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Poltrona Estaqueada

Em agosto de 2023 tivemos a oportunidade de participar do curso “Stick Chair” Na Lost Art Press com Chris Schwarz. Foi uma oportunidade incrível que compartilhamos um pouco nesta live no nosso canal no Youtube:

Após fazer o curso com o Chris, me parecia natural que o primeiro curso aqui sobre esses móveis estaqueados acontecesse na Oficina Damata do Thiago, de forma que também fosse possível aprender com sua experiência e pesquisa. Decidimos ensinar essa poltrona da foto, presente no livro The Anarchist’s Design Book. São poucas vagas e cada um sai com uma poltrona dessas para levar para casa. Nos dias 11, 12, 13, 14 e 15 de em Goiânia/GO. Mais informações e inscrições: clique aqui.

Há uma bolsa disponível para esse curso. Se por alguma razão você gostaria de participar mas não tem como, mande um e-mail para sabercomasmaos@gmail.com contando qual é o impedimento, por que gostaria de fazer o curso e qual é sua experiência com marcenaria.

Aproveitando a passagem por Goiânia, também ministrarei o Curso de Plainas nos dias 09 e 10 de dezembro. Não perca a oportunidade! Mais informações: clique aqui.

Fotos tiradas por Thiago Endrigo. Todos os direitos reservados.

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A padaria

Há mais um ano estávamos em Juremal/BA, um pequeno distrito de Juazeiro e uma das minhas origens. Em frente à casa de uma tia havia essa padaria, poesia pura. É a mais antiga de Juremal. E acho que a única também. Dos Anjos contou para nós que o pai havia deixado a padaria para ela, que compartilhava a lida com o Neuto e os filhos. Deu tanta coisa bonita na conversa que demorei um ano para conseguir contar a história (ou estória, escrevo dos dois jeitos porque fartura de palavras acabou virando resistência, afinal o mundo continua cheio de anjos e bestas também). Na tarde que aparece na foto, ficamos aí conversando e depois voltamos no fim do dia para ver o Neuto preparando a massa. Depois de misturar tudo é preciso deixar a massa descansar e crescer. Fazer pão ensina os princípios, às vezes a gente cresce resistindo, às vezes descansando. Cada etapa invoca uma exigência: mental, física ou moral mesmo. Tem que saber esperar, ficar ali só cuidando, tem que ser ágil e pegar pesado, toda a rotina da casa em função do pão. O forno tem que acender ainda de tarde, enche tudinho aquele forno enorme de lenha, que queima até carvão. No dia seguinte lava tudo e só aí tá pronto para assar os pães. Aí voltei! Acordei cedinho e fui lá ajudar o Neuto. Cheguei bem na hora de começar a carregar o forno. Minha função era abrir e fechar a porta, atento aos movimentos precisamente coordenados do mestre. Aos poucos, ainda bem cedinho, o pessoal da cidade ia chegando para comprar pão. Assamos uns 600 pães naquela manhã. Acho que comi meia dúzia, ali mesmo e depois na casa da tia, já que saí da padaria com o pão do dia ganho. Dizem lá em Juremal que esse é o melhor pão do mundo. Não duvido, era alimento para o corpo e a alma.

Quick disclaimer: the world may not need another text about bread. Juremal is a small little town in the northeastern state of Bahia, in Brazil. It is one of my origins, granted the fact a person is entitled to originate in many places and times. My mom was born in this town and a big portion of our family still lives there. At the end of 2018 we paid them a visit, staying with Aunt Petinha, or Tia Petinha as we say it in Portuguese. Across the street from her house there was this bakery, the oldest in the area, pure poetry. One may ask how come a place that bakes bread can be poetic in any sense or stretch of the word but maybe these few words are not about bread. 

Dos Anjos, the woman who runs the bakery with her family, inherited the business from her father. Neuto, the husband, is the baker. We first got to talk one afternoon, that’s when the picture above was taken. Standing next to their firewood supply we talked about the bread making process, it seemed the whole family dynamic revolved around it. Later that day Neuto would start mixing the dough, which needs to rest for a few hours until it is time to form the loaves. 

