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Educação

Fazendo o mundo – reflexões sobre os fazeres, as crianças e os adultos

Eu aprendi a fazer tricô com a minha vó. A cada inverno, ela presenteava um ou dois netos com um cachecol de lã feito por ela. Eu ficava admirada com a sua proeza. A gente escolhia a cor e o estilo e depois de alguns finais de semana, pronto! Lá estava ele prontinho e quentinho. Não era um cachecol que se encontrava em lojas, ou em qualquer lugar. Mas um cachecol feito pela minha vó. Assim que eu entendi que era possível fazer um também, pedi pra minha avó me ensinar. E eu aprendi… e até hoje é a minha peça preferida de tricotar.

Minha avó sempre fez coisas. Me lembro que antes de aprender a tricotar, ela me ensinou a bordar tapetes de lã. Sabe aqueles que você compra a tela com o desenho pronto e vai preenchendo? Eu ficava maravilhada com os pontos que iam formando um desenho, e depois da peça terminada, lá estava um tapete bonito que eu tinha feito com as minhas mãos. Minha avó também gostava de fazer os enfeites de mesa para as festas de família, arranjos de flores e até hoje ela borda panos de prato.

Já adulta, fiquei fascinada pela técnica do amigurumi. Aprendi com uma amiga da faculdade, na casa de outra amiga. Eu fiquei obcecada, passava qualquer tempo livre fazendo crochê. Tão prazeroso pegar as linhas, sentar no sofá, ou na cama e assistir aquela série favorita, ouvir um podcast ou simplesmente se perder em pensamentos. Mas também, é uma delícia levar o crochê pra fora. Enquanto se locomove no ônibus ou metrô, espera por alguém, ou simplesmente sentar em algum lugar e pegar as linhas. Existe até o “Knit In Public Day”, um dia especial para todas as tricoteiras levarem os novelos para fora. 

Em 2018, fizemos uma viagem muito especial para o Norte da Argentina. Em um pequeno pueblo nas montanhas, sentei na única praça e comecei a crochetar uma boneca. Não demorou muito para uma moradora se aproximar e puxar assunto. Descobri que ela também gostava de tecer. Crochetar em público é sempre uma maneira de se conectar com as pessoas, mesmo que seja por um olhar curioso. 

Logo tive a ideia de levar o crochê para a escola. Na época, eu era professora, e enquanto as crianças brincavam no tempo livre, eu crochetava um pouquinho.

“O que é isso?”, “O que você está fazendo?”, “Você que faz?”, “Como você faz?”, “A minha vó também faz, sabia?”. As crianças são muito mais desinibidas que os adultos. Perguntam tudo. Algumas também só olham curiosas. Mas essa experiência com elas me fez começar a questionar: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

Em outra escola que trabalhei, lembro que era muito comum encontrar o porteiro (que também fazia reparos de manutenção) pela escola fazendo algo. Era um momento muito rico e as crianças de todas as idades sempre demonstraram muito interesse: “O que você tá fazendo?”, “Posso fazer também?”, “Como chama esse (apontando para alguma ferramenta)”. 

As crianças estão descobrindo o mundo, e ao se deparar com esses processos, descobrem como se faz o mundo. Percebem as materialidades e as possibilidades de se construir, reparar, consertar, criar… Percebem a possibilidade do criar humano. Vivendo em cidades grandes, as crianças (e os adultos também) estão cada vez mais afastadas desses processos, tudo está muito pronto, acabado e fácil nas mãos das crianças. Retira-se a possibilidade de se entender o mundo por meio de seus processos mais básicos. Ficamos desconectados, afastados e alienados e as consequências disso começam a ficar cada vez mais perceptíveis. 

