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Cheio de Dedos: Podcast

Estamos muito felizes de poder compartilhar essa novidade antes de 2023 acabar: agora temos um podcast! Já faz tempo que temos o desejo de poder compartilhar um pouco mais dos nossos valores, pensamentos, referências e ideias. Há alguns meses, junto com Lucas e Tony, conseguimos concretizar e colocar o podcast no mundo!

Depois de algumas ideias sobre o nome, escolhemos “Cheio de Dedos” que também é o nome de uma música do Guinga (e vinheta do podcast), mas sobretudo um incentivo para que ouvintes e amigos possam se juntar a conversa e ao trabalho manual. Também é importante, para nós, recuperar o termo “digital” em tempos de telas e touchscreens. É por meio das mãos, dos dedos e de nossa digital que deixamos nossa impressão no mundo, interagimos com os materiais e podemos ampliar nossa sensibilidade.

Nesse primeiro episódio compartilhamos um pouco de nossa história e trajetória individual com a marcenaria, mas a intenção é que essa conversa possa crescer e ser uma troca rica e inspiradora. Nossa intenção é reconhecer e aproximar amigos que fizeram escolhas parecidas e também pessoas que ainda não conhecem os trabalhos manuais e querem aprender mais.

Esperamos que o podcast possa ser o início de muitas pontes e redes em um esforço coletivo para fortalecer, incentivar e reconhecer os ofícios e fazeres manuais!

Ah, vamos liberar um episódio por mês, num ritmo menos frenético do que os algoritmos e redes sociais acabam nos aprisionando.

Esperamos que gostem!

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Diário de Viagem Educação

Poltrona Estaqueada

Em agosto de 2023 tivemos a oportunidade de participar do curso “Stick Chair” Na Lost Art Press com Chris Schwarz. Foi uma oportunidade incrível que compartilhamos um pouco nesta live no nosso canal no Youtube:

Após fazer o curso com o Chris, me parecia natural que o primeiro curso aqui sobre esses móveis estaqueados acontecesse na Oficina Damata do Thiago, de forma que também fosse possível aprender com sua experiência e pesquisa. Decidimos ensinar essa poltrona da foto, presente no livro The Anarchist’s Design Book. São poucas vagas e cada um sai com uma poltrona dessas para levar para casa. Nos dias 11, 12, 13, 14 e 15 de em Goiânia/GO. Mais informações e inscrições: clique aqui.

Há uma bolsa disponível para esse curso. Se por alguma razão você gostaria de participar mas não tem como, mande um e-mail para sabercomasmaos@gmail.com contando qual é o impedimento, por que gostaria de fazer o curso e qual é sua experiência com marcenaria.

Aproveitando a passagem por Goiânia, também ministrarei o Curso de Plainas nos dias 09 e 10 de dezembro. Não perca a oportunidade! Mais informações: clique aqui.

Fotos tiradas por Thiago Endrigo. Todos os direitos reservados.

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Marcenaria na escola

Nessa semana acabou o semestre lá na escola. É difícil escolher alguns projetos para mostrar aqui, acompanhamos mais de 30 alunos entre 7 e 12 anos em seus percursos técnicos e estéticos. Cada um inventa o que quer fazer, depois aprende a lidar com as consequências: como tirar uma ideia da cabeça e fazer surgir diante de si algo real, concreto, útil e bonito, sustentando o processo em seus devires terrenos e mágicos. Nós acompanhamos compartilhando um pouco da nossa experiência, ensinando as técnicas de medir, marcar, serrar, aplainar ou furar a madeira e trocando ideias sobre o rumo que tudo vai tomando. Planejar aulas assim não é trivial, mas vale a pena. Ultimamente vemos muitas propostas educacionais ditas “mão na massa”, com um acento forte na “inovação”. Mas o que é o novo? Sabemos acolher o novo advindo da inspiração e do trabalho ou nos contentamos apenas com o consumo e o que, no fundo, é a reprodução do mesmo? Tratado como um valor, o “novo” muitas vezes tampona a tradição, descarta o que é antigo e nos empurra a levar felizes para casa o que veio no dernier bateau de Paris (para usar uma velha expressão) abandonando no caminho a possibilidade da crítica. Para fazer coisas que não existiam antes, nossos pequenos marceneiros aprenderam técnicas tradicionais e usaram ferramentas às vezes centenárias, passadas de mão em mão por pessoas que criaram famílias empregando-as, transformando algo natural em cultura. A própria madeira que mais usamos precisou crescer por mais tempo do que o que meus aluninhos têm de vida antes de ser cortada. Acredito que tudo isso ensina.

