Categorias
Educação

A Linguagem da Madeira

O Saber com as Mãos nasceu do meu encontro com o Thiago e do encontro dele comigo. Nossos caminhos se cruzaram e também nossos conhecimentos e partilhas sobre o mundo. Apesar das nossas discussões, ideias e reflexões contribuírem muito para o que acontece tanto aqui no Saber com as Mãos em si, quanto nas nossas vidas profissionais individuais e nos espaços que a gente habita como indivíduos, nós nunca havíamos dado uma oficina juntos.

Em julho de 2025 tivemos essa oportunidade no Sesc Santana. Para mim, Giulia, pude aprender mais sobre a madeira e sobre a marcenaria na prática. Aprendo muito com o Thiago e vejo ele se relacionando com esse conhecimento há muito tempo. Mas é bem diferente quando a gente tem a oportunidade de vivenciar, manusear e se colocar em relação com a materialidade, nesse caso a madeira.

Mas, agora, faço uma reflexão de que essa oportunidade foi mais do que poder entender mais sobre a madeira. Foi uma oportunidade de me colocar em relação com as crianças de uma forma diferente. Por meio da madeira, das suas características e da proposta que estava em voga naquele dia, eu pude conhecer mais sobre o que as crianças pensam e fazem quando estão explorando a madeira. Quais os gestos elas usam? Quais perguntas elas se fazem? Quais ações as interessam mais? Como reagem quando a madeira responde aos seus gestos, olhares, e sensações?

Esse olhar, essa curiosidade sobre como e o quê as crianças pensam eu aprendi estudando e vivenciando a Abordagem Reggio Emilia. Mais do que uma abordagem, é uma experiência educativa que acontece todos os dias nas escolas de educação infantil da rede pública de ensino dessa cidade italiana. Uma realidade que está há muitos quilômetros de distância da nossa, mas que inspira e nos ensina sobre valores democráticos e de resistência em tempos que assombram as possibilidades da imaginação, criação e pensamento crítico na sociedade e na escola.

A partir dessa experiência no Sesc Santana, fomos tecendo alguns pontos e conexões importante sobre o trabalho do Saber com as Mãos com as crianças e os modos como a Abordagem Reggio Emilia entende a educação, a importância das materialidades, dos projetos e da pesquisa.

Dessas tessituras nasceu um desejo de compartilhar muito do que andamos pesquisando e estudando sobre isso, apresentando possibilidades de trabalho e de entendimento sobre a madeira e as crianças. E assim, nasceu a Aula Online: A Linguagem da Madeira.

Eu e Thiago pensamos em abordar no período de três horas conceitos como ateliê, projetação e aprendizagem na Abordagem Reggio Emilia; as propriedades e características da madeira; explorar e discutir possibilidades de trabalho com a madeira com as crianças e ainda uma prática de exploração com alguns materiais sugeridos previamente.

A ideia é que professores, atelieristas, educadores, artistas, arte-educadores e demais interessados em levar a madeira para a sala de aula possam se aproximar desse material e refletir sobre suas possibilidades, sentindo-se mais confiantes e seguros para levar a madeira como material de exploração, investigação e pesquisa.

Se você se interessou ou tem alguma dúvida, nos escreva aqui nos comentários ou no Instagram: @giuliaciavatta_ ou @sabercomasmaos

Mais informações:
Aula online: A Linguagem da Madeira com Saber com as Mãos 
Giulia Ciavatta & Thiago Endrigo

Data: 31/01/2026
Horário: 9h às 12h

Valores (escolha qual mais se adequa para você):
R$90 – valor mínimo
R$140 – valor justo
R$200 – valor ideal

Inscrições: https://forms.gle/PtHZ9HGMbvuEGwJu9

Categorias
Educação

Fazendo o mundo – reflexões sobre os fazeres, as crianças e os adultos

Eu aprendi a fazer tricô com a minha vó. A cada inverno, ela presenteava um ou dois netos com um cachecol de lã feito por ela. Eu ficava admirada com a sua proeza. A gente escolhia a cor e o estilo e depois de alguns finais de semana, pronto! Lá estava ele prontinho e quentinho. Não era um cachecol que se encontrava em lojas, ou em qualquer lugar. Mas um cachecol feito pela minha vó. Assim que eu entendi que era possível fazer um também, pedi pra minha avó me ensinar. E eu aprendi… e até hoje é a minha peça preferida de tricotar.

