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Cheio de Dedos: Glossário de Marcenaria

O segundo episódio do nosso podcast está no ar! O tema da vez é Glossário de Marcenaria, com especial destaque para o nome das ferramentas. A ideia é conversar um pouquinho sobre esses termos, apontar alguns materiais de consulta e tentar fazer uma compilação dos nomes que existem por aí.

O grande mote da nossa conversa foi a série de enquetes que o Tony fez em seu perfil do Instagram com o intuito de conhecermos os termos em português. A partir disso discutimos os termos e algumas questões éticas e políticas envolvidas no tema também.

Ao final do post você encontra um bônus! A lista de nomes e ferramentas compilada nas enquetes do Tony.

Ouça aqui ou no link RSS: https://anchor.fm/s/ef7a4960/podcast/rss

Referências do episódio:

  • Cunha, Antônio Geraldo. Dicionário etimológico da língua portuguesa.
  • Hayward, Charles H. Guia prático de marcenaria.

https://www.estantevirtual.com.br/rodg/charles-h-hayward-guia-pratico-de-marcenaria-4116563223?show_suggestion=0

(Estante Virtual é um site onde já compramos livros antes. Não temos nenhuma relação com eles nem ganhamos nada se você clicar no link. Compre de quem você achar melhor.)

  • Hjorth, Hermann. Manual do Marceneiro. Edições LEP, São Paulo.
  • Marcellini, Domingos. Manual Prático de Marcenaria. (Download gratuito no site da editora.)
  • Tacla, Zake. O livro da arte de construir.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/zake-tacla/o-livro-da-arte-de-construir/27357398

(Estante Virtual é um site onde já compramos livros antes. Não temos nenhuma relação com eles nem ganhamos nada se você clicar no link. Compre de quem você achar melhor)

Lista com os nomes em português e inglês das ferramentas compiladas por Tony no Instagram:

Rebote ou garlopim: jack plane (#5)

Garlopa: jointer plane (#7)

Desbastadeira (ou come gente!): scrub plane

Plaina de afagar, alisar, polir: smoothing plane (#3 ou #4)

Plaina de volta: compass plane

Plaina de focinho: bullnose plane

Pata-choca, guimbarda, tupia manual: router plane

Goivete: plow plane

Replaina: panel raising plane

Cantil ou rebaixadeira: moving filister plane

Plaina de ganzepe: dovetail plane

Plaina de viés: fiber board plane

Cepo bastão: round and hollow plane

Cepo de gola: moulding planes

Berço, fiel, cama, forqueta: plane frog

Corteché, boquexim, rastilha, faca inglesa: spokeshave

Formão de aparar ou talhadeira: (paring) chisel, bench chisel

Formão chanfrado: beveled chisel

Bedame: mortising chisel

Raspilha, raspadeira: card scraper

Brunidor, virador de fio: card scraper burnisher

Faca de tanoeiro: drawknife

Shavehorse: banco de tanoeiro

Esgache: beading tool

Trado: auger

Arco de pua: brace

Maquineta: furadeira manual

Broca ou verruma de expansão: expansion bit

Verruma: broca manual / gimlet

Serra de arco, serra de traçar: frame saw

Cavilheiro: dowel plate

Suta: bevel gauge

Escantilhão: bar gauge ou pinch rods

Curtamão: layout square

Cabedais ou desempeno: winding sticks

Cintel: compasso de régua

Galgadeira: panel gauge, graminho para painéis

Sovela: punção

Barrilete: holdfast

Mordente ou espera: bench dog

Taleiro, sobrebanca, berço ou tábua de espera: shooting board ou bench hook

Bench slave: valete, pé de carpinteiro, terceira mão, escravo, servo, ajudante

Sawbench ou sawhorse: cavalete de serrar

Topejadeira: miter jack

Gastalho: wedge clamp

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Comida

Um post sobre comida e plaina

Rosinha é cheia de planos. Thiago contou a ela que teria um dia de folga na semana, no meio das férias, e ela logo fez um “combinado”: “Pai, vou levar você conhecer a Japan House!“. Claro que topamos o convite! Eu já havia visitado o lugar uma porção de vezes, e particularmente, eu adoro. Gosto do ambiente, as exposições sempre são muito bonitas e interessantes e mais recentemente, adoro sentar no balcão do café e provar as delícias!

