Categorias
Educação

Agenda 2023 (primeiro semestre)

Com certo atraso (já aconteceu um Curso de Construção de Plainas no ateliê e outro na oficina.cc, em Belo Horizonte e uma oficina para crianças e adultos, a Xiloteca Lúdica, no Sesc Vila Mariana), aqui está a lista de cursos e oficinas previstos para o semestre. Os cursos no ateliê do Brooklin, em São Paulo, têm inscrição direta pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com . Em outros, como os do SESC, a inscrição é feita diretamente na unidade ou online. Veja mais informações abaixo.

Introdução à Marcenaria com Ferramentas Manuais. Sesc Carmo. De 9/3 a 29/6. Quintas-feiras, das 9h30 às 12h30.

Em 16 encontros ao longo do semestre, o curso propõe um percurso pelos Fundamentos da Marcenaria Tradicional, da preparação da madeira à confecção de encaixes. Sem um projeto a priori, abordaremos as técnicas básicas de formão, plaina e serrote de forma que todos possam ter autonomia para encarar qualquer projeto simples futuramente. No caminho, os participantes farão algumas ferramentas (esquadro, graminho e boquexim) para levarem para casa e outras que deverão equipar o Espaço de Tecnologia e Artes.

Inscrições diretamente com o Sesc Carmo (siga o link acima).

Principais Encaixes da Marcenaria – Meia Madeira. Sesc 24 de Maio. De 17/3 a 14/4. Sextas-feiras, das 10h às 13h.

O encaixe de meia madeira está entre os mais usados em marcenaria. Para entender suas aplicações vamos construir um esquadro antigo de grandes dimensões chamado Curtamão, título de um conto de Guimarães Rosa que se encontra em Tutameia. Veremos que para construir algo precisamos de material e ferramentas mas também de imaginação e encanto.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio (siga o link acima).

Marcenaria de Apartamento: Introdução à Marcenaria Tradicional. Sesc Vila Mariana. De 23/3 a 11/5. Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Através da confecção de uma pequena caixa de madeira, algo útil e belo, buscamos apresentar ferramentas essenciais como a plaina e o serrote, além de plainas especiais que realizam processos específicos, como os canais para encaixarmos fundo e a tampa. Veremos como usar as ferramentas e também como empregar alguns acessórios que facilitam muito o trabalho como o sobrebanco (taleiro), a caixa de meia-esquadria e um gabarito para aplainar a 45°. Essas ferramentas e acessórios permitem que trabalhemos em espaços pequenos, sem fazer muita sujeira nem barulho, dando o sinal verde para aquela marcenaria de apartamento que muita gente não achava possível.

Inscrições diretamente no Portal Sesc SP a partir das 14h do dia 16/3.

Principais Encaixes da Marcenaria – Caixa e Espiga. Ateliê do Brooklin, em São Paulo. Sábado e domingo, 1 e 2/4, das 9h às 18h. R$ 1.100

Este ano consegui colocar novamente na agenda os cursos sobre os três encaixes principais usados em marcenaria. Dois desses cursos acabaram indo para o SESC mas o de caixa e espiga permaneceu no ateliê. Há tempos eu ensinava esses encaixes focando apenas sua técnica de execução mas reformulei as propostas para vermos a aplicação prática e real dessas junções, algo que para mim faz mais sentido. Assim, vamos construir o par de cavaletes da foto explorando algumas variações de caixa e espiga cega e aberta, reforçada ou não com pinos ou cunhas, usando serrote, plaina, formão, bedame, furadeira, pata-choca e guilherme. Importante: o número de vagas no ateliê é limitado a apenas dois alunos, o que certamente garante privilegiada a todos.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Restauração, afiação e ajustes de plainas e formões. Oficina do Rodrigo Silveira – R. do Bosque, 892 – Barra Funda. Sábado e domingo, 15 e 16/4, das 9h às 18h. R$ 1.200

Oficina destinada a deixar as ferramentas dos alunos em condição de uso, lapidando, removendo ferrugem, afiando e ajustando-as. É necessário enviar fotos das ferramentas que pretende trazer para que possamos avaliar sua condição e as possibilidades que teremos de deixá-las a contento no decorrer do curso. De qualquer forma, a ideia é fornecer elementos para que os participantes possam restaurar ou ajustar suas próprias ferramentas, conhecimento que levam para aplicar em situações futuras. Dependendo do interesse podemos tratar também do restauro e afiação de goivas e outras ferramentas de entalhe. Os métodos de afiação previstos incluem esmeril, pedras d’água e diamantadas, lixa e reza brava.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Introdução à Marcenaria: Acabamentos históricos para madeira. Sesc 24 de Maio. Sexta-feira 21/4, das 10h às 17h (com intervalo).