Minha avó sempre fez coisas. Me lembro que antes de aprender a tricotar, ela me ensinou a bordar tapetes de lã. Sabe aqueles que você compra a tela com o desenho pronto e vai preenchendo? Eu ficava maravilhada com os pontos que iam formando um desenho, e depois da peça terminada, lá estava um tapete bonito que eu tinha feito com as minhas mãos. Minha avó também gostava de fazer os enfeites de mesa para as festas de família, arranjos de flores e até hoje ela borda panos de prato.

Já adulta, fiquei fascinada pela técnica do amigurumi. Aprendi com uma amiga da faculdade, na casa de outra amiga. Eu fiquei obcecada, passava qualquer tempo livre fazendo crochê. Tão prazeroso pegar as linhas, sentar no sofá, ou na cama e assistir aquela série favorita, ouvir um podcast ou simplesmente se perder em pensamentos. Mas também, é uma delícia levar o crochê pra fora. Enquanto se locomove no ônibus ou metrô, espera por alguém, ou simplesmente sentar em algum lugar e pegar as linhas. Existe até o “Knit In Public Day”, um dia especial para todas as tricoteiras levarem os novelos para fora. 

Em 2018, fizemos uma viagem muito especial para o Norte da Argentina. Em um pequeno pueblo nas montanhas, sentei na única praça e comecei a crochetar uma boneca. Não demorou muito para uma moradora se aproximar e puxar assunto. Descobri que ela também gostava de tecer. Crochetar em público é sempre uma maneira de se conectar com as pessoas, mesmo que seja por um olhar curioso. 

Logo tive a ideia de levar o crochê para a escola. Na época, eu era professora, e enquanto as crianças brincavam no tempo livre, eu crochetava um pouquinho.

“O que é isso?”, “O que você está fazendo?”, “Você que faz?”, “Como você faz?”, “A minha vó também faz, sabia?”. As crianças são muito mais desinibidas que os adultos. Perguntam tudo. Algumas também só olham curiosas. Mas essa experiência com elas me fez começar a questionar: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

Em outra escola que trabalhei, lembro que era muito comum encontrar o porteiro (que também fazia reparos de manutenção) pela escola fazendo algo. Era um momento muito rico e as crianças de todas as idades sempre demonstraram muito interesse: “O que você tá fazendo?”, “Posso fazer também?”, “Como chama esse (apontando para alguma ferramenta)”. 

As crianças estão descobrindo o mundo, e ao se deparar com esses processos, descobrem como se faz o mundo. Percebem as materialidades e as possibilidades de se construir, reparar, consertar, criar… Percebem a possibilidade do criar humano. Vivendo em cidades grandes, as crianças (e os adultos também) estão cada vez mais afastadas desses processos, tudo está muito pronto, acabado e fácil nas mãos das crianças. Retira-se a possibilidade de se entender o mundo por meio de seus processos mais básicos. Ficamos desconectados, afastados e alienados e as consequências disso começam a ficar cada vez mais perceptíveis. 

Quando comecei a refletir sobre isso, há mais de 10 anos – e quando as redes sociais ainda engatinhavam – já se via alguns sinais dessa desconexão, principalmente nas crianças. Mas passado esse tempo, nós todos temos acompanhado como isso tem impactado as novas gerações de jovens e adultos. Um estudo sobre felicidade apontou que as novas gerações estão mais descontentes, em comparação com as anteriores. É claro que a razão disso não está só nesse processo de desconexão com os processos que citei acima. Para todo problema, existem mil camadas, e nunca existe somente uma resposta. A crise do capitalismo, a questão climática, viver em uma sociedade neoliberal, a ameaça das inteligências artificiais e o crescimento do fascismo no mundo todo contribuem – e muito! – para isso. É urgente estarmos cada vez mais atentos às essas questões e buscar maneiras de resistir – e não sucumbir – em um mundo cada vez mais colapsado.