Vou abrir um parênteses aqui para contar um pouco mais da nossa paixão pelo Japão. Eu sempre gostei muito da culinária japonesa, desde pequena. Incentivada pelos meus pais, que também sempre se metiam a conhecer os mais tradicionais restaurantes da cidade. Quando conheci o Thiago, e ele me convidou para um primeiro encontro, eu sugeri ir numa Temakeria (que na época era a novidade!). Claro que ele também já tinha muito apreço pela cultura japonesa, principalmente pela tradição do trabalho com a madeira. Logo, começamos a assistir juntos todos os episódios disponíveis da série da NHK Begin Japanology no Youtube. É praticamente uma enciclopédia de tudo que você pode imaginar sobre o Japão. Abrange temas como “alergia ao pólen”, até os “bentôs” e “neve”.

Quando entro na Japan House sinto uma impressão muito forte e imagino que seja a mesma sensação de colocar os pés no Japão. É uma espécie de sensação que condensa algumas das características da cultura japonesa e que nos fazem sentir profundamente conectados a ela: o respeito às tradições, uma reverência aos ancestrais e uma ritualização da vida. Vejo isso nos mínimos detalhes sempre que vou lá.

Essas características estão muito presentes na comida. Dessa vez, no café da Japan House, resolvi provar um matcha latte com calda de frutas vermelhas. Antes de nos sentarmos ali, vimos uma exposição sobre o chá e claro que fiquei com água na boca para provar um matcha. Como fazia muito calor, pedi a versão gelada. A espera no balcão minuciosamente limpo, com tudo muito organizado, já me dá uma certa aura especial. A bandeja chega com pequenos recipientes, todos muito simples e bonitos. Misturei o matcha no leite gelado com a calda no fundo do copo. Cores lindas! Misturei tudo, dei o primeiro gole e achei que iria odiar. Mas eu amei. Tive vontade de tomar tudo de uma vez, o que frequentemente faço com bebidas. Mas o ambiente me convidou a apreciar. Gole por gole. Que delicioso! Me lembrei da sensação de descobrir coisas novas e de como isso é bom. Geralmente esse sentimento vem mais em viagens, e há quatro anos sendo mãe, depois de uma pandemia e um desgoverno brutais, essa sensação me deu uma alegria silenciosa e calma, mas muito boa. E como é bom poder viajar dentro da minha própria cidade!

Outro pensamento me invade: a experiência de comer está muito atrelada ao ambiente também. Poder provar um matcha naquele espaço tem outro sabor do que se estivesse em casa. Definitivamente comer não é só sobre se alimentar.

Depois daquela experiência eu queria mais: fomos para a Liberdade – o bairro japonês de São Paulo. Depois de umas entradinhas no Izakaya Kintaro, partimos para o Izakaya Issa. E lá, mais uma vez no dia, provei algo novo. Pedimos takoyaki, bolinhos recheado de polvo e servido com lascas de peixe bonito, o katsuobushi, por cima. Eu já havia visto diversos vídeos das lascas de bonito se movimentando por cima de takoyaki ou okonomiyaki pela internet afora, mas mesmo assim foi impressionante ver ao vivo. Por conta da espessura tão fina, as lascas acabam se movimentando com o calor, dando a impressão que algo ali está vivo! Poder compartilhar esse momento com a Rosinha foi tão prazeroso quando o sabor da comida! Ela ficou eufórica com o “bicho que se mexia”. Ficou hesitando, deu vários gritinhos de medo e por fim provou e amou! Muito corajosa!