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira – Graminho. Sesc 24 de Maio. Domingo, 7/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. O graminho é usado para marcar linhas paralelas. Ferramentas simples, frequentemente eram construídas pelas/os próprias/os marceneiras/os.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Principais Encaixes da Marcenaria – Rabo de Andorinha. Sesc 24 de Maio. De 12/5 a 30/6 (exceto 9/6). Sextas-feiras, das 10h às 13h.

Um dos mais conhecidos e relevantes encaixes usados na marcenaria, o Rabo de Andorinha deve a fama à sua beleza e aparente dificuldade de execução. Vamos ver que com um pouco de prática a tarefa não é tão difícil assim. Cada participante irá construir uma caixa de dois andares com alça, ótima para organizar ferramentas ou pequenos objetos e cheia de rabos de andorinha.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Acabamentos históricos para madeira. Sesc Vila Mariana. De 18/5 a 15/6 (exceto 8/6) Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc Vila Mariana.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira: Cabedais. Sesc 24 de Maio. Domingo, 28/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. Os cabedais ou desempeno são um par de réguas paralelas de madeira usadas especialmente para conferir a torção de um plano. Vamos ver como aplainar peças com precisão para produzir uma ferramenta confiável e durável.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Construção de Guilhermes. Ateliê do Brooklin em parceria com Roger Satoru Nakumo. Em junho, data a definir, R$ 1.500.

Outra ferramenta cujo nome provém do provençal, através do francês guillaume, o guilherme é uma plaina cuja lâmina possui a mesma largura do cepo. É usado justamente para limpar cantos ou mesmo para executar rebaixos os mais variados. No curso vamos fazer um guilherme usando ferramentas manuais, partindo de um bloco de madeira e empregando a técnica de laminação popularizada por James Krenov. É possível escolher entre a lâmina de 20mm ou 30mm de largura, que você pode comprar pronta ou aprender a temperar e revenir no aula extra. O valor do curso é o mesmo se você fizer sua própria lâmina ou se preferir recebê-la já pronta.

Cronograma:

Sexta-feira. Tratamento térmico e discussão sobre demais aspectos relevantes de metalurgia na oficina do Satoru no Bom Retiro. Das 19h às 21h.

Sábado e domingo. Das 9h às 18h. Confecção do cepo de madeira no ateliê do Brooklin.

Aula Regulares. Ateliê do Brooklin.

Todos os percursos didáticos acima foram definidos a partir da minha experiência e sensibilidade como artesão e professor. Acredito que são todos ricos e interessantes. Mas ao ateliê também vêm pessoas interessadas em trabalhar a partir de seus próprios interesses, seja algo bastante pontual como fabricar uma ferramenta ou aprender uma técnica quanto projetos de duração mais extensa, como fazer um móvel. Eu me disponho a acompanhar os processos de cada um, trabalhando lado a lado, algo que a meu ver faz bastante sentido para a transmissão de um ofício. Essa proposta é basicamente a mesma para adultos e também para crianças (neste caso acabo sendo uma espécie de avô profissional, tenho uma oficina cheia de materiais e ferramentas e ajudo nas invenções que pintam). Atualmente apenas dois horários estão disponíveis para as aulas regulares: segunda-feira à tarde e terça-feira à noite. Cada encontro dura duas horas. Maiores informações pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com 

Categorias
Diário de Viagem

A padaria

Há mais um ano estávamos em Juremal/BA, um pequeno distrito de Juazeiro e uma das minhas origens. Em frente à casa de uma tia havia essa padaria, poesia pura. É a mais antiga de Juremal. E acho que a única também. Dos Anjos contou para nós que o pai havia deixado a padaria para ela, que compartilhava a lida com o Neuto e os filhos. Deu tanta coisa bonita na conversa que demorei um ano para conseguir contar a história (ou estória, escrevo dos dois jeitos porque fartura de palavras acabou virando resistência, afinal o mundo continua cheio de anjos e bestas também). Na tarde que aparece na foto, ficamos aí conversando e depois voltamos no fim do dia para ver o Neuto preparando a massa. Depois de misturar tudo é preciso deixar a massa descansar e crescer. Fazer pão ensina os princípios, às vezes a gente cresce resistindo, às vezes descansando. Cada etapa invoca uma exigência: mental, física ou moral mesmo. Tem que saber esperar, ficar ali só cuidando, tem que ser ágil e pegar pesado, toda a rotina da casa em função do pão. O forno tem que acender ainda de tarde, enche tudinho aquele forno enorme de lenha, que queima até carvão. No dia seguinte lava tudo e só aí tá pronto para assar os pães. Aí voltei! Acordei cedinho e fui lá ajudar o Neuto. Cheguei bem na hora de começar a carregar o forno. Minha função era abrir e fechar a porta, atento aos movimentos precisamente coordenados do mestre. Aos poucos, ainda bem cedinho, o pessoal da cidade ia chegando para comprar pão. Assamos uns 600 pães naquela manhã. Acho que comi meia dúzia, ali mesmo e depois na casa da tia, já que saí da padaria com o pão do dia ganho. Dizem lá em Juremal que esse é o melhor pão do mundo. Não duvido, era alimento para o corpo e a alma.

