O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago e do encontro dele comigo. Nossos caminhos se cruzaram e também nossos conhecimentos e partilhas sobre o mundo. Apesar das nossas discussões, ideias e reflexões contribuírem muito para o que acontece tanto aqui no Saber com as Mãos em si, quanto nas nossas vidas profissionais individuais e nos espaços que a gente habita como indivíduos, nós nunca havíamos dado uma oficina juntos.
Em julho de 2025 tivemos essa oportunidade no Sesc Santana. Para mim, Giulia, pude aprender mais sobre a madeira e sobre a marcenaria na prática. Aprendo muito com o Thiago e vejo ele se relacionando com esse conhecimento há muito tempo. Mas é bem diferente quando a gente tem a oportunidade de vivenciar, manusear e se colocar em relação com a materialidade, nesse caso a madeira.
Mas, agora, faço uma reflexão de que essa oportunidade foi mais do que poder entender mais sobre a madeira. Foi uma oportunidade de me colocar em relação com as crianças de uma forma diferente. Por meio da madeira, das suas características e da proposta que estava em voga naquele dia, eu pude conhecer mais sobre o que as crianças pensam e fazem quando estão explorando a madeira. Quais os gestos elas usam? Quais perguntas elas se fazem? Quais ações as interessam mais? Como reagem quando a madeira responde aos seus gestos, olhares, e sensações?
Esse olhar, essa curiosidade sobre como e o quê as crianças pensam eu aprendi estudando e vivenciando a Abordagem Reggio Emilia. Mais do que uma abordagem, é uma experiência educativa que acontece todos os dias nas escolas de educação infantil da rede pública de ensino dessa cidade italiana. Uma realidade que está há muitos quilômetros de distância da nossa, mas que inspira e nos ensina sobre valores democráticos e de resistência em tempos que assombram as possibilidades da imaginação, criação e pensamento crítico na sociedade e na escola.
A partir dessa experiência no Sesc Santana, fomos tecendo alguns pontos e conexões importante sobre o trabalho do Saber com as Mãos com as crianças e os modos como a Abordagem Reggio Emilia entende a educação, a importância das materialidades, dos projetos e da pesquisa.
Dessas tessituras nasceu um desejo de compartilhar muito do que andamos pesquisando e estudando sobre isso, apresentando possibilidades de trabalho e de entendimento sobre a madeira e as crianças. E assim, nasceu a Aula Online: A Linguagem da Madeira.
Eu e Thiago pensamos em abordar no período de três horas conceitos como ateliê, projetação e aprendizagem na Abordagem Reggio Emilia; as propriedades e características da madeira; explorar e discutir possibilidades de trabalho com a madeira com as crianças e ainda uma prática de exploração com alguns materiais sugeridos previamente.
A ideia é que professores, atelieristas, educadores, artistas, arte-educadores e demais interessados em levar a madeira para a sala de aula possam se aproximar desse material e refletir sobre suas possibilidades, sentindo-se mais confiantes e seguros para levar a madeira como material de exploração, investigação e pesquisa.
Se você se interessou ou tem alguma dúvida, nos escreva aqui nos comentários ou no Instagram: @giuliaciavatta_ ou @sabercomasmaos
Mais informações: Aula online: A Linguagem da Madeira com Saber com as Mãos Giulia Ciavatta & Thiago Endrigo
Data: 31/01/2026 Horário: 9h às 12h
Valores (escolha qual mais se adequa para você): R$90 – valor mínimo R$140 – valor justo R$200 – valor ideal
Ainda há muita indefinição, com vários compromissos acordados mas não completamente confirmados. Isso é o que temos até agora.
Janeiro. Fortaleza (CE). Marcenaria Selvagem. Cadeira Anarquista (a cadeira que o Christopher Schwarz desenhou para seu Anarchist’s Design Book), uma excelente introdução aos móveis estaqueados. Dias 16, 17, 18/1. Inscrições com o Emanuel através de mensagem no Instagram. R$2.800.
Fevereiro. São Paulo (SP). Há uma série de atividades previstas em torno dos Shakers, com uma palestra sobre aspectos de sua história e cursos sobre a construção de uma cadeira de balanço e uma vassourinha de mão. Ainda aguardo a confirmação do Sesc, acompanhe nosso Instagram para ficar por dentro!
Março. São Paulo (SP). Mais Shakers! E mais informações que ainda não posso divulgar e vou ficar devendo, mas há uma boa chance de repetirmos o curso sobre o banquinho. Em um Sesc.
Na Forjaria Escola teremos o Caixa e Cravos mais uma vez! É um curso que adoro dar, de manhã forjamos pregos que usamos à tarde para montar uma caixa de ferramentas inspirada nas tradicionais caixas japonesas. Desta vez me acompanhará na instrução El Rey del Cuchillo Vikingo, Felipe Cressoni. Dia 7/3, R$760.
Abril. São Paulo (SP). Banqueta Anarquista na Forjaria Escola. Outro projeto do Anarchist’s Design Book (Schwarz), outra bela introdução a um modo acessível de construir móveis resistentes e bonitos. É diferente da cadeira pois tem só 3 pernas, fazemos as espigas cilíndricas e instalamos travessas nas pernas, o que deixa o curso interessante. Dias 11 e 12/4, R$1.800.
Há espaço na agenda para uma viagem. Mais indefinição e mistério…
Maio. São Paulo (SP). Cadeira Anarquista na Forjaria Escola. Descrição do curso no site da Forjaria. As inscrições são por lá também, é possível parcelar o pagamento e há bolsa disponível para todos os meus cursos na Forjaria. No momento em que escrevo essas linhas restam apenas 2 vagas para esse curso.