E finalmente, chego ao tema desse post. Katsuobushi. É, eu havia pensado em escrever sobre esse alimento aqui, pois a sua produção é muito intrigante. O peixe bonito é desidratado, fermentado e defumado num processo de preservação tão incrível, que o produto final é tão duro quanto a madeira. Impossível cortar com faca e por isso é servido em lascas ou raspas. E adivinha qual ferramenta é utilizada para isso? Sim! Uma plaina, muito parecida com as dos marceneiros. Até as lascas se parecem muito com os cavacos de madeira. O nome desse utensílio é kezuriki. Encontrei esse artigo dando muitos detalhes de como se cortar corretamente o katsuobushi: https://thejapanesefoodlab.com/shave-katsuobushi/

Na verdade mesmo, eu não queria falar somente do peixe bonito. Nessas férias, nós também nos deparamos com outra comida feita com plaina. Será que vocês já sabem o que é? Comprei uma raspadinha na praia do Guarujá pra Rosa só pra ela ver o moço usando a plaininha de metal que raspa o gelo. Fiquei super curiosa pra descobrir de onde veio essa invenção e fui atrás da história dessa sobremesa gelada. E não é que encontrei várias referências ao kakigori, a raspadinha japonesa? Dizem que é fabricada desde o século VI, olha só! Mas não encontrei referência a serem feitas com nenhuma ferramenta específica ou parecida com a plaina, como a que encontrei feita na praia. Na verdade, existem umas fotos de máquinas de raspar gelo decoradas e bem bonitas. Nunca iria imaginar essa conexão… mas fiquei ainda mais intrigada. Será que existe alguma outra comida feita com plainas? Se souber, me conta aqui nos comentários!

Ah, o próximo curso de plaina do Saber com as Mãos será uma surpresa!! Aguardem as novidades!!

Mas você também já pode se inscrever no curso confirmado para outubro. Confere lá no site da Forjaria Escola e garanta sua vaga!

Lembrando que o curso online está sempre aberto e disponível para compra aqui no nosso site.

Mais Referências:
Palestra Katsuobushi: técnica que atravessa séculos e oceanos realizada em junho de 2023 na Japan House:
https://www.youtube.com/watch?v=FGGgGxdH9oA

Vídeo de vendedor de raspadinha na praia:
https://www.youtube.com/watch?v=Aq4qk1VtgXI

Vídeo de vendedor de kakigori com máquina manual:
https://www.youtube.com/watch?v=UMvd1UnyU4I

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Educação Podcast

Cheio de Dedos: Podcast

Estamos muito felizes de poder compartilhar essa novidade antes de 2023 acabar: agora temos um podcast! Já faz tempo que temos o desejo de poder compartilhar um pouco mais dos nossos valores, pensamentos, referências e ideias. Há alguns meses, junto com Lucas e Tony, conseguimos concretizar e colocar o podcast no mundo!

Depois de algumas ideias sobre o nome, escolhemos “Cheio de Dedos” que também é o nome de uma música do Guinga (e vinheta do podcast), mas sobretudo um incentivo para que ouvintes e amigos possam se juntar a conversa e ao trabalho manual. Também é importante, para nós, recuperar o termo “digital” em tempos de telas e touchscreens. É por meio das mãos, dos dedos e de nossa digital que deixamos nossa impressão no mundo, interagimos com os materiais e podemos ampliar nossa sensibilidade.

Nesse primeiro episódio compartilhamos um pouco de nossa história e trajetória individual com a marcenaria, mas a intenção é que essa conversa possa crescer e ser uma troca rica e inspiradora. Nossa intenção é reconhecer e aproximar amigos que fizeram escolhas parecidas e também pessoas que ainda não conhecem os trabalhos manuais e querem aprender mais.

Esperamos que o podcast possa ser o início de muitas pontes e redes em um esforço coletivo para fortalecer, incentivar e reconhecer os ofícios e fazeres manuais!

Ah, vamos liberar um episódio por mês, num ritmo menos frenético do que os algoritmos e redes sociais acabam nos aprisionando.

Esperamos que gostem!

