Categorias
Educação

Volta às aulas, a cidade e as crianças

Amanhã as aulas retornam, começa o ano letivo. Para mim, que sou mãe e educadora, confesso que é um sentimento um tanto ambíguo. Primeiro, porque isso significa que as minhas férias acabaram também e volto a trabalhar. Além disso, encarar o começo de ano na escola é como encarar a arrebentação no mar. É preciso enfrentar ondas fortes e altas, constantes. Quando você está se recuperando de uma, logo vem outra, e outra e outra… até que finalmente você atravessa e dá de cara com a infinitude do mar tranquilo. Algumas ondas mais fortes podem vir, tormentas até, mas com um espaço de tempo um tanto maior. 

É assim que me sinto, sendo coordenadora pedagógica no começo do ano. As ondas, ou as demandas, surgem uma atrás da outra e é preciso dar conta de muito em pouco tempo. Acolher famílias, crianças e professores enquanto eu também tento me equilibrar; estar atenta e forte; é um desafio grande. Mas ano após ano vou sentindo que vou conhecendo um pouco mais desse mar… a textura da areia nos pés, reconhecer quando a onda que se aproxima talvez me derrube, antecipar o caldo, pegar jacaré ou mergulhar profundo quando não é possível enfrentar de peito aberto, ouvir o vento e a temperatura da água. Cada vez mais vou aprendendo a navegar nessas águas. Mas o frio na barriga é sempre o mesmo. Sair debaixo do meu guarda-sol, levantar e enfrentar a arrebentação é necessário coragem e disposição. Por isso, o sentimento ambíguo e a vontade de esticar um tantinho mais essas férias.

Mas, eu também sou mãe, e anseio o retorno pro mar! Rosinha já está crescida, com cinco anos, e mais do que nunca, sentiu muitas saudades das escolas nessas férias. Ela é filha única, e vi o quanto ela desejava brincar e estar com outras crianças no tempo afastado da escola tão querida. Além de demandar bastante nossa companhia para brincar, cada vez que íamos a um parque, praça, ou museu, ela perguntava: mas vai ter crianças? Como é importante esse espaço da escola, do coletivo, do parque, do encontro, do livre brincar. Fico pensando como deve ter sido difícil pras crianças que tinham a idade da Rosa hoje, lá atrás, na pandemia… e fico me imaginando mãe dessas crianças que ficaram isoladas em casa. Bom, os impactos disso eu vejo como educadora, mas não tive essa experiência como mãe. Rosinha tinha cinco meses quando começou o lockdown, e nossa experiência foi diferente.

Essa saudade toda da escola, essa busca incessante da minha filha pelo encontro com seus pares, me faz refletir muito sobre os espaços disponíveis nas cidades para que isso aconteça. Mais de uma vez fomos a pracinha mais perto de casa que tem parquinho, e encontramos a praça esvaziada… não quero ser injusta, já fomos lá outras vezes e já encontramos a praça bem mais povoada, principalmente em dias de sol e finais de semana. Mas, fora essa praça, que até tem um espaço bacana, cuidado e mantido pelos moradores, pras crianças brincarem, tenho muita dificuldade de pensar em outros espaços de brincar livre para levar a Rosa. Existem os SESCs, é verdade, com espaços de brincar muito legais, mas geralmente com horários mais restritos e distribuição de senhas ou marcação de horário. E como tenho essa mania de pensar como tudo pode ser diferente, fico sonhando com parques bem legais, ao ar livre, com desafios motores (subir, pendurar, escalar, balançar, escorregar) para crianças grandes também (muitos espaços de brincar no SESC são destinados para as crianças menores).

Muitas vezes, nessa busca de lugares para ir com a Rosa, acabo me deparando com muitas opções pagas, plastificadas, prontas, acabadas, com muito barulho e pirotecnia para as crianças. Onde tem de tudo, menos chance delas poderem brincar livremente, inventar brincadeiras, se relacionar com outras crianças (aliás, outro tópico importante mas que não vou me aprofundar é: como os adultos ficam em cima das crianças o tempo todo, impedindo que elas possam resolver conflitos, inventar modos de descer, subir, se arriscar nas praças e parques). Sinto falta de espaços de encontro de fato. Onde adultos e crianças possam usufruir de espaços e materiais de qualidade, se encontrar, se relacionar, conviver.