A caixinha das fotos foi feita por um aluno alemão como presente de Natal para seu irmão que coleciona canetas. Tem um pouquinho de marchetaria na tampa, a primeira coisa que aprendi a fazer com madeira. Acho que apresenta bem a materialidade, o gesto e o fazer, o fundamento de nossos esforços. Em tempo, para saber mais sobre as aulas de marcenaria que damos desde 2017 na Graded deixo aqui o link para uma sensível matéria escrita por Andrea Wunderlich. As fotos da caixinha são do Felipe Cressoni, meu parceiro de “controlled chaos”.

*esse texto foi escrito em dezembro de 2022

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Agenda de cursos livres no ateliê do Brooklin no finzinho de 2023

O título quase fica maior que o post, mas o ano ainda não acabou (ainda há lenha para queimar), então vamos lá.

Aulas regulares. Desde 2017 dou aulas no ateliê do Brooklin, em São Paulo. A proposta continua a mesma: partimos dos interesses de cada um enquanto eu acompanho o percurso estético e técnico que estão fazendo. Vale tudo, desde que eu tenha condições de acompanhar. Isso quer dizer que o tempo de permanência no ateliê é variável, tem gente que toma uma ou duas aulas, tem gente que frequenta o espaço por mais tempo. O foco é sempre o trabalho com as ferramentas manuais e o emprego das técnicas tradicionais. Não há pré-requisito, iniciantes ou alunos mais avançados têm vindo, adultos e crianças também. A aquisição de ferramentas é intensamente aconselhada, mas o que tenho fica disponível para que os alunos experimentem. Os materiais são por conta dos alunos. O valor de cada encontro de 2 horas é R$250. Atualmente estou com dois horários disponíveis, entre em contato se tiver interesse.

Graminho. Sábado, 21/10, das 9h às 18h. R$500. Usado para marcar linhas paralelas. Ferramenta simples, frequentemente era construída pelas pelas marceneiras ou marceneiros. Vamos usar imbuia do meu estoque pessoal (que está no fim). Além de levar o graminho você leva uma aula de técnicas de formão (algo quase que mais valioso que o graminho).

Shaker Fest! (Ou Os Shakers e seus artefatos de madeira)

A United Society of Believers in Christ’s Second Appearing, ou como eram chamados pelo mundo, os “Shakers”, são uma comunidade religiosa originada na Inglaterra do século XVIII e radicada nos EUA que ficou conhecida não só por suas práticas e crenças mas também pelos artefatos que produziram. Viviam de modo igualitário, para “rezar e trabalhar”,  tendo deixado um legado impressionante de edificações, móveis, utensílios, têxteis e inovações. Seu cuidado com as proporções e simplicidade de forma, carente de ornamentos supérfluos, influenciou amplamente boa parte do mobiliário produzido no século XX. Para compor a programação de cursos para esse fim de ano, nos propomos examinar alguns desses artefatos, buscando evidenciar seu primor estético e a forma como estão entrelaçados com as concepções de mundo, vida e fé que carregam.

Banquinho. Sábado, 4/11 e domingo 5/11, das 9h às 18h. R$900. Uma lição de proporções e excelente prática de encaixes comuns na marcenaria tradicional. Vamos partir de uma tábua para fazer os cortes e em seguida aplainar as peças que compõem o banquinho. Boas práticas de como se prepara a madeira e como realizamos encaixes serão discutidas. Havendo tempo veremos como fazer e aplicar a tinta de leite (milk paint). Curso para todos os níveis, desde iniciantes até pessoas com mais experiência.