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Diário de Viagem Educação

Poltrona Estaqueada

Em agosto de 2023 tivemos a oportunidade de participar do curso “Stick Chair” Na Lost Art Press com Chris Schwarz. Foi uma oportunidade incrível que compartilhamos um pouco nesta live no nosso canal no Youtube:

Após fazer o curso com o Chris, me parecia natural que o primeiro curso aqui sobre esses móveis estaqueados acontecesse na Oficina Damata do Thiago, de forma que também fosse possível aprender com sua experiência e pesquisa. Decidimos ensinar essa poltrona da foto, presente no livro The Anarchist’s Design Book. São poucas vagas e cada um sai com uma poltrona dessas para levar para casa. Nos dias 11, 12, 13, 14 e 15 de em Goiânia/GO. Mais informações e inscrições: clique aqui.

Há uma bolsa disponível para esse curso. Se por alguma razão você gostaria de participar mas não tem como, mande um e-mail para sabercomasmaos@gmail.com contando qual é o impedimento, por que gostaria de fazer o curso e qual é sua experiência com marcenaria.

Aproveitando a passagem por Goiânia, também ministrarei o Curso de Plainas nos dias 09 e 10 de dezembro. Não perca a oportunidade! Mais informações: clique aqui.

Fotos tiradas por Thiago Endrigo. Todos os direitos reservados.

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Educação

Marcenaria na escola

Nessa semana acabou o semestre lá na escola. É difícil escolher alguns projetos para mostrar aqui, acompanhamos mais de 30 alunos entre 7 e 12 anos em seus percursos técnicos e estéticos. Cada um inventa o que quer fazer, depois aprende a lidar com as consequências: como tirar uma ideia da cabeça e fazer surgir diante de si algo real, concreto, útil e bonito, sustentando o processo em seus devires terrenos e mágicos. Nós acompanhamos compartilhando um pouco da nossa experiência, ensinando as técnicas de medir, marcar, serrar, aplainar ou furar a madeira e trocando ideias sobre o rumo que tudo vai tomando. Planejar aulas assim não é trivial, mas vale a pena. Ultimamente vemos muitas propostas educacionais ditas “mão na massa”, com um acento forte na “inovação”. Mas o que é o novo? Sabemos acolher o novo advindo da inspiração e do trabalho ou nos contentamos apenas com o consumo e o que, no fundo, é a reprodução do mesmo? Tratado como um valor, o “novo” muitas vezes tampona a tradição, descarta o que é antigo e nos empurra a levar felizes para casa o que veio no dernier bateau de Paris (para usar uma velha expressão) abandonando no caminho a possibilidade da crítica. Para fazer coisas que não existiam antes, nossos pequenos marceneiros aprenderam técnicas tradicionais e usaram ferramentas às vezes centenárias, passadas de mão em mão por pessoas que criaram famílias empregando-as, transformando algo natural em cultura. A própria madeira que mais usamos precisou crescer por mais tempo do que o que meus aluninhos têm de vida antes de ser cortada. Acredito que tudo isso ensina.

A caixinha das fotos foi feita por um aluno alemão como presente de Natal para seu irmão que coleciona canetas. Tem um pouquinho de marchetaria na tampa, a primeira coisa que aprendi a fazer com madeira. Acho que apresenta bem a materialidade, o gesto e o fazer, o fundamento de nossos esforços. Em tempo, para saber mais sobre as aulas de marcenaria que damos desde 2017 na Graded deixo aqui o link para uma sensível matéria escrita por Andrea Wunderlich. As fotos da caixinha são do Felipe Cressoni, meu parceiro de “controlled chaos”.

*esse texto foi escrito em dezembro de 2022

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Educação

Agenda de cursos livres no ateliê do Brooklin no finzinho de 2023

O título quase fica maior que o post, mas o ano ainda não acabou (ainda há lenha para queimar), então vamos lá.