Para mim, se reconectar com os processos que fazem o mundo é uma forma de resistência e pode apontar uma saída interessante. Sempre que penso nessa sensação iminente de colapso que vivemos todos os dias, eu começo a pensar: a humanidade já passou por outras crises. Diversos povos e grupos sociais já passaram por colapsos e transições, talvez até muito piores do que estamos passando (a gente sempre tende a achar que a nossa situação é a pior do mundo e da história, né), e então: como eles fizeram? Como resistiram? O que os sustentava durante esses períodos? Conhecer as histórias de resistência podem nos apontar caminhos interessantes, e esse tema tem aparecido nas minhas pesquisas com frequência.

“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar no século XXI ainda esperando, reivindicando e desafiando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desse povos.” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 28

Ailton Krenak diz em seu livro que os povos indígenas estão enfrentando a crise já há muito tempo… nós brancos que estamos desesperados agora, tentando entender… mas eles já entenderam e sabem como sobreviver.

“Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: ‘Como os índios vão fazer diante disso tudo?’. Eu falei: ‘Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa’”. Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 31

Para mim, os povos originários guardam as respostas para muitas das perguntas que nós estamos vivendo. Não são respostas prontas, nem fáceis… mas são apontamentos, guias, que podem nos fazer refletir qual caminho seguir e quais não. E quando penso nessa conexão com os fazeres, me lembro da educação indígena. Você sabe como uma criança indígena aprende? Ela aprende vendo, observando, estando perto, sendo convidada a participar repetidamente e cotidianamente os fazeres da comunidade. Fazer e plantar a comida, fazer as vestimentas, fazer as tintas corporais, fazer brinquedos, fazer utensílios, fazer mobiliário… fazer, fazer, fazer. Um fazer que é prático, necessário. Um fazer coletivo que gera pertencimento, que preserva conhecimento, que dá sentido à vida social e que gera o próprio sentido criador humano. Em suma, que nos torna humanos.

Agora, eu volto à pergunta: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

No Saber com as Mãos, a gente tem um pouco essa ideia. Nossas aulas, são esse espaço de ter um adulto, ou par mais experiente, disponível ali para ensinar, guiar, observar. Além de ser um espaço tempo que a gente reserva para fazer, e sair da rotina que nos engole e aliena. Um formato de aula que a gente gosta bastante também é com famílias. Adultos e crianças juntos, fazendo algo, experimentando e vivendo um pouco dessa experiência com as mãos. 

No dia 28 de junho, teremos mais uma edição do curso de banquinho de 3 pés em parceria com o Rodrigo Silveira, na oficina dele, na Barra Funda em São Paulo. Será das 14h às 18h e para se inscrever é só mandar uma mensagem para nós em @sabercomasmaos ou para o Rodrigo em @rodrigoquefez no Instagram. Fazer o banquinho é na verdade só uma desculpa para estarmos juntos… mas levar pra casa um banquinho feito a muitas mãos e depois poder tê-lo em casa também é muito legal! Vamos fazer juntos?

Categorias
Educação

Quer trabalhar conosco?

Peço desculpas pelo título chamativo, mas a pergunta é verdadeira. Já são quase 10 anos de Saber com as Mãos. A iniciativa que eu (Thiago) e Giulia Ciavatta fundamos com o intuito de estudar os fazeres tradicionais, valorizar as pessoas que se dedicam a esses fazeres e buscar difundi-los ante um público mais amplo amadureceu. Uma das facetas mais importantes desse trabalho, qual seja, a de discutir o lugar dos trabalhos ditos manuais na educação continua como uma preocupação central.

