
A data passou batida, mas ano passado comemorei 10 anos dando aulas de marcenaria para crianças. O acontecimento merecia comemoração, já que marceneiros e professores são um pouco como domadores de leões, se você permanece vivo após tanto tempo quer dizer que deve fazer seu trabalho direito. Além de tudo, o início das aulas para crianças coincide com a própria fundação do Saber com as Mãos e permanece como uma das atividades mais relevantes que realizamos.
O caminho foi simples: após alguns anos dedicados a ofícios em declínio (em especial, à organaria), tendo a chance de aprender as técnicas tradicionais de mestres importantes, ficou claro que compartilhar o que eu havia tido a sorte de aprender era fundamental. Soma-se a essa preocupação o fato de dividir a vida com uma educadora e vir de uma família de professores, outro fazer ameaçado. Decorreu disso a tarefa de pensar o lugar dos ofícios na educação, algo que de saída já traz a lição principal: num ofício, pensar e fazer não estão dissociados. Pela forma como o mundo se configura hoje, é comum nos acostumarmos a diversas desconexões, seja de nós mesmos, do fruto de nosso trabalho ou da natureza. É comum, também, que sempre que o essencial comece a escoar para fora do cotidiano que a escola seja chamada a suprir essa falta. Tamanho fardo, mas quem sabe, antídoto também. Foi assim com o slöjd nos países escandinavos: a partir do momento em que a sociabilidade foi perturbada pela industrialização, com a diminuição da convivência generacional, o slöjd educacional surgiu, operacionalizando uma didática mão na massa (na madeira, melhor dito) que tanto buscava inculcar lições morais quanto compreendia que o desenvolvimento de uma pessoa (desenvolvimento intelectual, inclusive) depende de seu engajamento no mundo, do trabalho dito manual, das conexões que conseguimos estabelecer entre ação e pensamento.
Estou tentando apontar nesses curtos parágrafos que reconhecer a relevância do fazer na vida humana, para além da educação, é fundamental, mas ao mesmo tempo busco ressaltar que o profundo interesse e a preocupação pelo ofício é outro aspecto central de nossa atividade pedagógica. As aulas com as crianças são de marcenaria, não de qualquer outra coisa. Esta não é um artifício que sirva a outro propósito, senão o próprio campo de interesse e investigação que percorremos com as crianças. O aspecto biográfico é incontornável – eu trabalho com madeira –, no entanto ele revela um dos atos educativos mais potentes: é ofertando algo verdadeiramente de si que nos tornamos capazes de apresentar o mundo e acompanhar as descobertas de alguém. O motor é sempre esse mesmo, as descobertas que as crianças fazem sobre a natureza da madeira, sua beleza intrínseca e as maneiras de intervir para revelá-la, empregando criatividade, esforço, paciência ou o que mais seja necessário para poder fazer o que se quer. No caso das aulas que conduzo, cada aluno é convidado a imaginar uma coisa e então a construí-la. O percurso é interessante, todo mundo se depara com os desafios de tirar uma ideia da cabeça e de trazer algo ao mundo, buscando compreender o que faz falta saber e que habilidades precisam adquirir. Estou convencido de que o ofício contém tudo. Se formos parar para fazer um exercício de sistematização, vamos nos dar conta que em uma única e simples aula, uma criança pode se deparar com noções de física, biologia, química, geometria, aritmética, linguagem e até educação física, com a grande vantagem, a meu juízo, de todos esses campos do saber comparecerem integrados e não separados do que está acontecendo. A gente aprende até sobre si, quando se pergunta no meio do processo de construção: será que quero o que desejei? Em outras palavras, querer algo é moleza, mas sustentar o processo, com todos seus desafios e frustrações até a ideia poder se materializar na sua frente, é outra história.

Em tempos de IA e satisfações instantâneas, ao deslizar do dedo sobre uma tela, parece que estamos na contramão dos tempos. E certamente estamos. Ao propor para alguém que faça algo ao invés de comprar, talvez escapemos a um imediato e quase irresistível consumismo. Ao transformar a madeira usando uma ferramenta manual, por excelência algo pensado como uma extensão da mão humana, podemos nos conectar com nossas potencialidades, sabendo que uma habilidade bem desenvolvida é algo que nunca podem tirar de nós. O contato mais próximo com a madeira, um recurso que tomamos do mundo, revela que somos aparentados a ela, que também pertencemos, de alguma maneira, ao mundo natural, já que há formas de criar cultura que não prevêem sua dominação cúpida e sem fim. A conexão com o passado também é evidente, pois descobrimos com grande humildade o trabalho primoroso feito por pessoas que vieram antes de nós, que as técnicas que desenvolveram possuem uma inteligência prática à qual apenas almejamos e que nos permite criticar o novo como um valor (ao invés de criação inspirada). Em suma, a inadaptação é sinal de saúde e prenúncio de dias melhores. Ou ainda, como disse melhor que eu o Bruce Metcalf em The Hand: at the heart of craft:
“O trabalho manual cria significado, não apenas coisas físicas. Oferece trabalho não alienado, um senso de propósito, uma comunidade e um caminho para o crescimento. Para quem não se contenta com as respostas prontas que a nossa sociedade oferece – ser um bom consumidor; ser um bom cristão; ser um bom soldado; ou qualquer outro papel prescrito – o trabalho manual abre um mundo de autorrealização significativa e um caminho para uma vida bem vivida.”

Mas se o fazer tem tanta importância, como é que passamos tão pouco tempo fazendo coisas com as crianças? Os pais da maior parte dos meus alunos não têm mais ferramentas, não costumam fazer reparos pela casa nem cozinham com as crianças por perto. E nem brincam. A vida é corrida e pagar as contas não tá fácil, eu sei. Também há tantas facilidades hoje em dia. Queria encerrar esse breve texto citando a Giulia Ciavatta, que já escreveu no blog do Saber com as Mãos sobre a marcenaria com crianças:
“(…) o último ponto que queria trazer aqui é o sentimento. Se você já fez algo com as suas próprias mãos (um almoço gostoso pra sua família, uma colher de madeira, um cachecol de tricô, um vaso de barro, uma boneca de pano…) sabe o que é terminar algo, olhar e dizer: ‘eu que fiz!’. Esse sentimento mágico, transformador, empoderador e feliz.”
Às vezes ouvimos a pergunta, “o que você faz da vida”, indicando qual seria a nossa ocupação. Mas às crianças costumamos perguntar: “o que você quer ser quando crescer”, também indicando a ocupação sonhada ou imaginada. Quem sabe não podemos apreender do ofício que é possível fazer da vida o que se é.



















