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A Linguagem da Madeira

O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago e do encontro dele comigo. Nossos caminhos se cruzaram e também nossos conhecimentos e partilhas sobre o mundo. Apesar das nossas discussões, ideias e reflexões contribuírem muito para o que acontece tanto aqui no Saber com as Mãos em si, quanto nas nossas vidas profissionais individuais e nos espaços que a gente habita como indivíduos, nós nunca havíamos dado uma oficina juntos.

Em julho de 2025 tivemos essa oportunidade no Sesc Santana. Para mim, Giulia, pude aprender mais sobre a madeira e sobre a marcenaria na prática. Aprendo muito com o Thiago e vejo ele se relacionando com esse conhecimento há muito tempo. Mas é bem diferente quando a gente tem a oportunidade de vivenciar, manusear e se colocar em relação com a materialidade, nesse caso a madeira.

Mas, agora, faço uma reflexão de que essa oportunidade foi mais do que poder entender mais sobre a madeira. Foi uma oportunidade de me colocar em relação com as crianças de uma forma diferente. Por meio da madeira, das suas características e da proposta que estava em voga naquele dia, eu pude conhecer mais sobre o que as crianças pensam e fazem quando estão explorando a madeira. Quais os gestos elas usam? Quais perguntas elas se fazem? Quais ações as interessam mais? Como reagem quando a madeira responde aos seus gestos, olhares, e sensações?

Esse olhar, essa curiosidade sobre como e o quê as crianças pensam eu aprendi estudando e vivenciando a Abordagem Reggio Emilia. Mais do que uma abordagem, é uma experiência educativa que acontece todos os dias nas escolas de educação infantil da rede pública de ensino dessa cidade italiana. Uma realidade que está há muitos quilômetros de distância da nossa, mas que inspira e nos ensina sobre valores democráticos e de resistência em tempos que assombram as possibilidades da imaginação, criação e pensamento crítico na sociedade e na escola.

A partir dessa experiência no Sesc Santana, fomos tecendo alguns pontos e conexões importante sobre o trabalho do Saber com as Mãos com as crianças e os modos como a Abordagem Reggio Emilia entende a educação, a importância das materialidades, dos projetos e da pesquisa.

Dessas tessituras nasceu um desejo de compartilhar muito do que andamos pesquisando e estudando sobre isso, apresentando possibilidades de trabalho e de entendimento sobre a madeira e as crianças. E assim, nasceu a Aula Online: A Linguagem da Madeira.

Eu e Thiago pensamos em abordar no período de três horas conceitos como ateliê, projetação e aprendizagem na Abordagem Reggio Emilia; as propriedades e características da madeira; explorar e discutir possibilidades de trabalho com a madeira com as crianças e ainda uma prática de exploração com alguns materiais sugeridos previamente.

A ideia é que professores, atelieristas, educadores, artistas, arte-educadores e demais interessados em levar a madeira para a sala de aula possam se aproximar desse material e refletir sobre suas possibilidades, sentindo-se mais confiantes e seguros para levar a madeira como material de exploração, investigação e pesquisa.

Se você se interessou ou tem alguma dúvida, nos escreva aqui nos comentários ou no Instagram: @giuliaciavatta_ ou @sabercomasmaos

Mais informações:
Aula online: A Linguagem da Madeira com Saber com as Mãos 
Giulia Ciavatta & Thiago Endrigo

Data: 31/01/2026
Horário: 9h às 12h

Valores (escolha qual mais se adequa para você):
R$90 – valor mínimo
R$140 – valor justo
R$200 – valor ideal

Inscrições: https://forms.gle/PtHZ9HGMbvuEGwJu9

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Fazendo o mundo – reflexões sobre os fazeres, as crianças e os adultos

Eu aprendi a fazer tricô com a minha vó. A cada inverno, ela presenteava um ou dois netos com um cachecol de lã feito por ela. Eu ficava admirada com a sua proeza. A gente escolhia a cor e o estilo e depois de alguns finais de semana, pronto! Lá estava ele prontinho e quentinho. Não era um cachecol que se encontrava em lojas, ou em qualquer lugar. Mas um cachecol feito pela minha vó. Assim que eu entendi que era possível fazer um também, pedi pra minha avó me ensinar. E eu aprendi… e até hoje é a minha peça preferida de tricotar.

Minha avó sempre fez coisas. Me lembro que antes de aprender a tricotar, ela me ensinou a bordar tapetes de lã. Sabe aqueles que você compra a tela com o desenho pronto e vai preenchendo? Eu ficava maravilhada com os pontos que iam formando um desenho, e depois da peça terminada, lá estava um tapete bonito que eu tinha feito com as minhas mãos. Minha avó também gostava de fazer os enfeites de mesa para as festas de família, arranjos de flores e até hoje ela borda panos de prato.