Hoje a Giulia, que trabalha em instituições de ensino desde os 18 anos, atua como coordenadora em uma escola e nessa condição acompanha de perto o trabalho de um grupo de professoras, propondo situações de formação diversas. Ainda que o contexto em que atue não seja diretamente relacionado com os fazeres, é o próprio fazer educacional o cerne de sua atuação, discutindo tanto as ferramentas das quais dispõem as professoras quanto os aspectos éticos e políticos desse trabalho. Pelo meu lado, também tenho buscado compartilhar o olhar que fomos conformando a partir dos ofícios e da relevância na atualidade de compenetrar-se dos gestos que transformam o mundo a partir de nossa criatividade, sensibilidade e inteligência material.

Estamos agora em um momento de articulação mais sistemática desses esforços, para dizê-lo de algum modo, de formação. Por isso gostaríamos de saber de pessoas interessadas em tanto se aprofundar nos fazeres da madeira (em específico) quanto em sua transmissão. Não há nenhuma vaga de estágio ou oportunidade de trabalho aberta agora, apenas nos parece importante começar a conhecer quem estaria disposto a contribuir com o Saber com as Mãos com sua própria experiência, estilo e esforço. 

Caso esse convite ressoe consigo, escreva para nós usando o email. Conte, por favor, um pouco de sua trajetória pessoal e profissional. Se já trabalha com madeira ou outro material, seria bacana se pudesse dizer que coisas gosta de fazer ou mesmo o que gostaria de aprender. Diga também se tem alguma experiência ensinando, especialmente crianças. Por fim, não deixe de mencionar se você se comunica em outros idiomas além do português, se possui algum talento especial escondido e também porquê gostaria de trabalhar conosco. Obrigado desde já pelo interesse no que fazemos e pela disponibilidade para entrar em contato.

Encerro com mais notícias. Giulia abriu um perfil novo sobre educação no Instagram. Eu estou de volta após o curso de plainas e a gravação do curso online nos Estados Unidos (ainda estou devendo o post contando tudo). Queria apresentar aqui a agenda completa do semestre mas alguns parceiros estão atrasando bastante a confirmação dos cursos, então pedimos para que continuem ligados no Instagram pois divulgamos tudo por lá. O que já está publicado e confirmadíssimo são os cursos na Forjaria Escola. A partir de novembro vou dar três cursos lá sobre os encaixes mais comuns na marcenaria (meia madeira, caixa e espiga, rabo de andorinha). Para cada encaixe há um projeto que serve de fio condutor e que você leva para casa no fim do curso. Além disso, continuo com o curso regular no ateliê, no qual você, criança ou adulto, é quem define o percurso, o tema a ser tratado e a duração. E o último curso de plainas do ano também já tem data: 7 e 8/9 no ateliê! Para mais informações é só entrar em contato. 

Categorias
Educação

Marcenaria na escola

Nessa semana acabou o semestre lá na escola. É difícil escolher alguns projetos para mostrar aqui, acompanhamos mais de 30 alunos entre 7 e 12 anos em seus percursos técnicos e estéticos. Cada um inventa o que quer fazer, depois aprende a lidar com as consequências: como tirar uma ideia da cabeça e fazer surgir diante de si algo real, concreto, útil e bonito, sustentando o processo em seus devires terrenos e mágicos. Nós acompanhamos compartilhando um pouco da nossa experiência, ensinando as técnicas de medir, marcar, serrar, aplainar ou furar a madeira e trocando ideias sobre o rumo que tudo vai tomando. Planejar aulas assim não é trivial, mas vale a pena. Ultimamente vemos muitas propostas educacionais ditas “mão na massa”, com um acento forte na “inovação”. Mas o que é o novo? Sabemos acolher o novo advindo da inspiração e do trabalho ou nos contentamos apenas com o consumo e o que, no fundo, é a reprodução do mesmo? Tratado como um valor, o “novo” muitas vezes tampona a tradição, descarta o que é antigo e nos empurra a levar felizes para casa o que veio no dernier bateau de Paris (para usar uma velha expressão) abandonando no caminho a possibilidade da crítica. Para fazer coisas que não existiam antes, nossos pequenos marceneiros aprenderam técnicas tradicionais e usaram ferramentas às vezes centenárias, passadas de mão em mão por pessoas que criaram famílias empregando-as, transformando algo natural em cultura. A própria madeira que mais usamos precisou crescer por mais tempo do que o que meus aluninhos têm de vida antes de ser cortada. Acredito que tudo isso ensina.