Making bread is hard work, particularly on such a scale. Each step comes with a special requirement, either physical, mental and even moral. One must learn to wait, to be quick or work heavily, the entire family routine happening around those tasks. 

The huge wood-fired oven has to be completely filled by the end of the day, then the wood will burn to ashes that have to be cleaned before baking can actually begin. We were invited to come back: “be here at 5:00AM”, they said. I was! When I got there everything was set up so baking could start. Neuto would load this long board with loaves he would quickly release into the oven. It was frenzy but he had it under control. Or maybe I should say we, since at that point I was no longer an observer but took part in it. My task was to open and close the oven’s door, watching closely Neuto’s moves and trying to stay out of the way.

On that morning we baked 600 “pãezinhos”, our way of referring to bread. I confess, after eating a few loaves there I brought some more with me and ate again when the family was ready for breakfast. They say over there this is the best bread in the world. It’s hard to disagree, when such a simple thing, skillfully made by someone, is food for your body and your soul, this is the best thing ever.

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Museu do Homem Americano

Desde que visitamos o Parque Estadual do Ibitipoca, há alguns anos, sempre que temos oportunidade de viajar, eu invento de explorar o parque mais próximo do nosso destino. E dessa vez não deu outra. Arrastei os cunhados e o marido até o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, há 300km de Juazeiro, na Bahia. A gente gosta de estrada, hehe.

Foram umas boas horas nessa estrada de terra aí. De novo aquela sensação de ir pra dentro do dentro. Chegamos em São Raimundo Nonato já de noitinha, jantamos uma pizza na cidade e um refrigerante de caju pra acompanhar.

No dia seguinte, fomos nos informar de como visitar o Parque. É necessário ter um guia contratado para entrar. Pegamos o telefone de alguns na pousada, acertamos os passeios para o dia seguinte e fomos visitar o Museu do Homem Americano. Eu não sabia muito sobre a história desse lugar. E visitar o Museu nos deu a dimensão do privilégio que era estar ali.

A concretização do Museu, do Parque e de tantas outras iniciativas da região são esforços da arqueóloga brasileira Niède Guidon que, na década de 70 foi informada por um morador da região da existência de pinturas rupestres. A pesquisa da Niède, encontrou mais de mil sítios arqueológicos na região (o maior número da América Latina) e fez uma descoberta que muda a teoria do povoamento do continente americano. Até hoje, a teoria mais aceita é a de que o homem chegou aqui caminhando pelo Estreito de Bering há cerca de 15 mil anos atrás. Porém, Niède encontrou vestígios da presença humana 43 mil anos mais antigos. Ou seja, a origem do homem americano é nordestino!

No Museu, é possível encontrar inúmeros artefatos, verdadeiros tesouros dessa nossa origem. Vestígios de um tempo e época em que é quase impossível imaginar. Percorrendo os corredores eu tentava me colocar no lugar desses homens e mulheres. Como era essa vida? Como era esse mundo?

No segundo andar, vestígios um pouco mais próximos de nosso tempo. Ali eu já reconhecia a cultura indígena. Mas algo me chamou a atenção. Parece que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia. Sabem essa sensação? Então, foi isso que senti quando vi as urnas funerárias redondas, em forma de útero, feitas de barro. Não havia muita explicação do porque enterraram seus mortos assim. Mas eu gostos de pensar que é por que quando a gente morre, devemos voltar ao útero, mas dessa vez ao da mãe terra.