Já adulta, fiquei fascinada pela técnica do amigurumi. Aprendi com uma amiga da faculdade, na casa de outra amiga. Eu fiquei obcecada, passava qualquer tempo livre fazendo crochê. Tão prazeroso pegar as linhas, sentar no sofá, ou na cama e assistir aquela série favorita, ouvir um podcast ou simplesmente se perder em pensamentos. Mas também, é uma delícia levar o crochê pra fora. Enquanto se locomove no ônibus ou metrô, espera por alguém, ou simplesmente sentar em algum lugar e pegar as linhas. Existe até o “Knit In Public Day”, um dia especial para todas as tricoteiras levarem os novelos para fora. 

Em 2018, fizemos uma viagem muito especial para o Norte da Argentina. Em um pequeno pueblo nas montanhas, sentei na única praça e comecei a crochetar uma boneca. Não demorou muito para uma moradora se aproximar e puxar assunto. Descobri que ela também gostava de tecer. Crochetar em público é sempre uma maneira de se conectar com as pessoas, mesmo que seja por um olhar curioso. 

Logo tive a ideia de levar o crochê para a escola. Na época, eu era professora, e enquanto as crianças brincavam no tempo livre, eu crochetava um pouquinho.

“O que é isso?”, “O que você está fazendo?”, “Você que faz?”, “Como você faz?”, “A minha vó também faz, sabia?”. As crianças são muito mais desinibidas que os adultos. Perguntam tudo. Algumas também só olham curiosas. Mas essa experiência com elas me fez começar a questionar: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

Em outra escola que trabalhei, lembro que era muito comum encontrar o porteiro (que também fazia reparos de manutenção) pela escola fazendo algo. Era um momento muito rico e as crianças de todas as idades sempre demonstraram muito interesse: “O que você tá fazendo?”, “Posso fazer também?”, “Como chama esse (apontando para alguma ferramenta)”. 

As crianças estão descobrindo o mundo, e ao se deparar com esses processos, descobrem como se faz o mundo. Percebem as materialidades e as possibilidades de se construir, reparar, consertar, criar… Percebem a possibilidade do criar humano. Vivendo em cidades grandes, as crianças (e os adultos também) estão cada vez mais afastadas desses processos, tudo está muito pronto, acabado e fácil nas mãos das crianças. Retira-se a possibilidade de se entender o mundo por meio de seus processos mais básicos. Ficamos desconectados, afastados e alienados e as consequências disso começam a ficar cada vez mais perceptíveis. 

Quando comecei a refletir sobre isso, há mais de 10 anos – e quando as redes sociais ainda engatinhavam – já se via alguns sinais dessa desconexão, principalmente nas crianças. Mas passado esse tempo, nós todos temos acompanhado como isso tem impactado as novas gerações de jovens e adultos. Um estudo sobre felicidade apontou que as novas gerações estão mais descontentes, em comparação com as anteriores. É claro que a razão disso não está só nesse processo de desconexão com os processos que citei acima. Para todo problema, existem mil camadas, e nunca existe somente uma resposta. A crise do capitalismo, a questão climática, viver em uma sociedade neoliberal, a ameaça das inteligências artificiais e o crescimento do fascismo no mundo todo contribuem – e muito! – para isso. É urgente estarmos cada vez mais atentos às essas questões e buscar maneiras de resistir – e não sucumbir – em um mundo cada vez mais colapsado.

Para mim, se reconectar com os processos que fazem o mundo é uma forma de resistência e pode apontar uma saída interessante. Sempre que penso nessa sensação iminente de colapso que vivemos todos os dias, eu começo a pensar: a humanidade já passou por outras crises. Diversos povos e grupos sociais já passaram por colapsos e transições, talvez até muito piores do que estamos passando (a gente sempre tende a achar que a nossa situação é a pior do mundo e da história, né), e então: como eles fizeram? Como resistiram? O que os sustentava durante esses períodos? Conhecer as histórias de resistência podem nos apontar caminhos interessantes, e esse tema tem aparecido nas minhas pesquisas com frequência.

“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar no século XXI ainda esperando, reivindicando e desafiando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desse povos.” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 28

Ailton Krenak diz em seu livro que os povos indígenas estão enfrentando a crise já há muito tempo… nós brancos que estamos desesperados agora, tentando entender… mas eles já entenderam e sabem como sobreviver.

“Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: ‘Como os índios vão fazer diante disso tudo?’. Eu falei: ‘Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa’”. Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 31

Para mim, os povos originários guardam as respostas para muitas das perguntas que nós estamos vivendo. Não são respostas prontas, nem fáceis… mas são apontamentos, guias, que podem nos fazer refletir qual caminho seguir e quais não. E quando penso nessa conexão com os fazeres, me lembro da educação indígena. Você sabe como uma criança indígena aprende? Ela aprende vendo, observando, estando perto, sendo convidada a participar repetidamente e cotidianamente os fazeres da comunidade. Fazer e plantar a comida, fazer as vestimentas, fazer as tintas corporais, fazer brinquedos, fazer utensílios, fazer mobiliário… fazer, fazer, fazer. Um fazer que é prático, necessário. Um fazer coletivo que gera pertencimento, que preserva conhecimento, que dá sentido à vida social e que gera o próprio sentido criador humano. Em suma, que nos torna humanos.