Quick disclaimer: the world may not need another text about bread. Juremal is a small little town in the northeastern state of Bahia, in Brazil. It is one of my origins, granted the fact a person is entitled to originate in many places and times. My mom was born in this town and a big portion of our family still lives there. At the end of 2018 we paid them a visit, staying with Aunt Petinha, or Tia Petinha as we say it in Portuguese. Across the street from her house there was this bakery, the oldest in the area, pure poetry. One may ask how come a place that bakes bread can be poetic in any sense or stretch of the word but maybe these few words are not about bread. 

Dos Anjos, the woman who runs the bakery with her family, inherited the business from her father. Neuto, the husband, is the baker. We first got to talk one afternoon, that’s when the picture above was taken. Standing next to their firewood supply we talked about the bread making process, it seemed the whole family dynamic revolved around it. Later that day Neuto would start mixing the dough, which needs to rest for a few hours until it is time to form the loaves. 

Making bread is hard work, particularly on such a scale. Each step comes with a special requirement, either physical, mental and even moral. One must learn to wait, to be quick or work heavily, the entire family routine happening around those tasks. 

The huge wood-fired oven has to be completely filled by the end of the day, then the wood will burn to ashes that have to be cleaned before baking can actually begin. We were invited to come back: “be here at 5:00AM”, they said. I was! When I got there everything was set up so baking could start. Neuto would load this long board with loaves he would quickly release into the oven. It was frenzy but he had it under control. Or maybe I should say we, since at that point I was no longer an observer but took part in it. My task was to open and close the oven’s door, watching closely Neuto’s moves and trying to stay out of the way.

On that morning we baked 600 “pãezinhos”, our way of referring to bread. I confess, after eating a few loaves there I brought some more with me and ate again when the family was ready for breakfast. They say over there this is the best bread in the world. It’s hard to disagree, when such a simple thing, skillfully made by someone, is food for your body and your soul, this is the best thing ever.

Categorias
Madeira Verde

Cipreste

Ganhei um tronco de cipreste. Isso foi outro dia, alguém derrubou a árvore e deixou na beira da estrada. Um pedaço foi parar na fogueira lá no sítio. E não é que São João resolveu avisar? Alguma coisa me fez olhar as madeiras que tinham separado e empilhado, então antes de colocar fogo o João, meu cunhado, não o santo, me ajudou a tirar da pilha um belo pedaço de cipreste, foi só lascar e na hora o cheiro me fez lembrar da Argentina, onde conheci a madeira. Depois trabalhei de novo num pedacinho que tinha vindo de um cravo da Alemanha. Mas aqui eu nunca tinha visto.

Chegando no sítio eu até tinha percebido uns troncos jogados na estrada, pensei “tenho que dar uma olhada”, mas foi só com a iminência do fogo mesmo que resolvi me mexer. Depois fui com meu pai, que também é João, o João cunhado e o Van até a estrada para ver o resto do cipreste, uma árvore grande, não sei quem derrubou e jogou ali (ela não parecia ser dali). Picotamos algo para levar com machados, aquele cheiro bom de cipreste e uma alegria pelo achado, esse presente de São João e do meu pai, que também é João. Faz tempo que queria trabalhar com a madeira assim, coletando meu próprio material, usando ferramentas simples, trabalhando com as mãos, da árvore à coisa.

Agora que abriu o caminho eu corri pra fazer o cavalete da foto. Não tem coisa mais simples, você senta e empurra com o pé para travar a peça enquanto puxa a faca de tanoeiro, um absurdo de simpleza. Fiz inspirado em uma foto que vi do Roy aqui no insta da Megan. No último livro dele tem um desenho e algumas medidas também. Ontem foi o dia de estreia, com o cipreste, a família e mais tantas presenças e coisas, das visíveis e das invisíveis.