Junho. Em aberto… Uma possibilidade é promover o curso de construção de garlopa (com o convidado especial de honra, Hernán Costa), outra é tentar oferecer novamente o curso da poltrona estaqueada (stick chair). Ambos tiveram que ser cancelados em 2025 por inscrições minguadas, o que sempre é delicado para quem vive mês a mês (não, a vida de artesão e professor não é tão glamorosa quanto parece). Se tiver interesse em algum desses cursos me dê um alô. Também estou devendo um curso de baú de ferramentas. E outro sobre objetos cênicos de filmes que gosto. Enfim, sou todo ouvidos…
Julho. Carolina do Norte, EUA. Curso de construção de plainas na John C. Campbell Folk School. Um dos meus lugares preferidos no mundo. Conheci a escola em 2023, quando tive a sorte de ganhar uma bolsa para um curso de tanoaria com Rick Stewart (neto do Alex Stewart). Depois do curso o pessoal da escola me pediu para contar um pouco sobre essa experiência (ver imagem abaixo). Bolsas são comuns por lá, assim como em outras Folk Schools e escolas de ofícios, vale a pena tentar. Agora me convidaram para dar o curso de plainas, uma alegria! De 12 a 18/7, $870.
Colorado, EUA. Vou repetir o curso de plainas na oficina do Robbie O’Brien. Foi onde gravei o curso online em inglês, disponível pela Lutherie Academy. Como o público tende a ser um pouco mais específico por lá, formado por pessoas que se dedicam à luteria, nós vamos fazer o curso em 3 dias, com a possibilidade de construir uma plaina e um corteché (ferramentas feitas artesanalmente são tão legais quanto instrumentos feitos artesanalmente).
Paralelamente, ainda tento organizar minhas pesquisas e produção (há anos tento…), continuo com as aulas nas escolas três dias por semana e no ateliê, em dois dias. Eu e a Giulia estamos organizando uma aula online sobre o olhar que fui constituindo para o trabalho de marcenaria com crianças em diálogo com a perspectiva pedagógica originada em Reggio Emilia, mas isso e os demais desafios previstos para o ano são assunto de outro post, porque mistério sempre há de pintar por aí.
É difícil fazer algumas coisas quando se perde a prática. Escrever parece ser uma delas. Há algum tempo não publicamos nada aqui no blog, culpa da rotina triturante e do fato da escrita, para mim, não fazer parte dessa rotina (não cabe mais nada na rotina). Em 2025 estive em Franca, interior de São Paulo, para um curso de bancada de marcenaria que fez parte dos festejos de inauguração do Sesc por lá. Fui duas vezes a Buenos Aires, Argentina, para cursos sobre cadeiras, em janeiro e outubro. Fui mais duas vezes ao Rio de Janeiro, em abril (curso de plainas) e dezembro (cadeiras). Finalmente, conheci a Cidade do México em julho, também ensinando a fazer cadeiras (para 14 pessoas!). Além de tudo isso, consolidamos o trabalho em uma escola nova (Avenues), tivemos 80 (!) alunos na Graded (onde dou aulas de marcenaria desde 2017) e continuei recebendo adultos e crianças interessados em trabalhar com madeira no ateliê.
E ainda faltou falar da Forjaria Escola, lá teve o curso da banqueta e da cadeira anarquista, rabo de andorinha e banco de tanoeiro. Ajudei a concretizar a vinda do Maurício Kolenc, do Uruguai, que deu aula de tornearia e a volta do Hernán Costa, da Argentina. Rolou o famoso curso de bancada com o Rodrigo Silveira. No Instituto Léo dei o curso de graminho. Fora Franca, teve curso de plainas no Sesc Carmo, Xiloteca Lúdica no Sesc Santana, banquinho Shaker e Acabamentos Históricos para Madeira no Sesc Belenzinho.
Queria escrever sobre as atividades que aconteceram nesse ano para tentar elaborar um pouco tudo o que passou, foi um ano muito intenso de trabalho, mas também para não deixar passar o agradecimento a todo mundo que se animou a fazer isso possível. A colegas, família e alunos, meu muito obrigado pelos momentos bonitos, as interações vivas, as realizações e os aprendizados, coisas que num mundo cada vez mais inóspito fazem a diferença. Aos companheiros do Cheio de Dedos, um podcast firme como prego na areia, obrigado por aturarem minhas diatribes (nos bastidores) e intervenções desarrazoadas.
Ano que vem promete muito trabalho, desafios e surpresas… Enquanto não chega, ficam aqui algumas fotos de 2025.
MéxicoTem plaina pra tudoCasa do Trótski em CoyoacánMesa de trabalho de TrótskiHernán Costa e Mauricio Kolenc após uma atividade no Sesc CarmoAula de torno na Forjaria EscolaCom Danilo CostillasTurma do curso da cadeira anarquista na ForjariaCom Carvas e cia. no RioRodrigo Silveira no curso de bancadaMestrãoMais 10 graminhos no mundoE mais plainas…Trabalho em equipe em Franca, Taygoara e NivaldoCom a Cleide em FrancaA bela bancada do Sesc FrancaO taller mais bonito do mundoFim de curso de cadeira em Buenos AiresY bueh…
Eu aprendi a fazer tricô com a minha vó. A cada inverno, ela presenteava um ou dois netos com um cachecol de lã feito por ela. Eu ficava admirada com a sua proeza. A gente escolhia a cor e o estilo e depois de alguns finais de semana, pronto! Lá estava ele prontinho e quentinho. Não era um cachecol que se encontrava em lojas, ou em qualquer lugar. Mas um cachecol feito pela minha vó. Assim que eu entendi que era possível fazer um também, pedi pra minha avó me ensinar. E eu aprendi… e até hoje é a minha peça preferida de tricotar.
Minha avó sempre fez coisas. Me lembro que antes de aprender a tricotar, ela me ensinou a bordar tapetes de lã. Sabe aqueles que você compra a tela com o desenho pronto e vai preenchendo? Eu ficava maravilhada com os pontos que iam formando um desenho, e depois da peça terminada, lá estava um tapete bonito que eu tinha feito com as minhas mãos. Minha avó também gostava de fazer os enfeites de mesa para as festas de família, arranjos de flores e até hoje ela borda panos de prato.
Já adulta, fiquei fascinada pela técnica do amigurumi. Aprendi com uma amiga da faculdade, na casa de outra amiga. Eu fiquei obcecada, passava qualquer tempo livre fazendo crochê. Tão prazeroso pegar as linhas, sentar no sofá, ou na cama e assistir aquela série favorita, ouvir um podcast ou simplesmente se perder em pensamentos. Mas também, é uma delícia levar o crochê pra fora. Enquanto se locomove no ônibus ou metrô, espera por alguém, ou simplesmente sentar em algum lugar e pegar as linhas. Existe até o “Knit In Public Day”, um dia especial para todas as tricoteiras levarem os novelos para fora.