Agora, eu volto à pergunta: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

No Saber com as Mãos, a gente tem um pouco essa ideia. Nossas aulas, são esse espaço de ter um adulto, ou par mais experiente, disponível ali para ensinar, guiar, observar. Além de ser um espaço tempo que a gente reserva para fazer, e sair da rotina que nos engole e aliena. Um formato de aula que a gente gosta bastante também é com famílias. Adultos e crianças juntos, fazendo algo, experimentando e vivendo um pouco dessa experiência com as mãos. 

No dia 28 de junho, teremos mais uma edição do curso de banquinho de 3 pés em parceria com o Rodrigo Silveira, na oficina dele, na Barra Funda em São Paulo. Será das 14h às 18h e para se inscrever é só mandar uma mensagem para nós em @sabercomasmaos ou para o Rodrigo em @rodrigoquefez no Instagram. Fazer o banquinho é na verdade só uma desculpa para estarmos juntos… mas levar pra casa um banquinho feito a muitas mãos e depois poder tê-lo em casa também é muito legal! Vamos fazer juntos?

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Educação

Volta às aulas, a cidade e as crianças

Amanhã as aulas retornam, começa o ano letivo. Para mim, que sou mãe e educadora, confesso que é um sentimento um tanto ambíguo. Primeiro, porque isso significa que as minhas férias acabaram também e volto a trabalhar. Além disso, encarar o começo de ano na escola é como encarar a arrebentação no mar. É preciso enfrentar ondas fortes e altas, constantes. Quando você está se recuperando de uma, logo vem outra, e outra e outra… até que finalmente você atravessa e dá de cara com a infinitude do mar tranquilo. Algumas ondas mais fortes podem vir, tormentas até, mas com um espaço de tempo um tanto maior. 

É assim que me sinto, sendo coordenadora pedagógica no começo do ano. As ondas, ou as demandas, surgem uma atrás da outra e é preciso dar conta de muito em pouco tempo. Acolher famílias, crianças e professores enquanto eu também tento me equilibrar; estar atenta e forte; é um desafio grande. Mas ano após ano vou sentindo que vou conhecendo um pouco mais desse mar… a textura da areia nos pés, reconhecer quando a onda que se aproxima talvez me derrube, antecipar o caldo, pegar jacaré ou mergulhar profundo quando não é possível enfrentar de peito aberto, ouvir o vento e a temperatura da água. Cada vez mais vou aprendendo a navegar nessas águas. Mas o frio na barriga é sempre o mesmo. Sair debaixo do meu guarda-sol, levantar e enfrentar a arrebentação é necessário coragem e disposição. Por isso, o sentimento ambíguo e a vontade de esticar um tantinho mais essas férias.

Mas, eu também sou mãe, e anseio o retorno pro mar! Rosinha já está crescida, com cinco anos, e mais do que nunca, sentiu muitas saudades das escolas nessas férias. Ela é filha única, e vi o quanto ela desejava brincar e estar com outras crianças no tempo afastado da escola tão querida. Além de demandar bastante nossa companhia para brincar, cada vez que íamos a um parque, praça, ou museu, ela perguntava: mas vai ter crianças? Como é importante esse espaço da escola, do coletivo, do parque, do encontro, do livre brincar. Fico pensando como deve ter sido difícil pras crianças que tinham a idade da Rosa hoje, lá atrás, na pandemia… e fico me imaginando mãe dessas crianças que ficaram isoladas em casa. Bom, os impactos disso eu vejo como educadora, mas não tive essa experiência como mãe. Rosinha tinha cinco meses quando começou o lockdown, e nossa experiência foi diferente.

Essa saudade toda da escola, essa busca incessante da minha filha pelo encontro com seus pares, me faz refletir muito sobre os espaços disponíveis nas cidades para que isso aconteça. Mais de uma vez fomos a pracinha mais perto de casa que tem parquinho, e encontramos a praça esvaziada… não quero ser injusta, já fomos lá outras vezes e já encontramos a praça bem mais povoada, principalmente em dias de sol e finais de semana. Mas, fora essa praça, que até tem um espaço bacana, cuidado e mantido pelos moradores, pras crianças brincarem, tenho muita dificuldade de pensar em outros espaços de brincar livre para levar a Rosa. Existem os SESCs, é verdade, com espaços de brincar muito legais, mas geralmente com horários mais restritos e distribuição de senhas ou marcação de horário. E como tenho essa mania de pensar como tudo pode ser diferente, fico sonhando com parques bem legais, ao ar livre, com desafios motores (subir, pendurar, escalar, balançar, escorregar) para crianças grandes também (muitos espaços de brincar no SESC são destinados para as crianças menores).

