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Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.

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