Aulas regulares. Desde 2017 dou aulas no ateliê do Brooklin, em São Paulo. A proposta continua a mesma: partimos dos interesses de cada um enquanto eu acompanho o percurso estético e técnico que estão fazendo. Vale tudo, desde que eu tenha condições de acompanhar. Isso quer dizer que o tempo de permanência no ateliê é variável, tem gente que toma uma ou duas aulas, tem gente que frequenta o espaço por mais tempo. O foco é sempre o trabalho com as ferramentas manuais e o emprego das técnicas tradicionais. Não há pré-requisito, iniciantes ou alunos mais avançados têm vindo, adultos e crianças também. A aquisição de ferramentas é intensamente aconselhada, mas o que tenho fica disponível para que os alunos experimentem. Os materiais são por conta dos alunos. O valor de cada encontro de 2 horas é R$250. Atualmente estou com dois horários disponíveis, entre em contato se tiver interesse.

Graminho. Sábado, 21/10, das 9h às 18h. R$500. Usado para marcar linhas paralelas. Ferramenta simples, frequentemente era construída pelas pelas marceneiras ou marceneiros. Vamos usar imbuia do meu estoque pessoal (que está no fim). Além de levar o graminho você leva uma aula de técnicas de formão (algo quase que mais valioso que o graminho).

Shaker Fest! (Ou Os Shakers e seus artefatos de madeira)

A United Society of Believers in Christ’s Second Appearing, ou como eram chamados pelo mundo, os “Shakers”, são uma comunidade religiosa originada na Inglaterra do século XVIII e radicada nos EUA que ficou conhecida não só por suas práticas e crenças mas também pelos artefatos que produziram. Viviam de modo igualitário, para “rezar e trabalhar”,  tendo deixado um legado impressionante de edificações, móveis, utensílios, têxteis e inovações. Seu cuidado com as proporções e simplicidade de forma, carente de ornamentos supérfluos, influenciou amplamente boa parte do mobiliário produzido no século XX. Para compor a programação de cursos para esse fim de ano, nos propomos examinar alguns desses artefatos, buscando evidenciar seu primor estético e a forma como estão entrelaçados com as concepções de mundo, vida e fé que carregam.

Banquinho. Sábado, 4/11 e domingo 5/11, das 9h às 18h. R$900. Uma lição de proporções e excelente prática de encaixes comuns na marcenaria tradicional. Vamos partir de uma tábua para fazer os cortes e em seguida aplainar as peças que compõem o banquinho. Boas práticas de como se prepara a madeira e como realizamos encaixes serão discutidas. Havendo tempo veremos como fazer e aplicar a tinta de leite (milk paint). Curso para todos os níveis, desde iniciantes até pessoas com mais experiência.

Armarinho. Sábado, 25/11 e domingo, 26/11, das 9h às 18h. R$980. Uma pequena caixa com uma porta, o trabalho do marceneiro em resumo. Além de construir o projeto com ferramentas manuais, vamos tratar de entender porque antigamente os pregos valiam a pena ser usados. Havendo tempo veremos como fazer e aplicar a tinta de leite (milk paint). Curso para todos os níveis, desde iniciantes até pessoas com mais experiência.

Bandeja. Sábado, 2/12 e domingo, 3/12, das 9h às 18h. R$1.100. Vamos seguir o projeto do Christopher Schwarz que saiu na revista Popular Woodworking de Outubro de 2007 (silverware tray). É uma excelente maneira de aprender a confeccionar o encaixe de rabo de andorinha (tanto que a Megan Fitzpatrick) dá esse curso até hoje.

E para 2024 temos algumas novidades. Alguns cursos serão repetidos, como os dos encaixes de meia madeira e caixa e espiga. Plaina e guilherme não couberam na agenda, mas você pode fazer essas ferramentas como aluno regular do ateliê (em seu próprio ritmo, então consigo acomodar iniciantes). Além disso teremos cadeiras! E um cavalete para serrar madeira (o próprio curso é para aprender a serrar), um baú pequeno (o boarded chest do Anarchist’s Design Book), um banco alto de 3 pés (ainda estou na dúvida entre Frid e Schwarz) e caixinhas ovais Shaker. Acompanhem!