Em 2018, fizemos uma viagem muito especial para o Norte da Argentina. Em um pequeno pueblo nas montanhas, sentei na única praça e comecei a crochetar uma boneca. Não demorou muito para uma moradora se aproximar e puxar assunto. Descobri que ela também gostava de tecer. Crochetar em público é sempre uma maneira de se conectar com as pessoas, mesmo que seja por um olhar curioso.
Logo tive a ideia de levar o crochê para a escola. Na época, eu era professora, e enquanto as crianças brincavam no tempo livre, eu crochetava um pouquinho.
“O que é isso?”, “O que você está fazendo?”, “Você que faz?”, “Como você faz?”, “A minha vó também faz, sabia?”. As crianças são muito mais desinibidas que os adultos. Perguntam tudo. Algumas também só olham curiosas. Mas essa experiência com elas me fez começar a questionar: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo?
Em outra escola que trabalhei, lembro que era muito comum encontrar o porteiro (que também fazia reparos de manutenção) pela escola fazendo algo. Era um momento muito rico e as crianças de todas as idades sempre demonstraram muito interesse: “O que você tá fazendo?”, “Posso fazer também?”, “Como chama esse (apontando para alguma ferramenta)”.
As crianças estão descobrindo o mundo, e ao se deparar com esses processos, descobrem como se faz o mundo. Percebem as materialidades e as possibilidades de se construir, reparar, consertar, criar… Percebem a possibilidade do criar humano. Vivendo em cidades grandes, as crianças (e os adultos também) estão cada vez mais afastadas desses processos, tudo está muito pronto, acabado e fácil nas mãos das crianças. Retira-se a possibilidade de se entender o mundo por meio de seus processos mais básicos. Ficamos desconectados, afastados e alienados e as consequências disso começam a ficar cada vez mais perceptíveis.
Quando comecei a refletir sobre isso, há mais de 10 anos – e quando as redes sociais ainda engatinhavam – já se via alguns sinais dessa desconexão, principalmente nas crianças. Mas passado esse tempo, nós todos temos acompanhado como isso tem impactado as novas gerações de jovens e adultos. Um estudo sobre felicidade apontou que as novas gerações estão mais descontentes, em comparação com as anteriores. É claro que a razão disso não está só nesse processo de desconexão com os processos que citei acima. Para todo problema, existem mil camadas, e nunca existe somente uma resposta. A crise do capitalismo, a questão climática, viver em uma sociedade neoliberal, a ameaça das inteligências artificiais e o crescimento do fascismo no mundo todo contribuem – e muito! – para isso. É urgente estarmos cada vez mais atentos às essas questões e buscar maneiras de resistir – e não sucumbir – em um mundo cada vez mais colapsado.
Para mim, se reconectar com os processos que fazem o mundo é uma forma de resistência e pode apontar uma saída interessante. Sempre que penso nessa sensação iminente de colapso que vivemos todos os dias, eu começo a pensar: a humanidade já passou por outras crises. Diversos povos e grupos sociais já passaram por colapsos e transições, talvez até muito piores do que estamos passando (a gente sempre tende a achar que a nossa situação é a pior do mundo e da história, né), e então: como eles fizeram? Como resistiram? O que os sustentava durante esses períodos? Conhecer as histórias de resistência podem nos apontar caminhos interessantes, e esse tema tem aparecido nas minhas pesquisas com frequência.
“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar no século XXI ainda esperando, reivindicando e desafiando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desse povos.” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 28
Ailton Krenak diz em seu livro que os povos indígenas estão enfrentando a crise já há muito tempo… nós brancos que estamos desesperados agora, tentando entender… mas eles já entenderam e sabem como sobreviver.
“Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: ‘Como os índios vão fazer diante disso tudo?’. Eu falei: ‘Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa’”. Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 31
Para mim, os povos originários guardam as respostas para muitas das perguntas que nós estamos vivendo. Não são respostas prontas, nem fáceis… mas são apontamentos, guias, que podem nos fazer refletir qual caminho seguir e quais não. E quando penso nessa conexão com os fazeres, me lembro da educação indígena. Você sabe como uma criança indígena aprende? Ela aprende vendo, observando, estando perto, sendo convidada a participar repetidamente e cotidianamente os fazeres da comunidade. Fazer e plantar a comida, fazer as vestimentas, fazer as tintas corporais, fazer brinquedos, fazer utensílios, fazer mobiliário… fazer, fazer, fazer. Um fazer que é prático, necessário. Um fazer coletivo que gera pertencimento, que preserva conhecimento, que dá sentido à vida social e que gera o próprio sentido criador humano. Em suma, que nos torna humanos.
Agora, eu volto à pergunta: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo?
No Saber com as Mãos, a gente tem um pouco essa ideia. Nossas aulas, são esse espaço de ter um adulto, ou par mais experiente, disponível ali para ensinar, guiar, observar. Além de ser um espaço tempo que a gente reserva para fazer, e sair da rotina que nos engole e aliena. Um formato de aula que a gente gosta bastante também é com famílias. Adultos e crianças juntos, fazendo algo, experimentando e vivendo um pouco dessa experiência com as mãos.
No dia 28 de junho, teremos mais uma edição do curso de banquinho de 3 pés em parceria com o Rodrigo Silveira, na oficina dele, na Barra Funda em São Paulo. Será das 14h às 18h e para se inscrever é só mandar uma mensagem para nós em @sabercomasmaos ou para o Rodrigo em @rodrigoquefez no Instagram. Fazer o banquinho é na verdade só uma desculpa para estarmos juntos… mas levar pra casa um banquinho feito a muitas mãos e depois poder tê-lo em casa também é muito legal! Vamos fazer juntos?
Amanhã as aulas retornam, começa o ano letivo. Para mim, que sou mãe e educadora, confesso que é um sentimento um tanto ambíguo. Primeiro, porque isso significa que as minhas férias acabaram também e volto a trabalhar. Além disso, encarar o começo de ano na escola é como encarar a arrebentação no mar. É preciso enfrentar ondas fortes e altas, constantes. Quando você está se recuperando de uma, logo vem outra, e outra e outra… até que finalmente você atravessa e dá de cara com a infinitude do mar tranquilo. Algumas ondas mais fortes podem vir, tormentas até, mas com um espaço de tempo um tanto maior.
