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Saber com as Mãos

Desde que criei um novo novo perfil no Instagram, sempre fico pensando nessa separação que a rede social acabou me forçando a fazer. Tenho três perfis: um pessoal (que o propósito sempre foi colecionar memórias), um sobre crochê (que fiz para vender bonequinhas e amigurumis) e esse aqui. Fico pensando nessas 3 “Giulias” (mas na verdade elas são tantas mais, e também uma só). É impossível fazer essa separação na vida real. Carrego quem eu sou por onde eu vou. Minhas experiências, minha vida pessoal, minhas habilidades manuais, minha paixão por educação, meu maternar, minhas origens, tudo se entrelaça num bonito tecido que revela minha história, minha identidade.

Uma das metáforas que mais gosto para falar da vida humana é a do tear. Para fazer um tecido é preciso das urdiduras e da trama. O urdume, ou urdidura, são os primeiros fios a entrarem no tear, aqueles que compõe o tecido longitudinalmente. A trama é aquela que vai trançando a urdidura. Penso que nossa essência está na urdidura. Na trama estão as experiências que a vida que vai nos trazendo e nos trançando. O encontro entre a trama e a urdidura vão compondo o tecido da nossa vida.

De um desses encontros, entre trama e urdidura, nasceu o Saber com a Mãos. O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago. Nos conhecemos em 2012. Eu, pedagoga e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?

A paixão por marcenaria, na verdade, é essa paixão pelo encontro humano pelos materiais concretos e a possibilidade de nossas mãos, ao dedicar esforço e resiliência, de se relacionar com eles, poder produzir, poder trazer ao mundo algo real e belo (não só belo, pelo valor estético, mas belo por ser algo autêntico e real, mas que antes habitava outra espacialidade). Nossas mãos carregam essa possibilidade e acreditamos que essa é uma capacidade fundante do ser humano, ou seja, com o distanciamento cada vez maior dos processos manuais, acabamos nos separando de algo que nos constitui, de ser humano. O fazer e o saber com as mãos nos tornam mais humanos. E portanto, acreditamos em uma educação que passa pelos processos manuais, que valoriza os fazeres manuais e que sobretudo, na possibilidade das crianças (e adultos) experienciarem tais processos.

Hoje, o Saber com as Mãos se concentra em aulas de marcenaria com crianças e adultos em escolas de São Paulo, unidades do Sesc e no ateliê. Oficinas de bordado e crochê também acontecem esporadicamente, assim como a encomenda de bonecas e brinquedos de crochê. Também somos parte do Podcast Cheio de Dedos que tem episódios mensais sobre o fazer manual, trazendo temas específicos da marcenaria, mas também conversando com as pessoas de variados ofícios. Você pode nos ouvir no Spotify e em breve no Youtube. Outra atividade central é a pesquisa e divulgação desses fazeres, publicado em revistas, em nosso site e redes sociais.

Mas, como disse no início, além de nossas atividades, o Saber com as Mãos permeia nossas vidas, faz parte de quem somos, do nosso olhar para o mundo. Convido vocês então, a saber mais do nosso projeto. Acesse nosso site, nossos perfis, entre em contato e compartilhe com os amigos 🙂

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Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.