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Educação

Agenda 2023 (primeiro semestre)

Com certo atraso (já aconteceu um Curso de Construção de Plainas no ateliê e outro na oficina.cc, em Belo Horizonte e uma oficina para crianças e adultos, a Xiloteca Lúdica, no Sesc Vila Mariana), aqui está a lista de cursos e oficinas previstos para o semestre. Os cursos no ateliê do Brooklin, em São Paulo, têm inscrição direta pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com . Em outros, como os do SESC, a inscrição é feita diretamente na unidade ou online. Veja mais informações abaixo.

Introdução à Marcenaria com Ferramentas Manuais. Sesc Carmo. De 9/3 a 29/6. Quintas-feiras, das 9h30 às 12h30.

Em 16 encontros ao longo do semestre, o curso propõe um percurso pelos Fundamentos da Marcenaria Tradicional, da preparação da madeira à confecção de encaixes. Sem um projeto a priori, abordaremos as técnicas básicas de formão, plaina e serrote de forma que todos possam ter autonomia para encarar qualquer projeto simples futuramente. No caminho, os participantes farão algumas ferramentas (esquadro, graminho e boquexim) para levarem para casa e outras que deverão equipar o Espaço de Tecnologia e Artes.

Inscrições diretamente com o Sesc Carmo (siga o link acima).

Principais Encaixes da Marcenaria – Meia Madeira. Sesc 24 de Maio. De 17/3 a 14/4. Sextas-feiras, das 10h às 13h.

O encaixe de meia madeira está entre os mais usados em marcenaria. Para entender suas aplicações vamos construir um esquadro antigo de grandes dimensões chamado Curtamão, título de um conto de Guimarães Rosa que se encontra em Tutameia. Veremos que para construir algo precisamos de material e ferramentas mas também de imaginação e encanto.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio (siga o link acima).

Marcenaria de Apartamento: Introdução à Marcenaria Tradicional. Sesc Vila Mariana. De 23/3 a 11/5. Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Através da confecção de uma pequena caixa de madeira, algo útil e belo, buscamos apresentar ferramentas essenciais como a plaina e o serrote, além de plainas especiais que realizam processos específicos, como os canais para encaixarmos fundo e a tampa. Veremos como usar as ferramentas e também como empregar alguns acessórios que facilitam muito o trabalho como o sobrebanco (taleiro), a caixa de meia-esquadria e um gabarito para aplainar a 45°. Essas ferramentas e acessórios permitem que trabalhemos em espaços pequenos, sem fazer muita sujeira nem barulho, dando o sinal verde para aquela marcenaria de apartamento que muita gente não achava possível.

Inscrições diretamente no Portal Sesc SP a partir das 14h do dia 16/3.

Principais Encaixes da Marcenaria – Caixa e Espiga. Ateliê do Brooklin, em São Paulo. Sábado e domingo, 1 e 2/4, das 9h às 18h. R$ 1.100

Este ano consegui colocar novamente na agenda os cursos sobre os três encaixes principais usados em marcenaria. Dois desses cursos acabaram indo para o SESC mas o de caixa e espiga permaneceu no ateliê. Há tempos eu ensinava esses encaixes focando apenas sua técnica de execução mas reformulei as propostas para vermos a aplicação prática e real dessas junções, algo que para mim faz mais sentido. Assim, vamos construir o par de cavaletes da foto explorando algumas variações de caixa e espiga cega e aberta, reforçada ou não com pinos ou cunhas, usando serrote, plaina, formão, bedame, furadeira, pata-choca e guilherme. Importante: o número de vagas no ateliê é limitado a apenas dois alunos, o que certamente garante privilegiada a todos.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Restauração, afiação e ajustes de plainas e formões. Oficina do Rodrigo Silveira – R. do Bosque, 892 – Barra Funda. Sábado e domingo, 15 e 16/4, das 9h às 18h. R$ 1.200

Oficina destinada a deixar as ferramentas dos alunos em condição de uso, lapidando, removendo ferrugem, afiando e ajustando-as. É necessário enviar fotos das ferramentas que pretende trazer para que possamos avaliar sua condição e as possibilidades que teremos de deixá-las a contento no decorrer do curso. De qualquer forma, a ideia é fornecer elementos para que os participantes possam restaurar ou ajustar suas próprias ferramentas, conhecimento que levam para aplicar em situações futuras. Dependendo do interesse podemos tratar também do restauro e afiação de goivas e outras ferramentas de entalhe. Os métodos de afiação previstos incluem esmeril, pedras d’água e diamantadas, lixa e reza brava.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Introdução à Marcenaria: Acabamentos históricos para madeira. Sesc 24 de Maio. Sexta-feira 21/4, das 10h às 17h (com intervalo).