A caixinha das fotos foi feita por um aluno alemão como presente de Natal para seu irmão que coleciona canetas. Tem um pouquinho de marchetaria na tampa, a primeira coisa que aprendi a fazer com madeira. Acho que apresenta bem a materialidade, o gesto e o fazer, o fundamento de nossos esforços. Em tempo, para saber mais sobre as aulas de marcenaria que damos desde 2017 na Graded deixo aqui o link para uma sensível matéria escrita por Andrea Wunderlich. As fotos da caixinha são do Felipe Cressoni, meu parceiro de “controlled chaos”.

*esse texto foi escrito em dezembro de 2022

Categorias
Educação

Marcenaria para crianças

O Saber com as Mãos nasceu, de certa forma, do nosso encontro. Meu e do Thiago. Eu, professora de Educação Infantil e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?

Achei legal compartilhar esse tema aqui no blog pois ele é central no nosso trabalho. Acreditamos que levar a marcenaria para dentro da escola tem inúmeros benefícios não só para as crianças, mas para toda a comunidade escolar. As possibilidades são muitas.

Ontem mesmo o Thiago me mostrou um episódio do podcast Path to Learning com a participação do Doug Stowe. O Doug é marceneiro e dá aulas na Clear Spring School há muitos anos. A gente se inspira bastante no trabalho dele e ainda vai ter um post aqui aprofundando mais nisso.

Mas, queria compartilhar algumas ideias que ele expõe no podcast e que ressoam muito com o que a gente também acredita.

Segundo Doug, aulas de marcenaria foram muito comuns nas escolas públicas por um bom tempo nos EUA. Porém, muitas oficinas desapareceram pois habilidades mais técnicas ou ligadas a ofícios não seriam mais úteis na chamada sociedade da informação.

Agora, nos parece que a Educação voltou a perceber a importância de aprender com a “mão na massa”. O aumento dos maker labs e da cultura maker dentro das escolas (privadas, no caso do Brasil) é a prova disso.

A cultura maker é super importante para levantar a bandeira de uma aprendizagem mais significativa na escola, mas, pra gente aqui do Saber com as mãos, isso ainda é um território um pouco camuflado.

Em muitos lugares, vemos que trazer a cultura maker pra dentro da escola está muito mais ligado ao digital e a aprender habilidades de programação, do que de fato desenvolver o que há de mais importante no mundo do fazer com as mãos: encontrar um material natural concreto, dedicar esforço e resiliência ao trabalho e transformá-lo em algo bonito, útil e real.

Doug: There’s a lot that’s magical about woodworking. First of all it’s concrete. It invites the hands. When something is a real substance and you’re able to produce something that’s useful and beautiful and tangible it’s a little different from putting your name at the end of a report.

Doug: Há algo mágico no trabalho com madeira. Em primeiro lugar, é concreto. É algo que convida as mãos. Quando você lida com uma substância real e é capaz de produzir algo que útil, bonito e tangível, a sensação é um pouco diferente do que colocar seu nome no final de um texto.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

A gente acredita que essa “magia” reside em todos os trabalhos manuais, não só na marcenaria. Ensiná-los às crianças é algo muito valioso. Ver algo ser transformado pelas suas mãos, criar um objeto, errar e persistir até encontrar uma solução para um problema real e concreto, concentrar-se em uma tarefa, ter paciência e entender o tempo de elaboração de uma peça, entender o tempo de crescimento das árvores, conhecer a natureza, preservá-la… são habilidades que transpassam a pura técnica manual. São habilidades que nos fazem olhar para a vida de uma forma integrada. Nos faz mais humanos.