Quando comecei a refletir sobre isso, há mais de 10 anos – e quando as redes sociais ainda engatinhavam – já se via alguns sinais dessa desconexão, principalmente nas crianças. Mas passado esse tempo, nós todos temos acompanhado como isso tem impactado as novas gerações de jovens e adultos. Um estudo sobre felicidade apontou que as novas gerações estão mais descontentes, em comparação com as anteriores. É claro que a razão disso não está só nesse processo de desconexão com os processos que citei acima. Para todo problema, existem mil camadas, e nunca existe somente uma resposta. A crise do capitalismo, a questão climática, viver em uma sociedade neoliberal, a ameaça das inteligências artificiais e o crescimento do fascismo no mundo todo contribuem – e muito! – para isso. É urgente estarmos cada vez mais atentos às essas questões e buscar maneiras de resistir – e não sucumbir – em um mundo cada vez mais colapsado.

Para mim, se reconectar com os processos que fazem o mundo é uma forma de resistência e pode apontar uma saída interessante. Sempre que penso nessa sensação iminente de colapso que vivemos todos os dias, eu começo a pensar: a humanidade já passou por outras crises. Diversos povos e grupos sociais já passaram por colapsos e transições, talvez até muito piores do que estamos passando (a gente sempre tende a achar que a nossa situação é a pior do mundo e da história, né), e então: como eles fizeram? Como resistiram? O que os sustentava durante esses períodos? Conhecer as histórias de resistência podem nos apontar caminhos interessantes, e esse tema tem aparecido nas minhas pesquisas com frequência.

“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar no século XXI ainda esperando, reivindicando e desafiando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desse povos.” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 28

Ailton Krenak diz em seu livro que os povos indígenas estão enfrentando a crise já há muito tempo… nós brancos que estamos desesperados agora, tentando entender… mas eles já entenderam e sabem como sobreviver.

“Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: ‘Como os índios vão fazer diante disso tudo?’. Eu falei: ‘Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa’”. Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 31

Para mim, os povos originários guardam as respostas para muitas das perguntas que nós estamos vivendo. Não são respostas prontas, nem fáceis… mas são apontamentos, guias, que podem nos fazer refletir qual caminho seguir e quais não. E quando penso nessa conexão com os fazeres, me lembro da educação indígena. Você sabe como uma criança indígena aprende? Ela aprende vendo, observando, estando perto, sendo convidada a participar repetidamente e cotidianamente os fazeres da comunidade. Fazer e plantar a comida, fazer as vestimentas, fazer as tintas corporais, fazer brinquedos, fazer utensílios, fazer mobiliário… fazer, fazer, fazer. Um fazer que é prático, necessário. Um fazer coletivo que gera pertencimento, que preserva conhecimento, que dá sentido à vida social e que gera o próprio sentido criador humano. Em suma, que nos torna humanos.

Agora, eu volto à pergunta: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

No Saber com as Mãos, a gente tem um pouco essa ideia. Nossas aulas, são esse espaço de ter um adulto, ou par mais experiente, disponível ali para ensinar, guiar, observar. Além de ser um espaço tempo que a gente reserva para fazer, e sair da rotina que nos engole e aliena. Um formato de aula que a gente gosta bastante também é com famílias. Adultos e crianças juntos, fazendo algo, experimentando e vivendo um pouco dessa experiência com as mãos. 

No dia 28 de junho, teremos mais uma edição do curso de banquinho de 3 pés em parceria com o Rodrigo Silveira, na oficina dele, na Barra Funda em São Paulo. Será das 14h às 18h e para se inscrever é só mandar uma mensagem para nós em @sabercomasmaos ou para o Rodrigo em @rodrigoquefez no Instagram. Fazer o banquinho é na verdade só uma desculpa para estarmos juntos… mas levar pra casa um banquinho feito a muitas mãos e depois poder tê-lo em casa também é muito legal! Vamos fazer juntos?