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira – Graminho. Sesc 24 de Maio. Domingo, 7/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. O graminho é usado para marcar linhas paralelas. Ferramentas simples, frequentemente eram construídas pelas/os próprias/os marceneiras/os.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Principais Encaixes da Marcenaria – Rabo de Andorinha. Sesc 24 de Maio. De 12/5 a 30/6 (exceto 9/6). Sextas-feiras, das 10h às 13h.

Um dos mais conhecidos e relevantes encaixes usados na marcenaria, o Rabo de Andorinha deve a fama à sua beleza e aparente dificuldade de execução. Vamos ver que com um pouco de prática a tarefa não é tão difícil assim. Cada participante irá construir uma caixa de dois andares com alça, ótima para organizar ferramentas ou pequenos objetos e cheia de rabos de andorinha.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Acabamentos históricos para madeira. Sesc Vila Mariana. De 18/5 a 15/6 (exceto 8/6) Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc Vila Mariana.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira: Cabedais. Sesc 24 de Maio. Domingo, 28/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. Os cabedais ou desempeno são um par de réguas paralelas de madeira usadas especialmente para conferir a torção de um plano. Vamos ver como aplainar peças com precisão para produzir uma ferramenta confiável e durável.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Construção de Guilhermes. Ateliê do Brooklin em parceria com Roger Satoru Nakumo. Em junho, data a definir, R$ 1.500.

Outra ferramenta cujo nome provém do provençal, através do francês guillaume, o guilherme é uma plaina cuja lâmina possui a mesma largura do cepo. É usado justamente para limpar cantos ou mesmo para executar rebaixos os mais variados. No curso vamos fazer um guilherme usando ferramentas manuais, partindo de um bloco de madeira e empregando a técnica de laminação popularizada por James Krenov. É possível escolher entre a lâmina de 20mm ou 30mm de largura, que você pode comprar pronta ou aprender a temperar e revenir no aula extra. O valor do curso é o mesmo se você fizer sua própria lâmina ou se preferir recebê-la já pronta.

Cronograma:

Sexta-feira. Tratamento térmico e discussão sobre demais aspectos relevantes de metalurgia na oficina do Satoru no Bom Retiro. Das 19h às 21h.

Sábado e domingo. Das 9h às 18h. Confecção do cepo de madeira no ateliê do Brooklin.

Aula Regulares. Ateliê do Brooklin.

Todos os percursos didáticos acima foram definidos a partir da minha experiência e sensibilidade como artesão e professor. Acredito que são todos ricos e interessantes. Mas ao ateliê também vêm pessoas interessadas em trabalhar a partir de seus próprios interesses, seja algo bastante pontual como fabricar uma ferramenta ou aprender uma técnica quanto projetos de duração mais extensa, como fazer um móvel. Eu me disponho a acompanhar os processos de cada um, trabalhando lado a lado, algo que a meu ver faz bastante sentido para a transmissão de um ofício. Essa proposta é basicamente a mesma para adultos e também para crianças (neste caso acabo sendo uma espécie de avô profissional, tenho uma oficina cheia de materiais e ferramentas e ajudo nas invenções que pintam). Atualmente apenas dois horários estão disponíveis para as aulas regulares: segunda-feira à tarde e terça-feira à noite. Cada encontro dura duas horas. Maiores informações pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com 

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Bolsa de pesquisa: Mortise and Tenon Magazine

Um dos nossos pilares aqui no Saber com as Mãos é a pesquisa e este mês fomos agraciados com uma bolsa da Mortise and Tenon Magazine para escrever um artigo. Estamos muito felizes e honrados, pois admiramos muito o trabalho da revista. O ensaio deve sair em 2023.