Muitas vezes, nessa busca de lugares para ir com a Rosa, acabo me deparando com muitas opções pagas, plastificadas, prontas, acabadas, com muito barulho e pirotecnia para as crianças. Onde tem de tudo, menos chance delas poderem brincar livremente, inventar brincadeiras, se relacionar com outras crianças (aliás, outro tópico importante mas que não vou me aprofundar é: como os adultos ficam em cima das crianças o tempo todo, impedindo que elas possam resolver conflitos, inventar modos de descer, subir, se arriscar nas praças e parques). Sinto falta de espaços de encontro de fato. Onde adultos e crianças possam usufruir de espaços e materiais de qualidade, se encontrar, se relacionar, conviver.

Conviver: “viver em proximidade, compartilhar do mesmo espaço, coexistir”. Tivemos uma experiência nessas férias muito próxima ao conviver.

Passamos 14 dias em Buenos Aires. Thiago deu dois cursos de cadeira no ateliê do Hernán Costa, em Villa Urquiza (em breve faremos um post). Nos dias em que ele estava dando curso, eu e Rosinha exploramos a cidade. Alguns dias em companhia de amigos queridos com filhos pequenos também, e em outros sozinhas mesmo. Mas não tinha dúvida do que fazer: ir para a pracinha. Em qualquer bairro que estivéssemos, era só abrir o Google Maps e localizar uma praça que tivesse Patio de Juegos. Na maioria das vezes, o que encontrávamos era uma praça amigável e um parquinho muito legal, que dava espaço para as crianças inventarem muitas brincadeiras. Além disso, principalmente no fim da tarde, quando o sol quente já tinha baixado um tanto, as praças se enchiam. Adultos e jovens fazendo todo tipo de esporte: basquete, futebol, yoga, dança, patins, bicicleta, ping pong… encontros de casais, amigos, famílias, vendedores de bolas, picolés, bolhas de sabão, músicos, além de uma assembleia de bairro e um ensaio de bloco de carnaval. Muita vida!

Isso me deu um sentimento de pertencimento, de comunidade, de convivência, que nutrem a vida na cidade. E que sinto tanta falta aqui em São Paulo. Talvez eu esteja morando no bairro errado, mas acredito que muitas pessoas também sintam o mesmo que eu… mas voltando às praças de Buenos Aires, recentemente houve um investimento grande do governo da cidade para renovar esses espaços, e hoje são mais de 40 distribuídos nas 15 comunas. Os parquinhos são temáticos e além de bonitos, são realmente pensados para as crianças terem brincadeiras de qualidade. São feitos pela empresa Cruci Juegos e a qualidade é bem bacana também. Parquinhos feitos pra durar. E como sonhar não custa nada, sonho com um grande projeto aqui em São Paulo, que olhe pras crianças e para os espaços públicos de brincar: parques, praças, brinquedotecas públicas, escolas… espaços acessíveis para todos, bem cuidados, pensados, planejados que valorizem a infância e o brincar.

Pra finalizar e também combater a ideia de que pra brincar a gente precisa de espaços esteticamente fofos e bonitos, deixo aqui alguns projetos que usam bem pouco, mas que promovem um brincar de excelente qualidade:

O primeiro é um vídeo produzido pelo maravilhoso e brasileiro Território do Brincar, sobre o The Yard um parque de brincar livre em Nova York que foge da ideia do parquinho, arrumado e planejado, mas que mostra pra gente que pra brincar com qualidade, basta que os adultos organizem, pensem, e cuidem dos espaços, além de promover a utilização deles pelas famílias e crianças. O segundo é outro vídeo do Instituto Alana sobre os parques naturalizados. 

Esses dois projetos dialogam muito com o livro Terreno Baldio do Jader Janer que li ano passado com o grupo do GEP, da Alice Proença. Jader recupera de suas memórias da infância um terreno baldio da vizinhança e as brincadeiras que surgiram dali, do entulho, do que ele chama de “desútil” e as “desimportâncias” desses momentos preciosos. 

Um parquinho belo e bem projetado, um parque de livre brincar, feio e desarrumado, ou um parque natural seja qual for o espaço, é preciso pensar, cuidar e viver esses espaços na cidade. Esses espaços renovam a esperança, a segurança e a saúde da cidade toda. Agora, me contem: aonde vocês tem ido com as crianças?