É assim que me sinto, sendo coordenadora pedagógica no começo do ano. As ondas, ou as demandas, surgem uma atrás da outra e é preciso dar conta de muito em pouco tempo. Acolher famílias, crianças e professores enquanto eu também tento me equilibrar; estar atenta e forte; é um desafio grande. Mas ano após ano vou sentindo que vou conhecendo um pouco mais desse mar… a textura da areia nos pés, reconhecer quando a onda que se aproxima talvez me derrube, antecipar o caldo, pegar jacaré ou mergulhar profundo quando não é possível enfrentar de peito aberto, ouvir o vento e a temperatura da água. Cada vez mais vou aprendendo a navegar nessas águas. Mas o frio na barriga é sempre o mesmo. Sair debaixo do meu guarda-sol, levantar e enfrentar a arrebentação é necessário coragem e disposição. Por isso, o sentimento ambíguo e a vontade de esticar um tantinho mais essas férias.
Mas, eu também sou mãe, e anseio o retorno pro mar! Rosinha já está crescida, com cinco anos, e mais do que nunca, sentiu muitas saudades das escolas nessas férias. Ela é filha única, e vi o quanto ela desejava brincar e estar com outras crianças no tempo afastado da escola tão querida. Além de demandar bastante nossa companhia para brincar, cada vez que íamos a um parque, praça, ou museu, ela perguntava: mas vai ter crianças? Como é importante esse espaço da escola, do coletivo, do parque, do encontro, do livre brincar. Fico pensando como deve ter sido difícil pras crianças que tinham a idade da Rosa hoje, lá atrás, na pandemia… e fico me imaginando mãe dessas crianças que ficaram isoladas em casa. Bom, os impactos disso eu vejo como educadora, mas não tive essa experiência como mãe. Rosinha tinha cinco meses quando começou o lockdown, e nossa experiência foi diferente.
Essa saudade toda da escola, essa busca incessante da minha filha pelo encontro com seus pares, me faz refletir muito sobre os espaços disponíveis nas cidades para que isso aconteça. Mais de uma vez fomos a pracinha mais perto de casa que tem parquinho, e encontramos a praça esvaziada… não quero ser injusta, já fomos lá outras vezes e já encontramos a praça bem mais povoada, principalmente em dias de sol e finais de semana. Mas, fora essa praça, que até tem um espaço bacana, cuidado e mantido pelos moradores, pras crianças brincarem, tenho muita dificuldade de pensar em outros espaços de brincar livre para levar a Rosa. Existem os SESCs, é verdade, com espaços de brincar muito legais, mas geralmente com horários mais restritos e distribuição de senhas ou marcação de horário. E como tenho essa mania de pensar como tudo pode ser diferente, fico sonhando com parques bem legais, ao ar livre, com desafios motores (subir, pendurar, escalar, balançar, escorregar) para crianças grandes também (muitos espaços de brincar no SESC são destinados para as crianças menores).
Muitas vezes, nessa busca de lugares para ir com a Rosa, acabo me deparando com muitas opções pagas, plastificadas, prontas, acabadas, com muito barulho e pirotecnia para as crianças. Onde tem de tudo, menos chance delas poderem brincar livremente, inventar brincadeiras, se relacionar com outras crianças (aliás, outro tópico importante mas que não vou me aprofundar é: como os adultos ficam em cima das crianças o tempo todo, impedindo que elas possam resolver conflitos, inventar modos de descer, subir, se arriscar nas praças e parques). Sinto falta de espaços de encontro de fato. Onde adultos e crianças possam usufruir de espaços e materiais de qualidade, se encontrar, se relacionar, conviver.
Conviver: “viver em proximidade, compartilhar do mesmo espaço, coexistir”. Tivemos uma experiência nessas férias muito próxima ao conviver.
Passamos 14 dias em Buenos Aires. Thiago deu dois cursos de cadeira no ateliê do Hernán Costa, em Villa Urquiza (em breve faremos um post). Nos dias em que ele estava dando curso, eu e Rosinha exploramos a cidade. Alguns dias em companhia de amigos queridos com filhos pequenos também, e em outros sozinhas mesmo. Mas não tinha dúvida do que fazer: ir para a pracinha. Em qualquer bairro que estivéssemos, era só abrir o Google Maps e localizar uma praça que tivesse Patio de Juegos. Na maioria das vezes, o que encontrávamos era uma praça amigável e um parquinho muito legal, que dava espaço para as crianças inventarem muitas brincadeiras. Além disso, principalmente no fim da tarde, quando o sol quente já tinha baixado um tanto, as praças se enchiam. Adultos e jovens fazendo todo tipo de esporte: basquete, futebol, yoga, dança, patins, bicicleta, ping pong… encontros de casais, amigos, famílias, vendedores de bolas, picolés, bolhas de sabão, músicos, além de uma assembleia de bairro e um ensaio de bloco de carnaval. Muita vida!
Isso me deu um sentimento de pertencimento, de comunidade, de convivência, que nutrem a vida na cidade. E que sinto tanta falta aqui em São Paulo. Talvez eu esteja morando no bairro errado, mas acredito que muitas pessoas também sintam o mesmo que eu… mas voltando às praças de Buenos Aires, recentemente houve um investimento grande do governo da cidade para renovar esses espaços, e hoje são mais de 40 distribuídos nas 15 comunas. Os parquinhos são temáticos e além de bonitos, são realmente pensados para as crianças terem brincadeiras de qualidade. São feitos pela empresa Cruci Juegos e a qualidade é bem bacana também. Parquinhos feitos pra durar. E como sonhar não custa nada, sonho com um grande projeto aqui em São Paulo, que olhe pras crianças e para os espaços públicos de brincar: parques, praças, brinquedotecas públicas, escolas… espaços acessíveis para todos, bem cuidados, pensados, planejados que valorizem a infância e o brincar.