Armarinho. Sábado, 25/11 e domingo, 26/11, das 9h às 18h. R$980. Uma pequena caixa com uma porta, o trabalho do marceneiro em resumo. Além de construir o projeto com ferramentas manuais, vamos tratar de entender porque antigamente os pregos valiam a pena ser usados. Havendo tempo veremos como fazer e aplicar a tinta de leite (milk paint). Curso para todos os níveis, desde iniciantes até pessoas com mais experiência.

Bandeja. Sábado, 2/12 e domingo, 3/12, das 9h às 18h. R$1.100. Vamos seguir o projeto do Christopher Schwarz que saiu na revista Popular Woodworking de Outubro de 2007 (silverware tray). É uma excelente maneira de aprender a confeccionar o encaixe de rabo de andorinha (tanto que a Megan Fitzpatrick) dá esse curso até hoje.

E para 2024 temos algumas novidades. Alguns cursos serão repetidos, como os dos encaixes de meia madeira e caixa e espiga. Plaina e guilherme não couberam na agenda, mas você pode fazer essas ferramentas como aluno regular do ateliê (em seu próprio ritmo, então consigo acomodar iniciantes). Além disso teremos cadeiras! E um cavalete para serrar madeira (o próprio curso é para aprender a serrar), um baú pequeno (o boarded chest do Anarchist’s Design Book), um banco alto de 3 pés (ainda estou na dúvida entre Frid e Schwarz) e caixinhas ovais Shaker. Acompanhem!

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Agenda 2023 (primeiro semestre)

Com certo atraso (já aconteceu um Curso de Construção de Plainas no ateliê e outro na oficina.cc, em Belo Horizonte e uma oficina para crianças e adultos, a Xiloteca Lúdica, no Sesc Vila Mariana), aqui está a lista de cursos e oficinas previstos para o semestre. Os cursos no ateliê do Brooklin, em São Paulo, têm inscrição direta pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com . Em outros, como os do SESC, a inscrição é feita diretamente na unidade ou online. Veja mais informações abaixo.

Introdução à Marcenaria com Ferramentas Manuais. Sesc Carmo. De 9/3 a 29/6. Quintas-feiras, das 9h30 às 12h30.

Em 16 encontros ao longo do semestre, o curso propõe um percurso pelos Fundamentos da Marcenaria Tradicional, da preparação da madeira à confecção de encaixes. Sem um projeto a priori, abordaremos as técnicas básicas de formão, plaina e serrote de forma que todos possam ter autonomia para encarar qualquer projeto simples futuramente. No caminho, os participantes farão algumas ferramentas (esquadro, graminho e boquexim) para levarem para casa e outras que deverão equipar o Espaço de Tecnologia e Artes.

Inscrições diretamente com o Sesc Carmo (siga o link acima).

Principais Encaixes da Marcenaria – Meia Madeira. Sesc 24 de Maio. De 17/3 a 14/4. Sextas-feiras, das 10h às 13h.

O encaixe de meia madeira está entre os mais usados em marcenaria. Para entender suas aplicações vamos construir um esquadro antigo de grandes dimensões chamado Curtamão, título de um conto de Guimarães Rosa que se encontra em Tutameia. Veremos que para construir algo precisamos de material e ferramentas mas também de imaginação e encanto.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio (siga o link acima).

Marcenaria de Apartamento: Introdução à Marcenaria Tradicional. Sesc Vila Mariana. De 23/3 a 11/5. Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Através da confecção de uma pequena caixa de madeira, algo útil e belo, buscamos apresentar ferramentas essenciais como a plaina e o serrote, além de plainas especiais que realizam processos específicos, como os canais para encaixarmos fundo e a tampa. Veremos como usar as ferramentas e também como empregar alguns acessórios que facilitam muito o trabalho como o sobrebanco (taleiro), a caixa de meia-esquadria e um gabarito para aplainar a 45°. Essas ferramentas e acessórios permitem que trabalhemos em espaços pequenos, sem fazer muita sujeira nem barulho, dando o sinal verde para aquela marcenaria de apartamento que muita gente não achava possível.

