na estrada da terra. Mas eu tinha a impressão que eu tava indo pra dentro do dentro mesmo. E que lugar lindo. Fiquei pensando nas histórias que fui ouvindo. Como era morar ali há 50, 60, 100 anos atrás. Tirar sustento da terra vermelha.

Chegamos lá e já tinha muita gente esperando. Tudo família me contaram. Tavam só esperando a gente. Primeiro demos uma voltinha pelas terras, que dia lindo que fazia. O sol tava querendo ir embora já. Então, bora começar a dança.

Não teve muita explicação, foi só um tal de pega o seu par e entra aí na Roda e imita os outros. E é assim que se aprende a brincar, né? Brincando. Me senti numa brincadeira, mas era tudo muito sério. Se errava o passo, tinha que voltar e fazer direito. E a gente errou pra caramba, rs.

Quando lembro desse momento, uma cena em câmera lenta começa a aparecer na minha cabeça: a gente rodando, a música tocando, o canto dos versos, o pé no chão, todo tingido da terra vermelha, a garganta seca e o céu. Ah, o céu. Foi o pôr do Sol mais lindo que eu já vi. Quanto mais o sol baixava, mais vermelha ficava uma linha contínua no horizonte todo. E o cobertor de estrelas vinha chegando, num tom de azul, daqueles que tinta nenhuma tem. Naquela hora, muita coisa fez sentido.

Foi muito especial, e de uma generosidade sem fim. Mas bom mesmo, falaram pra gente, era ter feito um churrasco, ter chamado o sanfoneiro e ter dançado um forró. Mas não dava tempo, afinal a gente ia ficar pouco, no dia seguinte a gente já partia pro Piauí. Ninguém se conformava que a gente ia embora: “vem todo esse caminho pra ir embora, assim? tem que vir e ficar um mês e dormir na minha casa”. Rolou um ciúme que a gente só dormiu na casa de uma tia. Mas a gente voltava, depois do Piauí ia ter mais um dia lá.