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Educação

Saber com as Mãos

Desde que criei um novo novo perfil no Instagram, sempre fico pensando nessa separação que a rede social acabou me forçando a fazer. Tenho três perfis: um pessoal (que o propósito sempre foi colecionar memórias), um sobre crochê (que fiz para vender bonequinhas e amigurumis) e esse aqui. Fico pensando nessas 3 “Giulias” (mas na verdade elas são tantas mais, e também uma só). É impossível fazer essa separação na vida real. Carrego quem eu sou por onde eu vou. Minhas experiências, minha vida pessoal, minhas habilidades manuais, minha paixão por educação, meu maternar, minhas origens, tudo se entrelaça num bonito tecido que revela minha história, minha identidade.

Uma das metáforas que mais gosto para falar da vida humana é a do tear. Para fazer um tecido é preciso das urdiduras e da trama. O urdume, ou urdidura, são os primeiros fios a entrarem no tear, aqueles que compõe o tecido longitudinalmente. A trama é aquela que vai trançando a urdidura. Penso que nossa essência está na urdidura. Na trama estão as experiências que a vida que vai nos trazendo e nos trançando. O encontro entre a trama e a urdidura vão compondo o tecido da nossa vida.

De um desses encontros, entre trama e urdidura, nasceu o Saber com a Mãos. O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago. Nos conhecemos em 2012. Eu, pedagoga e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?

A paixão por marcenaria, na verdade, é essa paixão pelo encontro humano pelos materiais concretos e a possibilidade de nossas mãos, ao dedicar esforço e resiliência, de se relacionar com eles, poder produzir, poder trazer ao mundo algo real e belo (não só belo, pelo valor estético, mas belo por ser algo autêntico e real, mas que antes habitava outra espacialidade). Nossas mãos carregam essa possibilidade e acreditamos que essa é uma capacidade fundante do ser humano, ou seja, com o distanciamento cada vez maior dos processos manuais, acabamos nos separando de algo que nos constitui, de ser humano. O fazer e o saber com as mãos nos tornam mais humanos. E portanto, acreditamos em uma educação que passa pelos processos manuais, que valoriza os fazeres manuais e que sobretudo, na possibilidade das crianças (e adultos) experienciarem tais processos.

Hoje, o Saber com as Mãos se concentra em aulas de marcenaria com crianças e adultos em escolas de São Paulo, unidades do Sesc e no ateliê. Oficinas de bordado e crochê também acontecem esporadicamente, assim como a encomenda de bonecas e brinquedos de crochê. Também somos parte do Podcast Cheio de Dedos que tem episódios mensais sobre o fazer manual, trazendo temas específicos da marcenaria, mas também conversando com as pessoas de variados ofícios. Você pode nos ouvir no Spotify e em breve no Youtube. Outra atividade central é a pesquisa e divulgação desses fazeres, publicado em revistas, em nosso site e redes sociais.

Mas, como disse no início, além de nossas atividades, o Saber com as Mãos permeia nossas vidas, faz parte de quem somos, do nosso olhar para o mundo. Convido vocês então, a saber mais do nosso projeto. Acesse nosso site, nossos perfis, entre em contato e compartilhe com os amigos 🙂

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Podcast

Cheio de Dedos: Glossário de Marcenaria

O segundo episódio do nosso podcast está no ar! O tema da vez é Glossário de Marcenaria, com especial destaque para o nome das ferramentas. A ideia é conversar um pouquinho sobre esses termos, apontar alguns materiais de consulta e tentar fazer uma compilação dos nomes que existem por aí.

O grande mote da nossa conversa foi a série de enquetes que o Tony fez em seu perfil do Instagram com o intuito de conhecermos os termos em português. A partir disso discutimos os termos e algumas questões éticas e políticas envolvidas no tema também.

Ao final do post você encontra um bônus! A lista de nomes e ferramentas compilada nas enquetes do Tony.

Ouça aqui ou no link RSS: https://anchor.fm/s/ef7a4960/podcast/rss

Referências do episódio:

  • Cunha, Antônio Geraldo. Dicionário etimológico da língua portuguesa.
  • Hayward, Charles H. Guia prático de marcenaria.

https://www.estantevirtual.com.br/rodg/charles-h-hayward-guia-pratico-de-marcenaria-4116563223?show_suggestion=0

(Estante Virtual é um site onde já compramos livros antes. Não temos nenhuma relação com eles nem ganhamos nada se você clicar no link. Compre de quem você achar melhor.)