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Diário de Viagem

A padaria

Há mais um ano estávamos em Juremal/BA, um pequeno distrito de Juazeiro e uma das minhas origens. Em frente à casa de uma tia havia essa padaria, poesia pura. É a mais antiga de Juremal. E acho que a única também. Dos Anjos contou para nós que o pai havia deixado a padaria para ela, que compartilhava a lida com o Neuto e os filhos. Deu tanta coisa bonita na conversa que demorei um ano para conseguir contar a história (ou estória, escrevo dos dois jeitos porque fartura de palavras acabou virando resistência, afinal o mundo continua cheio de anjos e bestas também). Na tarde que aparece na foto, ficamos aí conversando e depois voltamos no fim do dia para ver o Neuto preparando a massa. Depois de misturar tudo é preciso deixar a massa descansar e crescer. Fazer pão ensina os princípios, às vezes a gente cresce resistindo, às vezes descansando. Cada etapa invoca uma exigência: mental, física ou moral mesmo. Tem que saber esperar, ficar ali só cuidando, tem que ser ágil e pegar pesado, toda a rotina da casa em função do pão. O forno tem que acender ainda de tarde, enche tudinho aquele forno enorme de lenha, que queima até carvão. No dia seguinte lava tudo e só aí tá pronto para assar os pães. Aí voltei! Acordei cedinho e fui lá ajudar o Neuto. Cheguei bem na hora de começar a carregar o forno. Minha função era abrir e fechar a porta, atento aos movimentos precisamente coordenados do mestre. Aos poucos, ainda bem cedinho, o pessoal da cidade ia chegando para comprar pão. Assamos uns 600 pães naquela manhã. Acho que comi meia dúzia, ali mesmo e depois na casa da tia, já que saí da padaria com o pão do dia ganho. Dizem lá em Juremal que esse é o melhor pão do mundo. Não duvido, era alimento para o corpo e a alma.

Quick disclaimer: the world may not need another text about bread. Juremal is a small little town in the northeastern state of Bahia, in Brazil. It is one of my origins, granted the fact a person is entitled to originate in many places and times. My mom was born in this town and a big portion of our family still lives there. At the end of 2018 we paid them a visit, staying with Aunt Petinha, or Tia Petinha as we say it in Portuguese. Across the street from her house there was this bakery, the oldest in the area, pure poetry. One may ask how come a place that bakes bread can be poetic in any sense or stretch of the word but maybe these few words are not about bread. 

Dos Anjos, the woman who runs the bakery with her family, inherited the business from her father. Neuto, the husband, is the baker. We first got to talk one afternoon, that’s when the picture above was taken. Standing next to their firewood supply we talked about the bread making process, it seemed the whole family dynamic revolved around it. Later that day Neuto would start mixing the dough, which needs to rest for a few hours until it is time to form the loaves. 

Making bread is hard work, particularly on such a scale. Each step comes with a special requirement, either physical, mental and even moral. One must learn to wait, to be quick or work heavily, the entire family routine happening around those tasks. 

The huge wood-fired oven has to be completely filled by the end of the day, then the wood will burn to ashes that have to be cleaned before baking can actually begin. We were invited to come back: “be here at 5:00AM”, they said. I was! When I got there everything was set up so baking could start. Neuto would load this long board with loaves he would quickly release into the oven. It was frenzy but he had it under control. Or maybe I should say we, since at that point I was no longer an observer but took part in it. My task was to open and close the oven’s door, watching closely Neuto’s moves and trying to stay out of the way.

On that morning we baked 600 “pãezinhos”, our way of referring to bread. I confess, after eating a few loaves there I brought some more with me and ate again when the family was ready for breakfast. They say over there this is the best bread in the world. It’s hard to disagree, when such a simple thing, skillfully made by someone, is food for your body and your soul, this is the best thing ever.

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Diário de Viagem

A chegada em Juremal

Chegamos em Juremal pouco antes do almoço, então deu tempo de tomar uma cerveja gelada e jogar palitinho com os tios e primos. As panelas já cheiravam e achei interessante que praticamente metade da casa era tomada pelas duas cozinhas. Pra mim, a cozinha é o coração de toda casa, e o fato da casa da Tia Petinha ter duas (fogão a gás, outro a lenha) já dizia muito sobre ela: uma mulher de coração grande.