Pra finalizar e também combater a ideia de que pra brincar a gente precisa de espaços esteticamente fofos e bonitos, deixo aqui alguns projetos que usam bem pouco, mas que promovem um brincar de excelente qualidade:
O primeiro é um vídeo produzido pelo maravilhoso e brasileiro Território do Brincar, sobre o The Yard um parque de brincar livre em Nova York que foge da ideia do parquinho, arrumado e planejado, mas que mostra pra gente que pra brincar com qualidade, basta que os adultos organizem, pensem, e cuidem dos espaços, além de promover a utilização deles pelas famílias e crianças. O segundo é outro vídeo do Instituto Alana sobre os parques naturalizados.
Esses dois projetos dialogam muito com o livro Terreno Baldio do Jader Janer que li ano passado com o grupo do GEP, da Alice Proença. Jader recupera de suas memórias da infância um terreno baldio da vizinhança e as brincadeiras que surgiram dali, do entulho, do que ele chama de “desútil” e as “desimportâncias” desses momentos preciosos.
Um parquinho belo e bem projetado, um parque de livre brincar, feio e desarrumado, ou um parque natural seja qual for o espaço, é preciso pensar, cuidar e viver esses espaços na cidade. Esses espaços renovam a esperança, a segurança e a saúde da cidade toda. Agora, me contem: aonde vocês tem ido com as crianças?
Finalzinho de ano é hora de anunciar os planos para o futuro, mas antes disso queríamos agradecer por tudo o que aconteceu em 2024. Giulia esteve em abril em Reggio Emilia, na Itália, aprofundando-se na concepção de mundo, infância e educação que se desenvolveu por lá no pós-guerra. O que aconteceu participa do que acontece, mas a imbricação de passado em presente não é linear, nem determinada a priori. O modo como selecionamos aspectos e os transformamos informa muito sobre nossas próprias concepções e intenções, sejam elas conscientes ou não. Você pode acompanhar um pouco da pesquisa da Giulia sobre a recepção de Reggio Emilia por aqui e a relação dessa perspectiva com outras locais (a rede municipal de ensino de São Paulo é de uma potência e qualidade impressionantes) seguindo https://www.instagram.com/giuliaciavatta_/ Para 2025 também está previsto um Grupo de Estudos online do livro “Diálogos com Reggio Emilia”, de Carlina Rinaldi. Para saber mais e se inscrever clique no link: https://forms.gle/BTsuKb3tfQ5BNMps8
Giulia em Reggio EmiliaBerea, KYPlaina
Eu (Thiago) estive de volta aos EUA em junho para dar o curso de plainas em https://pinecroftwoodschool.com/, a primeira vez que dei aula de marcenaria fora do Brasil. Essa escola surgiu quando Berea College, uma das poucas universidades gratuitas dos gringos, comprou e passou a administrar a antiga escola do Kelly Mehler. Os artigos e vídeos do Kelly foram muito importantes na minha formação inicial e seu livro sobre a serra circular (table saw) ainda é fonte de consulta. Na sequência, fui até o estado do Colorado a convite do Robbie O’Brien para filmar o curso de construção de plainas para a Lutherie Academy, que deve sair no início de 2025. Esse curso online é uma versão ampliada e em língua inglesa do curso que temos disponível na plataforma Hotmart (o valor do curso em português ainda é o de lançamento, estamos segurando o reajuste).
Katie Bister e Rob Spiece fotografando as plainas concluídasCom cara de sono e Kelly Mehler em BereaRobbie O’Brien e Michael Bashkin “talking shop”
Sei que estamos em dívida aqui com o blog, esperamos contar mais sobre as viagens, pesquisas e demais acontecimentos assim que possível. Enquanto isso, quem quiser estar conosco pode conferir as seguintes atividades:
Ainda em dezembro tem curso de marcenaria para crianças e adultos. Dia 14/12 estarei com meu amigo Rodrigo Silveira em sua oficina, na Barra Funda, para dar novamente o curso do banquinho de 3 pés. A primeira edição foi muito legal, então aproveita porque as vagas são limitadas e não é sempre que conseguimos oferecer esse curso. Dou aula de marcenaria para crianças desde 2015 (há quase 10 anos!) mas sempre a experiência é estimulante e viçosa, apresentando desafios e alegrias frescas, um bálsamo para a alma (e o corpo também, apesar de já ficar doído acompanhando a energia infantil). As inscrições podem ser feitas por mensagem no Instagram para o Rodrigo ou usando o formulário de contato aqui do site. Dia 14/12, das 14h às 18h, R$ 680 (para um par de adulto + criança).
Janeiro. Logo no começo do ano partimos para Buenos Aires. Após a visita do Hernán Costa à Forjaria Escola, em outubro, para dar o curso do garlopim, é minha vez de ir para lá dar um curso de cadeira estaqueada. O curso é especial porque vou conhecer o ateliê do Hernán e porque foi em Buenos Aires que redefini o rumo da minha vida resolvendo me dedicar integralmente a um ofício. Ainda há vagas para os dias 17, 18 e 19/1 (a outra turma já lotou), então se quiser férias especiais não espere sentado (faça antes uma cadeira!).
Foto: Gui Siqueira
Fevereiro. O mês promete com um curso de plainas em um Sesc pertinho de você (ou não, não sei onde você mora). Ainda não podemos divulgar todas as informações, então acompanhe o Instagram (enquanto não abandonamos essa praga) para saber das novidades.
Meus cursos sobre os encaixes principais da marcenaria foram para a Forjaria Escola. Você pode fazer qualquer uma dessas propostas como aluno regular do ateliê, no seu ritmo e horários preferidos. A ideia do curso de fim de semana é concentrar toda a informação, deslocamentos e esforço numa tacada só, o que pode ser interessante para algumas pessoas. Os encontros dedicados ao encaixe de meia madeira e de caixa e espiga caíram em 2024, rabo de andorinha pulou para os dias 8 e 9/2/2025. Mais informações no link.
Em fevereiro (e março) também vamos oferecer novamente o curso de construção de bancadas com o Rodrigo Silveira. Já temos as datas, é facinho lembrar: 15, 16, 22 e 23 de fevereiro e 15, 16, 22 e 23 de março. São quatro fins de semana, pulando o Carnaval (mais um chorinho). Cada um faz e leva para casa uma bancada com duas morsas. É muito trabalho, mas vale a pena.