  • Hjorth, Hermann. Manual do Marceneiro. Edições LEP, São Paulo.
  • Marcellini, Domingos. Manual Prático de Marcenaria. (Download gratuito no site da editora.)
  • Tacla, Zake. O livro da arte de construir.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/zake-tacla/o-livro-da-arte-de-construir/27357398

(Estante Virtual é um site onde já compramos livros antes. Não temos nenhuma relação com eles nem ganhamos nada se você clicar no link. Compre de quem você achar melhor)

Lista com os nomes em português e inglês das ferramentas compiladas por Tony no Instagram:

Rebote ou garlopim: jack plane (#5)

Garlopa: jointer plane (#7)

Desbastadeira (ou come gente!): scrub plane

Plaina de afagar, alisar, polir: smoothing plane (#3 ou #4)

Plaina de volta: compass plane

Plaina de focinho: bullnose plane

Pata-choca, guimbarda, tupia manual: router plane

Goivete: plow plane

Replaina: panel raising plane

Cantil ou rebaixadeira: moving filister plane

Plaina de ganzepe: dovetail plane

Plaina de viés: fiber board plane

Cepo bastão: round and hollow plane

Cepo de gola: moulding planes

Berço, fiel, cama, forqueta: plane frog

Corteché, boquexim, rastilha, faca inglesa: spokeshave

Formão de aparar ou talhadeira: (paring) chisel, bench chisel

Formão chanfrado: beveled chisel

Bedame: mortising chisel

Raspilha, raspadeira: card scraper

Brunidor, virador de fio: card scraper burnisher

Faca de tanoeiro: drawknife

Shavehorse: banco de tanoeiro

Esgache: beading tool

Trado: auger

Arco de pua: brace

Maquineta: furadeira manual

Broca ou verruma de expansão: expansion bit

Verruma: broca manual / gimlet

Serra de arco, serra de traçar: frame saw

Cavilheiro: dowel plate

Suta: bevel gauge

Escantilhão: bar gauge ou pinch rods

Curtamão: layout square

Cabedais ou desempeno: winding sticks

Cintel: compasso de régua

Galgadeira: panel gauge, graminho para painéis

Sovela: punção

Barrilete: holdfast

Mordente ou espera: bench dog

Taleiro, sobrebanca, berço ou tábua de espera: shooting board ou bench hook

Bench slave: valete, pé de carpinteiro, terceira mão, escravo, servo, ajudante

Sawbench ou sawhorse: cavalete de serrar

Topejadeira: miter jack

Gastalho: wedge clamp

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Comida

Um post sobre comida e plaina

Rosinha é cheia de planos. Thiago contou a ela que teria um dia de folga na semana, no meio das férias, e ela logo fez um “combinado”: “Pai, vou levar você conhecer a Japan House!“. Claro que topamos o convite! Eu já havia visitado o lugar uma porção de vezes, e particularmente, eu adoro. Gosto do ambiente, as exposições sempre são muito bonitas e interessantes e mais recentemente, adoro sentar no balcão do café e provar as delícias!

Vou abrir um parênteses aqui para contar um pouco mais da nossa paixão pelo Japão. Eu sempre gostei muito da culinária japonesa, desde pequena. Incentivada pelos meus pais, que também sempre se metiam a conhecer os mais tradicionais restaurantes da cidade. Quando conheci o Thiago, e ele me convidou para um primeiro encontro, eu sugeri ir numa Temakeria (que na época era a novidade!). Claro que ele também já tinha muito apreço pela cultura japonesa, principalmente pela tradição do trabalho com a madeira. Logo, começamos a assistir juntos todos os episódios disponíveis da série da NHK Begin Japanology no Youtube. É praticamente uma enciclopédia de tudo que você pode imaginar sobre o Japão. Abrange temas como “alergia ao pólen”, até os “bentôs” e “neve”.

Quando entro na Japan House sinto uma impressão muito forte e imagino que seja a mesma sensação de colocar os pés no Japão. É uma espécie de sensação que condensa algumas das características da cultura japonesa e que nos fazem sentir profundamente conectados a ela: o respeito às tradições, uma reverência aos ancestrais e uma ritualização da vida. Vejo isso nos mínimos detalhes sempre que vou lá.

Essas características estão muito presentes na comida. Dessa vez, no café da Japan House, resolvi provar um matcha latte com calda de frutas vermelhas. Antes de nos sentarmos ali, vimos uma exposição sobre o chá e claro que fiquei com água na boca para provar um matcha. Como fazia muito calor, pedi a versão gelada. A espera no balcão minuciosamente limpo, com tudo muito organizado, já me dá uma certa aura especial. A bandeja chega com pequenos recipientes, todos muito simples e bonitos. Misturei o matcha no leite gelado com a calda no fundo do copo. Cores lindas! Misturei tudo, dei o primeiro gole e achei que iria odiar. Mas eu amei. Tive vontade de tomar tudo de uma vez, o que frequentemente faço com bebidas. Mas o ambiente me convidou a apreciar. Gole por gole. Que delicioso! Me lembrei da sensação de descobrir coisas novas e de como isso é bom. Geralmente esse sentimento vem mais em viagens, e há quatro anos sendo mãe, depois de uma pandemia e um desgoverno brutais, essa sensação me deu uma alegria silenciosa e calma, mas muito boa. E como é bom poder viajar dentro da minha própria cidade!