Doug: So there are all these different ways that we can come to a better understanding of the significance of our hands. How they help us learn, but not only how they help us learn, they help us learn how to be human, you know, to connect with broader issues and to be of service to each other.

Doug: Então, existem todas essas maneiras diferentes de chegarmos a uma melhor compreensão do significado de nossas mãos. Como elas nos ajudam a aprender, mas não apenas como elas nos ajudam a aprender, elas nos ajudam a aprender a ser humanos, você sabe, a nos conectar com questões mais amplas e a servir uns aos outros.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Quando o Thiago começou, ele deu algumas oficinas para crianças bem pequenas mesmo, mas nos últimos anos tem se dedicado a dar aulas para faixa etária de 7 a 12 anos. Uma das questões que surgiu no podcast, e que às vezes também nos perguntam, é sobre dar ferramentas afiadas para crianças.

Isso é uma questão super cultural que muda não só de país para país, mas aqui mesmo no Brasil podemos ver essa diferença. Enquanto nas escolas de São Paulo pode ser considerado dar tesouras com ponta algo proibido, crianças mais afastadas da cidade grande fazem seus próprios brinquedos com facas de cozinha e facões da lida na roça.

As crianças precisam aprender a lidar com o risco. Nós, adultos, temos uma tendência a privar as crianças dessas experiências, mas é assim que as colocamos em risco. Como se aprende a ter destreza corporal para brincar no parquinho? Brincando muito no parquinho. Então, como ensiná-las a lidar com uma plaina, serrote, martelo? Deixando que elas usem as ferramentas, orientadas por alguém capaz de apresentar a técnica correta e a maneira segura de usá-las . Doug ainda cita outro argumento ótimo para essa questão:

We live in a world where there are risks involved. So would you rather have your son or your daughter taught to whittle with a knife by someone who is capable of sharing with them the safe technique for using a knife? Or would you rather just wait until later and go to the emergency room and learn in retrospect and you know, I’m personally in favor of training kids how to manage risk.

Vivemos em um mundo onde há riscos envolvidos. Então, você prefere que seu filho ou sua filha sejam ensinados a lidar com uma faca por alguém que seja capaz de compartilhar com eles a técnica segura de usar uma faca? Ou você prefere apenas esperar até mais tarde e ir para o pronto-socorro e aprender em retrospecto e, você sabe, eu pessoalmente sou a favor de treinar crianças como gerenciar riscos.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Por fim, o último ponto que queria trazer aqui é o sentimento. Se você já fez algo com as suas próprias mãos (um almoço gostoso pra sua família, uma colher de madeira, um cachecol de tricô, um vaso de barro, uma boneca de pano…) sabe o que é terminar algo, olhar e dizer: “eu que fiz!”. Esse sentimento mágico, transformador, empoderador e feliz. Tanto os adultos e as crianças sentem.

E pra fechar mesmo, vou deixar aqui um trecho do artigo “The Hand: at the heart of craft” de Bruce Metcalf (que conhecemos por meio do podcast Cut the Craft, do Brien e da Amy) que fala tão bem desse sentimento do fazer com as mãos:

Handwork makes meaning, not just physical things. It offers unalienated labor, a sense of purpose, a community, and an avenue for growth. For those who are not content with the readymade answers that our society offers – being a good consumer; being a good Christian; being a good soldier; or any other prescribed role – handwork opens up a world of meaningful self-actualization, and a path to a life well lived.

O trabalho manual cria significado, não apenas coisas físicas. Oferece trabalho não alienado, um senso de propósito, uma comunidade e um caminho para o crescimento. Para quem não se contenta com as respostas prontas que a nossa sociedade oferece – ser um bom consumidor; ser um bom cristão; ser um bom soldado; ou qualquer outro papel prescrito – o trabalho manual abre um mundo de autorrealização significativa e um caminho para uma vida bem vivida.