Bancada feita por Thiago Silvestrini. Foto dele.
Abril/Maio/Junho. Nesses meses ocorrem os cursos de banqueta, cadeira e poltrona estaqueada na Forjaria. Clique nos links para mais informações, inclusive sobre a possibilidade de bolsas integrais.
Há mais acontecendo, como sempre. Em abril o curso de plaina volta ao Rio de Janeiro (vagas esgotadas, não deu tempo de anunciar, mais edições em breve). As aulas regulares no ateliê do Brooklin continuam, para adultos e crianças, juntos ou separados. O pessoal vem e vai, então (quase) sempre há horários novos com vagas. Se não houver vagas há uma lista de espera. Para mais informações é só mandar mensagem, email ou aparecer para um café no Mission Chocolate. Nas férias de julho vem a Mega Feira e uma participação conjunta, histórica, implacável e concupiscente do famoso podcast Cheio de Dedos pode acontecer (você ouviu em primeira mão aqui). É claro que ninguém mais deve estar lendo até aqui e que o vinho que tomamos no almoço inspirou algumas das palavras que acabam de ler, mas para voltar à seriedade é importante registrar que o artigo sobre nossa relação com a tradição (ou a percepção de sua ausência) foi publicado pela Mortise and Tenon Magazine, algo que nos alegra bastante (apesar da dura autocrítica). Não poderíamos deixar de agradecer ao Joshua e ao Mike (e doadores) pela bolsa que recebemos para realizar essa investigação e escrever o ensaio, além de todos que contribuíram com doações, apoio, conversas e fazendo os cursos. Sem essa rede nada disso poderia acontecer. O segundo semestre de 2025 deve seguir com muitas colaborações, em especial com a Forjaria Escola. Teremos novamente o Caixa e Cravos, um curso rápido sobre como forjar cravos para depois montar uma caixa de ferramentas. Um ou dois baús (um simples, com seis tábuas e outro mais elaborado, com ferragens também forjadas). E um banco de tanoeiro e um torno de pedal, si Dios quiere…
Desde que criei um novo novo perfil no Instagram, sempre fico pensando nessa separação que a rede social acabou me forçando a fazer. Tenho três perfis: um pessoal (que o propósito sempre foi colecionar memórias), um sobre crochê (que fiz para vender bonequinhas e amigurumis) e esse aqui. Fico pensando nessas 3 “Giulias” (mas na verdade elas são tantas mais, e também uma só). É impossível fazer essa separação na vida real. Carrego quem eu sou por onde eu vou. Minhas experiências, minha vida pessoal, minhas habilidades manuais, minha paixão por educação, meu maternar, minhas origens, tudo se entrelaça num bonito tecido que revela minha história, minha identidade.
Uma das metáforas que mais gosto para falar da vida humana é a do tear. Para fazer um tecido é preciso das urdiduras e da trama. O urdume, ou urdidura, são os primeiros fios a entrarem no tear, aqueles que compõe o tecido longitudinalmente. A trama é aquela que vai trançando a urdidura. Penso que nossa essência está na urdidura. Na trama estão as experiências que a vida que vai nos trazendo e nos trançando. O encontro entre a trama e a urdidura vão compondo o tecido da nossa vida.
De um desses encontros, entre trama e urdidura, nasceu o Saber com a Mãos. O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago. Nos conhecemos em 2012. Eu, pedagoga e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?
A paixão por marcenaria, na verdade, é essa paixão pelo encontro humano pelos materiais concretos e a possibilidade de nossas mãos, ao dedicar esforço e resiliência, de se relacionar com eles, poder produzir, poder trazer ao mundo algo real e belo (não só belo, pelo valor estético, mas belo por ser algo autêntico e real, mas que antes habitava outra espacialidade). Nossas mãos carregam essa possibilidade e acreditamos que essa é uma capacidade fundante do ser humano, ou seja, com o distanciamento cada vez maior dos processos manuais, acabamos nos separando de algo que nos constitui, de ser humano. O fazer e o saber com as mãos nos tornam mais humanos. E portanto, acreditamos em uma educação que passa pelos processos manuais, que valoriza os fazeres manuais e que sobretudo, na possibilidade das crianças (e adultos) experienciarem tais processos.
Hoje, o Saber com as Mãos se concentra em aulas de marcenaria com crianças e adultos em escolas de São Paulo, unidades do Sesc e no ateliê. Oficinas de bordado e crochê também acontecem esporadicamente, assim como a encomenda de bonecas e brinquedos de crochê. Também somos parte do Podcast Cheio de Dedos que tem episódios mensais sobre o fazer manual, trazendo temas específicos da marcenaria, mas também conversando com as pessoas de variados ofícios. Você pode nos ouvir no Spotify e em breve no Youtube. Outra atividade central é a pesquisa e divulgação desses fazeres, publicado em revistas, em nosso site e redes sociais.
Mas, como disse no início, além de nossas atividades, o Saber com as Mãos permeia nossas vidas, faz parte de quem somos, do nosso olhar para o mundo. Convido vocês então, a saber mais do nosso projeto. Acesse nosso site, nossos perfis, entre em contato e compartilhe com os amigos 🙂
Em breve o ano acaba, mas antes disso ainda dá tempo de fazer um monte de coisa. Se quiser minha companhia, veja por onde devo estar.
Setembro. O último curso do ano de construção de plainas ficou para os dias 7 e 8/9, no ateliê do Brooklin. A carga horária é de 16 horas de muita diversão usando plainas, serrote, grosas, limas, raspilha e furadeira. Essa é inclusive a lista de ferramentas que pode trazer para usar, mas caso não as tenha eu empresto (e você experimenta usar ferramentas boas e bem ajustadas). O valor da inscrição é R$1.300. Para garantir seu lugar é só mandar uma mensagem. E caso prefira fazer o curso no seu ritmo e em sua oficina, o curso online segue disponível em https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/construcaodeplainas/G54624192K
Nos dias 14 e 15/9 estarei no Sesc São José dos Campos com um curso de inspiração Shaker. Juntos vamos fazer um pequeno armário, todo de Pinus spp. e pregado com pregos históricos (cortados e em cunha, não de arame), buscando entender que o que faz algo ter presença e qualidade é o trabalho, o cuidado e a intenção. Para conferir esse projeto você pode clicar aqui. As inscrições são por conta do Sesc, acompanhe a divulgação do curso nos canais deles (revistinha, site, Instagram).