Vejam o post no blog deles para saber mais sobre o foco da pesquisa e o outro ganhador da bolsa este ano.

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Educação

Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.

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Diário de Viagem

A padaria

Há mais um ano estávamos em Juremal/BA, um pequeno distrito de Juazeiro e uma das minhas origens. Em frente à casa de uma tia havia essa padaria, poesia pura. É a mais antiga de Juremal. E acho que a única também. Dos Anjos contou para nós que o pai havia deixado a padaria para ela, que compartilhava a lida com o Neuto e os filhos. Deu tanta coisa bonita na conversa que demorei um ano para conseguir contar a história (ou estória, escrevo dos dois jeitos porque fartura de palavras acabou virando resistência, afinal o mundo continua cheio de anjos e bestas também). Na tarde que aparece na foto, ficamos aí conversando e depois voltamos no fim do dia para ver o Neuto preparando a massa. Depois de misturar tudo é preciso deixar a massa descansar e crescer. Fazer pão ensina os princípios, às vezes a gente cresce resistindo, às vezes descansando. Cada etapa invoca uma exigência: mental, física ou moral mesmo. Tem que saber esperar, ficar ali só cuidando, tem que ser ágil e pegar pesado, toda a rotina da casa em função do pão. O forno tem que acender ainda de tarde, enche tudinho aquele forno enorme de lenha, que queima até carvão. No dia seguinte lava tudo e só aí tá pronto para assar os pães. Aí voltei! Acordei cedinho e fui lá ajudar o Neuto. Cheguei bem na hora de começar a carregar o forno. Minha função era abrir e fechar a porta, atento aos movimentos precisamente coordenados do mestre. Aos poucos, ainda bem cedinho, o pessoal da cidade ia chegando para comprar pão. Assamos uns 600 pães naquela manhã. Acho que comi meia dúzia, ali mesmo e depois na casa da tia, já que saí da padaria com o pão do dia ganho. Dizem lá em Juremal que esse é o melhor pão do mundo. Não duvido, era alimento para o corpo e a alma.

Quick disclaimer: the world may not need another text about bread. Juremal is a small little town in the northeastern state of Bahia, in Brazil. It is one of my origins, granted the fact a person is entitled to originate in many places and times. My mom was born in this town and a big portion of our family still lives there. At the end of 2018 we paid them a visit, staying with Aunt Petinha, or Tia Petinha as we say it in Portuguese. Across the street from her house there was this bakery, the oldest in the area, pure poetry. One may ask how come a place that bakes bread can be poetic in any sense or stretch of the word but maybe these few words are not about bread. 

Dos Anjos, the woman who runs the bakery with her family, inherited the business from her father. Neuto, the husband, is the baker. We first got to talk one afternoon, that’s when the picture above was taken. Standing next to their firewood supply we talked about the bread making process, it seemed the whole family dynamic revolved around it. Later that day Neuto would start mixing the dough, which needs to rest for a few hours until it is time to form the loaves. 

Making bread is hard work, particularly on such a scale. Each step comes with a special requirement, either physical, mental and even moral. One must learn to wait, to be quick or work heavily, the entire family routine happening around those tasks. 

The huge wood-fired oven has to be completely filled by the end of the day, then the wood will burn to ashes that have to be cleaned before baking can actually begin. We were invited to come back: “be here at 5:00AM”, they said. I was! When I got there everything was set up so baking could start. Neuto would load this long board with loaves he would quickly release into the oven. It was frenzy but he had it under control. Or maybe I should say we, since at that point I was no longer an observer but took part in it. My task was to open and close the oven’s door, watching closely Neuto’s moves and trying to stay out of the way.

On that morning we baked 600 “pãezinhos”, our way of referring to bread. I confess, after eating a few loaves there I brought some more with me and ate again when the family was ready for breakfast. They say over there this is the best bread in the world. It’s hard to disagree, when such a simple thing, skillfully made by someone, is food for your body and your soul, this is the best thing ever.