Além das comidas deliciosas – beiju, peta, cuscuz, arroz, feijão, peixe, carne de bode, carne de vaca, legumes – também tinha panela no fogo com calda de açúcar. Era pra fazer ambrosia. Tia Petinha é doceira, assim como a Tia Dida. Depois de um tempo que chegamos, já tinha gente na porta dela procurando por picnic.

De barriga cheia e quase rolando (Come menina, não vi você comer. Como come pouco ela, né? Ah, Thiago, coma mais, não comeu foi nada. Não gostou da comida, foi?) fomos dar uma volta na cidade. Na frente de Tia Petinha mora o Tio Lelinho, depois da praça, ali, no fim da rua, mora Tio Régis e na esquina, Tia Dida. No começo da rua, mora Tia Vadina.

A sensação era de cidade que parou no tempo. A estação de trem, tão bonita, abandonada. O trilho de trem, servindo só de enfeite e de lembrança de um tempo que já foi. O mandacaru querendo florir. O sol quente e a brisa suave. Silêncio. De repente, a porca na praça. Grande, gorda, preta. Mais silêncio. Apesar dele, dava pra ouvir o barulho da vida invadindo tudo o tempo todo. Tudo tinha vida, dessas vividas mesmo. História, conversa, sentido, significado. Cada cantinho pulsava a vida. Mas vida mesmo. Com dor, tristeza, alegria, amor, e muito, muito afeto.

No fim do dia, fomos até a roça da Tia Petinha. Tinha que ir andando pelo trilho do trem. Ela ia andando e me contando suas histórias de quando era pequena. Na roça da Tia Petinha tem de tudo, benção da água que chegou não faz muito tempo. Tem até uns coqueiros baixinhos, dando coco verde e maduro, tudo a mão. Nos contou do trabalho que dá ver dar frutos a terra. Também falou do seu sonho de construir uma casa e ir morar lá. A vizinha tinha umas cabras e vendia queijo do seu leite. A ovelhinha açucena, presente pra neta, nos concedeu alguns minutos de cafuné. Colhemos. Conversamos. Rimos. Apreciamos o pôr-do-sol.

Era o último dia do ano de 2018. Acho que esse dia valeu pelo ano inteiro.

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Madeira Verde

Cipreste

Ganhei um tronco de cipreste. Isso foi outro dia, alguém derrubou a árvore e deixou na beira da estrada. Um pedaço foi parar na fogueira lá no sítio. E não é que São João resolveu avisar? Alguma coisa me fez olhar as madeiras que tinham separado e empilhado, então antes de colocar fogo o João, meu cunhado, não o santo, me ajudou a tirar da pilha um belo pedaço de cipreste, foi só lascar e na hora o cheiro me fez lembrar da Argentina, onde conheci a madeira. Depois trabalhei de novo num pedacinho que tinha vindo de um cravo da Alemanha. Mas aqui eu nunca tinha visto.

Chegando no sítio eu até tinha percebido uns troncos jogados na estrada, pensei “tenho que dar uma olhada”, mas foi só com a iminência do fogo mesmo que resolvi me mexer. Depois fui com meu pai, que também é João, o João cunhado e o Van até a estrada para ver o resto do cipreste, uma árvore grande, não sei quem derrubou e jogou ali (ela não parecia ser dali). Picotamos algo para levar com machados, aquele cheiro bom de cipreste e uma alegria pelo achado, esse presente de São João e do meu pai, que também é João. Faz tempo que queria trabalhar com a madeira assim, coletando meu próprio material, usando ferramentas simples, trabalhando com as mãos, da árvore à coisa.

Agora que abriu o caminho eu corri pra fazer o cavalete da foto. Não tem coisa mais simples, você senta e empurra com o pé para travar a peça enquanto puxa a faca de tanoeiro, um absurdo de simpleza. Fiz inspirado em uma foto que vi do Roy aqui no insta da Megan. No último livro dele tem um desenho e algumas medidas também. Ontem foi o dia de estreia, com o cipreste, a família e mais tantas presenças e coisas, das visíveis e das invisíveis.