Em 21 e 22/9 retorno ao Sesc São José para um curso sobre Acabamentos Históricos, no qual vamos discutir os prós, contras e formas de aplicação das ceras, dos óleos e da goma laca. Inscrições diretamente com o Sesc.
Outubro. O curso comigo e o Hernán sobre as plainas tradicionais já está com vagas esgotadas (ele vai trazer dois cantis como esse da foto para vender e um já é meu, viva!) mas ainda há cursos com vagas disponíveis. Só que não posso falar muito ainda sobre esses cursos. Apenas que vão acontecer em uma unidade do Sesc próxima da sua casa (ou não). O que sim, posso afirmar, é que um desses cursos vai tratar da construção de uma bancada estilo Nicholson (referências aqui, aqui e aqui). O outro vai ser uma orientação para que você possa remover os obstáculos técnicos que te impedem de realizar os projetos que deseja em madeira maciça. Poderemos abordar afiação, encaixes, acabamento, restauração de ferramentas, preparação da madeira com ferramentas manuais, etc. Um curso com um pouco de tudo, como a Mesbla…
Novembro. Os encaixes tradicionalmente mais empregados na marcenaria vêm com tudo. Levei para a Forjaria Escola a proposta que já fiz ano passado de examinar com atenção as características e diferentes modos de execução dos encaixes de meia madeira, caixa e espiga e rabo de andorinha através da construção de projetos independentes. Em 23 e 24/11 a proposta é aprender sobre a meia madeira fazendo um curtamão, esquadro de grandes dimensões que é tanto bonito quanto útil. Mais informações e inscrições direto no site da Forjaria Escola.
Dezembro. Não saia de férias antes de confiar que sua caixa possa se ajustar a qualquer espiga. Ou vice versa. James Krenov gostava de usar cavaletes na oficina que além de bonitos são muito práticos. Você pode ler sobre eles aqui. Nos dias 7 e 8/12 vamos fazer um desses cavaletes lá na Forjaria. Você leva a madeira para fazer o segundo e completar o par.
Janeiro. Comece o ano com uma caixa de ferramentas nova toda feita com rabos de andorinha. Para dar tempo de se recuperar dos excessos da ceia, jogamos o curso lá para o final do mês, em 25 e 26/1. Não costumo dar esses cursos com frequência, então cuidado para não perder o bonde. Inscrições direto com a Forjaria.
A sequência em 2025 promete. Devemos oferecer novamente o curso de construção de bancadas com o Matheus e o Rodrigo Silveira. Os cursos da banqueta alta, da cadeira e da poltrona estaqueada já estão no site da Forjaria (você já pode garantir sua vaga). Há uma possibilidade de curso de plaina no Sesc novamente. No ateliê é provável que aconteça apenas o de guilherme e do boquexim (corteché, corta-chefe, spokeshave, wastringue, bastrén, Schabhobel).
Fiquem ligados aqui e no Instagram para as novidades.
Peço desculpas pelo título chamativo, mas a pergunta é verdadeira. Já são quase 10 anos de Saber com as Mãos. A iniciativa que eu (Thiago) e Giulia Ciavatta fundamos com o intuito de estudar os fazeres tradicionais, valorizar as pessoas que se dedicam a esses fazeres e buscar difundi-los ante um público mais amplo amadureceu. Uma das facetas mais importantes desse trabalho, qual seja, a de discutir o lugar dos trabalhos ditos manuais na educação continua como uma preocupação central.
Hoje a Giulia, que trabalha em instituições de ensino desde os 18 anos, atua como coordenadora em uma escola e nessa condição acompanha de perto o trabalho de um grupo de professoras, propondo situações de formação diversas. Ainda que o contexto em que atue não seja diretamente relacionado com os fazeres, é o próprio fazer educacional o cerne de sua atuação, discutindo tanto as ferramentas das quais dispõem as professoras quanto os aspectos éticos e políticos desse trabalho. Pelo meu lado, também tenho buscado compartilhar o olhar que fomos conformando a partir dos ofícios e da relevância na atualidade de compenetrar-se dos gestos que transformam o mundo a partir de nossa criatividade, sensibilidade e inteligência material.
Estamos agora em um momento de articulação mais sistemática desses esforços, para dizê-lo de algum modo, de formação. Por isso gostaríamos de saber de pessoas interessadas em tanto se aprofundar nos fazeres da madeira (em específico) quanto em sua transmissão. Não há nenhuma vaga de estágio ou oportunidade de trabalho aberta agora, apenas nos parece importante começar a conhecer quem estaria disposto a contribuir com o Saber com as Mãos com sua própria experiência, estilo e esforço.
Caso esse convite ressoe consigo, escreva para nós usando o email. Conte, por favor, um pouco de sua trajetória pessoal e profissional. Se já trabalha com madeira ou outro material, seria bacana se pudesse dizer que coisas gosta de fazer ou mesmo o que gostaria de aprender. Diga também se tem alguma experiência ensinando, especialmente crianças. Por fim, não deixe de mencionar se você se comunica em outros idiomas além do português, se possui algum talento especial escondido e também porquê gostaria de trabalhar conosco. Obrigado desde já pelo interesse no que fazemos e pela disponibilidade para entrar em contato.
Encerro com mais notícias. Giulia abriu um perfil novo sobre educação no Instagram. Eu estou de volta após o curso de plainas e a gravação do curso online nos Estados Unidos (ainda estou devendo o post contando tudo). Queria apresentar aqui a agenda completa do semestre mas alguns parceiros estão atrasando bastante a confirmação dos cursos, então pedimos para que continuem ligados no Instagram pois divulgamos tudo por lá. O que já está publicado e confirmadíssimo são os cursos na Forjaria Escola. A partir de novembro vou dar três cursos lá sobre os encaixes mais comuns na marcenaria (meia madeira, caixa e espiga, rabo de andorinha). Para cada encaixe há um projeto que serve de fio condutor e que você leva para casa no fim do curso. Além disso, continuo com o curso regular no ateliê, no qual você, criança ou adulto, é quem define o percurso, o tema a ser tratado e a duração. E o último curso de plainas do ano também já tem data: 7 e 8/9 no ateliê! Para mais informações é só entrar em contato.