Outro pensamento me invade: a experiência de comer está muito atrelada ao ambiente também. Poder provar um matcha naquele espaço tem outro sabor do que se estivesse em casa. Definitivamente comer não é só sobre se alimentar.

Depois daquela experiência eu queria mais: fomos para a Liberdade – o bairro japonês de São Paulo. Depois de umas entradinhas no Izakaya Kintaro, partimos para o Izakaya Issa. E lá, mais uma vez no dia, provei algo novo. Pedimos takoyaki, bolinhos recheado de polvo e servido com lascas de peixe bonito, o katsuobushi, por cima. Eu já havia visto diversos vídeos das lascas de bonito se movimentando por cima de takoyaki ou okonomiyaki pela internet afora, mas mesmo assim foi impressionante ver ao vivo. Por conta da espessura tão fina, as lascas acabam se movimentando com o calor, dando a impressão que algo ali está vivo! Poder compartilhar esse momento com a Rosinha foi tão prazeroso quando o sabor da comida! Ela ficou eufórica com o “bicho que se mexia”. Ficou hesitando, deu vários gritinhos de medo e por fim provou e amou! Muito corajosa!

E finalmente, chego ao tema desse post. Katsuobushi. É, eu havia pensado em escrever sobre esse alimento aqui, pois a sua produção é muito intrigante. O peixe bonito é desidratado, fermentado e defumado num processo de preservação tão incrível, que o produto final é tão duro quanto a madeira. Impossível cortar com faca e por isso é servido em lascas ou raspas. E adivinha qual ferramenta é utilizada para isso? Sim! Uma plaina, muito parecida com as dos marceneiros. Até as lascas se parecem muito com os cavacos de madeira. O nome desse utensílio é kezuriki. Encontrei esse artigo dando muitos detalhes de como se cortar corretamente o katsuobushi: https://thejapanesefoodlab.com/shave-katsuobushi/

Na verdade mesmo, eu não queria falar somente do peixe bonito. Nessas férias, nós também nos deparamos com outra comida feita com plaina. Será que vocês já sabem o que é? Comprei uma raspadinha na praia do Guarujá pra Rosa só pra ela ver o moço usando a plaininha de metal que raspa o gelo. Fiquei super curiosa pra descobrir de onde veio essa invenção e fui atrás da história dessa sobremesa gelada. E não é que encontrei várias referências ao kakigori, a raspadinha japonesa? Dizem que é fabricada desde o século VI, olha só! Mas não encontrei referência a serem feitas com nenhuma ferramenta específica ou parecida com a plaina, como a que encontrei feita na praia. Na verdade, existem umas fotos de máquinas de raspar gelo decoradas e bem bonitas. Nunca iria imaginar essa conexão… mas fiquei ainda mais intrigada. Será que existe alguma outra comida feita com plainas? Se souber, me conta aqui nos comentários!

Ah, o próximo curso de plaina do Saber com as Mãos será uma surpresa!! Aguardem as novidades!!

Mas você também já pode se inscrever no curso confirmado para outubro. Confere lá no site da Forjaria Escola e garanta sua vaga!

Lembrando que o curso online está sempre aberto e disponível para compra aqui no nosso site.

Mais Referências:
Palestra Katsuobushi: técnica que atravessa séculos e oceanos realizada em junho de 2023 na Japan House:
https://www.youtube.com/watch?v=FGGgGxdH9oA

Vídeo de vendedor de raspadinha na praia:
https://www.youtube.com/watch?v=Aq4qk1VtgXI

Vídeo de vendedor de kakigori com máquina manual:
https://www.youtube.com/watch?v=UMvd1UnyU4I

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Educação Podcast

Cheio de Dedos: Podcast

Estamos muito felizes de poder compartilhar essa novidade antes de 2023 acabar: agora temos um podcast! Já faz tempo que temos o desejo de poder compartilhar um pouco mais dos nossos valores, pensamentos, referências e ideias. Há alguns meses, junto com Lucas e Tony, conseguimos concretizar e colocar o podcast no mundo!

Depois de algumas ideias sobre o nome, escolhemos “Cheio de Dedos” que também é o nome de uma música do Guinga (e vinheta do podcast), mas sobretudo um incentivo para que ouvintes e amigos possam se juntar a conversa e ao trabalho manual. Também é importante, para nós, recuperar o termo “digital” em tempos de telas e touchscreens. É por meio das mãos, dos dedos e de nossa digital que deixamos nossa impressão no mundo, interagimos com os materiais e podemos ampliar nossa sensibilidade.

Nesse primeiro episódio compartilhamos um pouco de nossa história e trajetória individual com a marcenaria, mas a intenção é que essa conversa possa crescer e ser uma troca rica e inspiradora. Nossa intenção é reconhecer e aproximar amigos que fizeram escolhas parecidas e também pessoas que ainda não conhecem os trabalhos manuais e querem aprender mais.