Conviver: “viver em proximidade, compartilhar do mesmo espaço, coexistir”. Tivemos uma experiência nessas férias muito próxima ao conviver.

Passamos 14 dias em Buenos Aires. Thiago deu dois cursos de cadeira no ateliê do Hernán Costa, em Villa Urquiza (em breve faremos um post). Nos dias em que ele estava dando curso, eu e Rosinha exploramos a cidade. Alguns dias em companhia de amigos queridos com filhos pequenos também, e em outros sozinhas mesmo. Mas não tinha dúvida do que fazer: ir para a pracinha. Em qualquer bairro que estivéssemos, era só abrir o Google Maps e localizar uma praça que tivesse Patio de Juegos. Na maioria das vezes, o que encontrávamos era uma praça amigável e um parquinho muito legal, que dava espaço para as crianças inventarem muitas brincadeiras. Além disso, principalmente no fim da tarde, quando o sol quente já tinha baixado um tanto, as praças se enchiam. Adultos e jovens fazendo todo tipo de esporte: basquete, futebol, yoga, dança, patins, bicicleta, ping pong… encontros de casais, amigos, famílias, vendedores de bolas, picolés, bolhas de sabão, músicos, além de uma assembleia de bairro e um ensaio de bloco de carnaval. Muita vida!

Isso me deu um sentimento de pertencimento, de comunidade, de convivência, que nutrem a vida na cidade. E que sinto tanta falta aqui em São Paulo. Talvez eu esteja morando no bairro errado, mas acredito que muitas pessoas também sintam o mesmo que eu… mas voltando às praças de Buenos Aires, recentemente houve um investimento grande do governo da cidade para renovar esses espaços, e hoje são mais de 40 distribuídos nas 15 comunas. Os parquinhos são temáticos e além de bonitos, são realmente pensados para as crianças terem brincadeiras de qualidade. São feitos pela empresa Cruci Juegos e a qualidade é bem bacana também. Parquinhos feitos pra durar. E como sonhar não custa nada, sonho com um grande projeto aqui em São Paulo, que olhe pras crianças e para os espaços públicos de brincar: parques, praças, brinquedotecas públicas, escolas… espaços acessíveis para todos, bem cuidados, pensados, planejados que valorizem a infância e o brincar.

Pra finalizar e também combater a ideia de que pra brincar a gente precisa de espaços esteticamente fofos e bonitos, deixo aqui alguns projetos que usam bem pouco, mas que promovem um brincar de excelente qualidade:

O primeiro é um vídeo produzido pelo maravilhoso e brasileiro Território do Brincar, sobre o The Yard um parque de brincar livre em Nova York que foge da ideia do parquinho, arrumado e planejado, mas que mostra pra gente que pra brincar com qualidade, basta que os adultos organizem, pensem, e cuidem dos espaços, além de promover a utilização deles pelas famílias e crianças. O segundo é outro vídeo do Instituto Alana sobre os parques naturalizados. 

Esses dois projetos dialogam muito com o livro Terreno Baldio do Jader Janer que li ano passado com o grupo do GEP, da Alice Proença. Jader recupera de suas memórias da infância um terreno baldio da vizinhança e as brincadeiras que surgiram dali, do entulho, do que ele chama de “desútil” e as “desimportâncias” desses momentos preciosos. 

Um parquinho belo e bem projetado, um parque de livre brincar, feio e desarrumado, ou um parque natural seja qual for o espaço, é preciso pensar, cuidar e viver esses espaços na cidade. Esses espaços renovam a esperança, a segurança e a saúde da cidade toda. Agora, me contem: aonde vocês tem ido com as crianças?