Falando em cerâmica, fomos visitar mais o Grupo de Cerâmica Artesanal da Serra da Capivara que fica em Coronel José Dias, município próximo de São Raimundo Nonato. Primeiro, desfrutamos de um almoço delicioso, e depois fomos super bem recebidos na fábrica ao lado. Nos deram um tour super detalhado e ainda colocamos a mão na massa. A iniciativa é mais uma de mérito da Niède. Ela logo percebeu que para que o Parque se mantivesse vivo e protegido, era necessário envolver toda a comunidade. Para isso, resgatou esse fazer ancestral da região: trabalhar o barro. Criada em 1992, o grupo emprega mais de 30 artesãos, além de treinar os mais jovens. Pra quem é de São Paulo, talvez já tenha visto as peças lindas na loja TokStok. São copos, pratos, tigelas, vasos e outros que celebram as pinturas rupestres que podemos ver no Parque. Foi lindo ver o barro no Museu e depois vivo nas mãos das pessoas que vivem ali.

Para finalizar o dia, fomos visitar o recém-inaugurado Museu da Natureza. Bem diferente do primeiro que visitamos, este apresenta uma experiência mais imersiva e tecnológica. Mas o mais bonito mesmo é ver a História Natural da região ser contada com tanto esmero, cuidado e orgulho. De novo, a sensação de ter encontrado um tesouro me inundava. Para fechar o dia, a natureza se impôs. O último ponto do Museu, o mirante, nos presenteou com os últimos raios de sol.

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Roda de São Gonçalo

No primeiro dia do ano, organizaram uma Roda de São Gonçalo pra gente ver como era. A gente, “os meninos”, como todos nos chamavam. Desde que a gente se conheceu o Thiago me falava: “a gente precisa ir pra Bahia”. Sempre me contava da família com muito carinho. E nesse dia eu me senti mais do que nunca parte dela e entendi por que ele insistia tanto pra gente ir pra lá.

Acho que foi ideia do Tio Lelinho. Ele se surpreendeu que a gente não sabia o que era Roda de São Gonçalo. É uma dança, que se faz pra pagar uma promessa ao santo. Dançam seis pares, homem com homem e mulher com mulher. E tem música ao vivo com os contra-guias que tocam violão e pandeiro. Então não havia dúvida: antes da gente partir pro Piauí, a gente tinha que brincar de Roda.

Foi tudo armado pelo Lelinho. Chamou os amigos e o resto da família. Marcou o encontro na acaxa. Ah, acaxa. A fazenda da família, A origem de tudo. Lá que os ancestrais nasceram e tiveram filhos. O ponto que conecta toda essa gente. Não basta ir pra Juremal, tem que ir pro interior da Jurema. Fomos de carona até lá, uns 20 minutos no máximo na estrada da terra. Mas eu tinha a impressão que eu tava indo pra dentro do dentro mesmo. E que lugar lindo. Fiquei pensando nas histórias que fui ouvindo. Como era morar ali há 50, 60, 100 anos atrás. Tirar sustento da terra vermelha.

Chegamos lá e já tinha muita gente esperando. Tudo família me contaram. Tavam só esperando a gente. Primeiro demos uma voltinha pelas terras, que dia lindo que fazia. O sol tava querendo ir embora já. Então, bora começar a dança.

Não teve muita explicação, foi só um tal de pega o seu par e entra aí na Roda e imita os outros. E é assim que se aprende a brincar, né? Brincando. Me senti numa brincadeira, mas era tudo muito sério. Se errava o passo, tinha que voltar e fazer direito. E a gente errou pra caramba, rs.

Quando lembro desse momento, uma cena em câmera lenta começa a aparecer na minha cabeça: a gente rodando, a música tocando, o canto dos versos, o pé no chão, todo tingido da terra vermelha, a garganta seca e o céu. Ah, o céu. Foi o pôr do Sol mais lindo que eu já vi. Quanto mais o sol baixava, mais vermelha ficava uma linha contínua no horizonte todo. E o cobertor de estrelas vinha chegando, num tom de azul, daqueles que tinta nenhuma tem. Naquela hora, muita coisa fez sentido.