Esperamos que o podcast possa ser o início de muitas pontes e redes em um esforço coletivo para fortalecer, incentivar e reconhecer os ofícios e fazeres manuais!

Ah, vamos liberar um episódio por mês, num ritmo menos frenético do que os algoritmos e redes sociais acabam nos aprisionando.

Esperamos que gostem!

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pesquisa

Bolsa de pesquisa: Mortise and Tenon Magazine

Um dos nossos pilares aqui no Saber com as Mãos é a pesquisa e este mês fomos agraciados com uma bolsa da Mortise and Tenon Magazine para escrever um artigo. Estamos muito felizes e honrados, pois admiramos muito o trabalho da revista. O ensaio deve sair em 2023.

Vejam o post no blog deles para saber mais sobre o foco da pesquisa e o outro ganhador da bolsa este ano.

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Educação

Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.

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Diário de Viagem

Museu do Homem Americano

Desde que visitamos o Parque Estadual do Ibitipoca, há alguns anos, sempre que temos oportunidade de viajar, eu invento de explorar o parque mais próximo do nosso destino. E dessa vez não deu outra. Arrastei os cunhados e o marido até o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, há 300km de Juazeiro, na Bahia. A gente gosta de estrada, hehe.

Foram umas boas horas nessa estrada de terra aí. De novo aquela sensação de ir pra dentro do dentro. Chegamos em São Raimundo Nonato já de noitinha, jantamos uma pizza na cidade e um refrigerante de caju pra acompanhar.

No dia seguinte, fomos nos informar de como visitar o Parque. É necessário ter um guia contratado para entrar. Pegamos o telefone de alguns na pousada, acertamos os passeios para o dia seguinte e fomos visitar o Museu do Homem Americano. Eu não sabia muito sobre a história desse lugar. E visitar o Museu nos deu a dimensão do privilégio que era estar ali.

A concretização do Museu, do Parque e de tantas outras iniciativas da região são esforços da arqueóloga brasileira Niède Guidon que, na década de 70 foi informada por um morador da região da existência de pinturas rupestres. A pesquisa da Niède, encontrou mais de mil sítios arqueológicos na região (o maior número da América Latina) e fez uma descoberta que muda a teoria do povoamento do continente americano. Até hoje, a teoria mais aceita é a de que o homem chegou aqui caminhando pelo Estreito de Bering há cerca de 15 mil anos atrás. Porém, Niède encontrou vestígios da presença humana 43 mil anos mais antigos. Ou seja, a origem do homem americano é nordestino!

No Museu, é possível encontrar inúmeros artefatos, verdadeiros tesouros dessa nossa origem. Vestígios de um tempo e época em que é quase impossível imaginar. Percorrendo os corredores eu tentava me colocar no lugar desses homens e mulheres. Como era essa vida? Como era esse mundo?

No segundo andar, vestígios um pouco mais próximos de nosso tempo. Ali eu já reconhecia a cultura indígena. Mas algo me chamou a atenção. Parece que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia. Sabem essa sensação? Então, foi isso que senti quando vi as urnas funerárias redondas, em forma de útero, feitas de barro. Não havia muita explicação do porque enterraram seus mortos assim. Mas eu gostos de pensar que é por que quando a gente morre, devemos voltar ao útero, mas dessa vez ao da mãe terra.

Falando em cerâmica, fomos visitar mais o Grupo de Cerâmica Artesanal da Serra da Capivara que fica em Coronel José Dias, município próximo de São Raimundo Nonato. Primeiro, desfrutamos de um almoço delicioso, e depois fomos super bem recebidos na fábrica ao lado. Nos deram um tour super detalhado e ainda colocamos a mão na massa. A iniciativa é mais uma de mérito da Niède. Ela logo percebeu que para que o Parque se mantivesse vivo e protegido, era necessário envolver toda a comunidade. Para isso, resgatou esse fazer ancestral da região: trabalhar o barro. Criada em 1992, o grupo emprega mais de 30 artesãos, além de treinar os mais jovens. Pra quem é de São Paulo, talvez já tenha visto as peças lindas na loja TokStok. São copos, pratos, tigelas, vasos e outros que celebram as pinturas rupestres que podemos ver no Parque. Foi lindo ver o barro no Museu e depois vivo nas mãos das pessoas que vivem ali.

Para finalizar o dia, fomos visitar o recém-inaugurado Museu da Natureza. Bem diferente do primeiro que visitamos, este apresenta uma experiência mais imersiva e tecnológica. Mas o mais bonito mesmo é ver a História Natural da região ser contada com tanto esmero, cuidado e orgulho. De novo, a sensação de ter encontrado um tesouro me inundava. Para fechar o dia, a natureza se impôs. O último ponto do Museu, o mirante, nos presenteou com os últimos raios de sol.