Curso Banqueta de Madeira, na Forjaria Escola, São Paulo, Brasil 23 e 24 de março
Uma introdução à construção de mobiliário de assento estaqueado, essa banqueta de três pernas aparece em The Anarchist’s Design Book (Revised Edition), de Christopher Schwarz, livro que já se transformou em um clássico. Vamos ver como afunilar e oitavar as pernas usando plainas, como furar o assento nos ângulos corretos, como fazer as travessas inferiores e como montar tudo para você levar para casa (ou para a oficina) uma bela banqueta. Mais importante ainda, você leva consigo conhecimentos para fazer outros móveis usando as mesmas técnicas e princípios.
Construção de Plainas, na Oficina.cc, Belo Horizonte, Brasil 04 e 05 de maio Uma das ferramentas mais importantes na marcenaria, a plaina tanto pode ser usada na preparação da madeira quanto para fazer encaixes e acabamentos. Tradicionalmente era feita pelo próprio artesão, que considerava o uso que lhe seria dado e a dotava muitas vezes de características pessoas. Um ferreiro-forjador normalmente fornecia a lâmina, situação que também vamos experimentar no curso.
Curso Cadeira de Madeira, na Forjaria Escola, São Paulo, Brasil 24, 25 e 26 de maio Essa cadeira também é um projeto do Christopher Schwarz publicado em The Anarchist’s Design Book. Além de belas fotos, o livro apresenta algumas pranchas gravadas por Briony Morrow-Cribbs, uma preciosidade que fizemos questão de destacar. Igualmente digna de destaque é a perspectiva sob a qual o livro foi escrito, ressaltando a potência da criatividade e do trabalho humano diante das armadilhas do consumismo e da preguiça mental. O texto defende com acidez e humor que podemos criar muitas das coisas, materiais ou imateriais, que necessitamos.
Como essa cadeira, inspirada em uma tradição vernacular na qual o mobiliário costuma ser produzido com os recursos à mão e por quem mesmo deverá utilizá-lo. Se nunca se arriscou na construção de um móvel mais complexo como uma cadeira esse curso pode ser para você. Se apenas quer uma cadeira bonita, feita por você, também.
Wooden Plane Making, The Woodworking School At Pine Croft, Kentucky, Estados Unidos 21, 22 e 23 de junho
Make your own Krenov-style wooden plane, the Brazilian way! In the words of James Krenov, the hand plane is the cabinetmaker’s violin. Much easier to handle than a violin, the plane sure has its mysteries and magical properties. Very useful in a wood shop for various processes, including making boards and panels flat and square, jointing boards for glue-up, adjusting joinery and even finishing, the plane offers an efficient and intimate connection to our favorite material. Building your own plane out of wood is within reach for everybody. In this class, we’re going to go over all the aspects of what makes a plane work well, from construction to setup and sharpening to how to deal with difficult grain. In the end, you will leave with a plane made by yourself to fit your hands and taste. And with enough knowledge to make many more. Special Brazilian woods like Jatoba and Imbuia will be provided for you to choose from.
Curso Poltrona de Madeira, na Forjaria Escola, São Paulo, Brasil 3 de julho, 01, 02, 03 e 04 de agosto
Diferente de outros tipos de mobiliário, normalmente feitos para conter coisas, uma cadeira oferece contenção a uma pessoa. É assim que Christopher Schwarz abre o seu The Stick Chair Book, publicado pela Lost Art Press e que pode ser adquirido em formato físico ou baixado gratuitamente em pdf aqui.
A poltrona (uma cadeira com braços) que nos propomos a fazer no curso pertence à tradição dos móveis estaqueados, devido às suas principais junções e à sua origem popular, sendo muitas vezes construída por marceneiros amadores. Entre as formas possíveis de classificar as cadeiras, um dos critérios diz respeito à estrutura do assento, sólido nesse caso e responsável por estruturar toda a peça. Outro critério interessante tem a ver com os processos de produção: enquanto algumas poderiam ser consideradas “de marceneiro” e outras “de cadeireiro”, a poltrona que vamos produzir pertence a um entre mundos, sendo tradicional, simples e produzida com muitas ferramentas às quais já estamos acostumados. Se quiser ouvir o próprio Schwarz falando sobre isso, assista: Bench Talk 101 Chris Schwarz “Chairmaking for flat woodworkers”
Curso: Garlopim com Hernán Costa (ARG), na Forjaria Escola, São Paulo, Brasil 16, 17, 18, 19 e 20 de outubro
O garlopim é uma plaina coringa. Como o nome indica, é aparentado à garlopa, mas menor que esta, tendo comprimento equivalente a uma plaina número 5 ou 6 de metal. Seu uso depende tanto de nossa intenção quanto de como preparamos a ferramenta: com uma boca mais aberta e um ferro (lâmina) afiado com curvatura acentuada, pode ser a primeira plaina a tocar a madeira, realizando o desbaste mais inicial; com a boca mais fechada e contraferro ajustado bem próximo ao fio pode ser a última plaina a ver a madeira, deixando um acabamento tinindo de lindo.
Para construir o garlopim que você vai levar para casa nós vamos abordar técnicas mais tradicionais como o uso de furadeira e formão para escavar a garganta da plaina, o uso dos formões com precisão, diversas técnicas de aplainamento, além de confeccionar um cabo esculpido para cair bem na sua mão (com junção de caixa e espiga no cepo) e a cunha. Com os conhecimentos que adquire fazendo esse garlopim, além de se aperfeiçoar no trabalho com a madeira macica, você será capaz de produzir outras plainas, sejam menores como uma plaina de afagar ou maiores como uma garlopa. Por seu notório saber e também para ampliar as redes de cooperação sul-americanas, recebemos com enorme satisfação o artesão argentino Hernán Costa para ministrar o curso em conjunto conosco. Português e espanhol, portanto, serão as línguas oficiais do encontro, uma perspectiva que nos aproxima e que amplia nossos horizontes no ofício.