Foi muito especial, e de uma generosidade sem fim. Mas bom mesmo, falaram pra gente, era ter feito um churrasco, ter chamado o sanfoneiro e ter dançado um forró. Mas não dava tempo, afinal a gente ia ficar pouco, no dia seguinte a gente já partia pro Piauí. Ninguém se conformava que a gente ia embora: “vem todo esse caminho pra ir embora, assim? tem que vir e ficar um mês e dormir na minha casa”. Rolou um ciúme que a gente só dormiu na casa de uma tia. Mas a gente voltava, depois do Piauí ia ter mais um dia lá.

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A chegada em Juremal

Chegamos em Juremal pouco antes do almoço, então deu tempo de tomar uma cerveja gelada e jogar palitinho com os tios e primos. As panelas já cheiravam e achei interessante que praticamente metade da casa era tomada pelas duas cozinhas. Pra mim, a cozinha é o coração de toda casa, e o fato da casa da Tia Petinha ter duas (fogão a gás, outro a lenha) já dizia muito sobre ela: uma mulher de coração grande.

Além das comidas deliciosas – beiju, peta, cuscuz, arroz, feijão, peixe, carne de bode, carne de vaca, legumes – também tinha panela no fogo com calda de açúcar. Era pra fazer ambrosia. Tia Petinha é doceira, assim como a Tia Dida. Depois de um tempo que chegamos, já tinha gente na porta dela procurando por picnic.

De barriga cheia e quase rolando (Come menina, não vi você comer. Como come pouco ela, né? Ah, Thiago, coma mais, não comeu foi nada. Não gostou da comida, foi?) fomos dar uma volta na cidade. Na frente de Tia Petinha mora o Tio Lelinho, depois da praça, ali, no fim da rua, mora Tio Régis e na esquina, Tia Dida. No começo da rua, mora Tia Vadina.

A sensação era de cidade que parou no tempo. A estação de trem, tão bonita, abandonada. O trilho de trem, servindo só de enfeite e de lembrança de um tempo que já foi. O mandacaru querendo florir. O sol quente e a brisa suave. Silêncio. De repente, a porca na praça. Grande, gorda, preta. Mais silêncio. Apesar dele, dava pra ouvir o barulho da vida invadindo tudo o tempo todo. Tudo tinha vida, dessas vividas mesmo. História, conversa, sentido, significado. Cada cantinho pulsava a vida. Mas vida mesmo. Com dor, tristeza, alegria, amor, e muito, muito afeto.

No fim do dia, fomos até a roça da Tia Petinha. Tinha que ir andando pelo trilho do trem. Ela ia andando e me contando suas histórias de quando era pequena. Na roça da Tia Petinha tem de tudo, benção da água que chegou não faz muito tempo. Tem até uns coqueiros baixinhos, dando coco verde e maduro, tudo a mão. Nos contou do trabalho que dá ver dar frutos a terra. Também falou do seu sonho de construir uma casa e ir morar lá. A vizinha tinha umas cabras e vendia queijo do seu leite. A ovelhinha açucena, presente pra neta, nos concedeu alguns minutos de cafuné. Colhemos. Conversamos. Rimos. Apreciamos o pôr-do-sol.

Era o último dia do ano de 2018. Acho que esse dia valeu pelo ano inteiro.

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Juremal e o Piauí

Revisitar essa viagem para escrever essa série de posts que intitulamos Diário de Viagem é muito especial. Essa viagem foi o começo de tudo. Explico: fomos visitar a família da mãe do Thiago em Juremal, cidadezinha no interior da Bahia. Foi lá que ela nasceu e lá estão suas origens. Também foi no mesmo roteiro que incluímos o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, onde foram encontrados os registros de atividade humana mais antigos da América, indicando que o homem americano nasceu no sertão do Brasil. E foi depois dessa viagem que descobrimos que a Rosinha estava chegando para nós. Mais especial, impossível.

Dessa conexão entre as nossas origens mais profundas e antigas, vivemos momentos muito especiais, resgatando o que para nós dá sentido ao Saber com as mãos: as relações humanas ancestrais com as coisas, fazeres e a terra. Vamos compartilhar aqui alguns desses registros em uma série de posts.