Inscrições diretamente no Portal Sesc SP a partir das 14h do dia 16/3.

Principais Encaixes da Marcenaria – Caixa e Espiga. Ateliê do Brooklin, em São Paulo. Sábado e domingo, 1 e 2/4, das 9h às 18h. R$ 1.100

Este ano consegui colocar novamente na agenda os cursos sobre os três encaixes principais usados em marcenaria. Dois desses cursos acabaram indo para o SESC mas o de caixa e espiga permaneceu no ateliê. Há tempos eu ensinava esses encaixes focando apenas sua técnica de execução mas reformulei as propostas para vermos a aplicação prática e real dessas junções, algo que para mim faz mais sentido. Assim, vamos construir o par de cavaletes da foto explorando algumas variações de caixa e espiga cega e aberta, reforçada ou não com pinos ou cunhas, usando serrote, plaina, formão, bedame, furadeira, pata-choca e guilherme. Importante: o número de vagas no ateliê é limitado a apenas dois alunos, o que certamente garante privilegiada a todos.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Restauração, afiação e ajustes de plainas e formões. Oficina do Rodrigo Silveira – R. do Bosque, 892 – Barra Funda. Sábado e domingo, 15 e 16/4, das 9h às 18h. R$ 1.200

Oficina destinada a deixar as ferramentas dos alunos em condição de uso, lapidando, removendo ferrugem, afiando e ajustando-as. É necessário enviar fotos das ferramentas que pretende trazer para que possamos avaliar sua condição e as possibilidades que teremos de deixá-las a contento no decorrer do curso. De qualquer forma, a ideia é fornecer elementos para que os participantes possam restaurar ou ajustar suas próprias ferramentas, conhecimento que levam para aplicar em situações futuras. Dependendo do interesse podemos tratar também do restauro e afiação de goivas e outras ferramentas de entalhe. Os métodos de afiação previstos incluem esmeril, pedras d’água e diamantadas, lixa e reza brava.

Inscrições pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com

Introdução à Marcenaria: Acabamentos históricos para madeira. Sesc 24 de Maio. Sexta-feira 21/4, das 10h às 17h (com intervalo).

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira – Graminho. Sesc 24 de Maio. Domingo, 7/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. O graminho é usado para marcar linhas paralelas. Ferramentas simples, frequentemente eram construídas pelas/os próprias/os marceneiras/os.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Principais Encaixes da Marcenaria – Rabo de Andorinha. Sesc 24 de Maio. De 12/5 a 30/6 (exceto 9/6). Sextas-feiras, das 10h às 13h.

Um dos mais conhecidos e relevantes encaixes usados na marcenaria, o Rabo de Andorinha deve a fama à sua beleza e aparente dificuldade de execução. Vamos ver que com um pouco de prática a tarefa não é tão difícil assim. Cada participante irá construir uma caixa de dois andares com alça, ótima para organizar ferramentas ou pequenos objetos e cheia de rabos de andorinha.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Acabamentos históricos para madeira. Sesc Vila Mariana. De 18/5 a 15/6 (exceto 8/6) Quintas-feiras, das 19h às 21h.

Apresentação de algumas técnicas e materiais usados para dar acabamento à madeira ao longo do tempo. Especial atenção será dada às ceras, aos óleos e à goma laca, buscando compreender a preparação feita e os tratamentos dados às superfícies de madeira em móveis e objetos. Faremos um contraponto com as técnicas mais usadas hoje em dia, analisando possíveis vantagens e desvantagens em diversos contextos. Os participantes irão também aprender a fazer sua própria cera em pasta.

Inscrições diretamente com o Sesc Vila Mariana.

Domingueira Madeira: Medir e Marcar a Madeira: Cabedais. Sesc 24 de Maio. Domingo, 28/5, das 10h às 17h (com intervalo).

Medir e Marcar a Madeira é um ciclo de oficinas dedicado à construção de ferramentas de marcenaria essenciais na marcação e inspeção da madeira. Os cabedais ou desempeno são um par de réguas paralelas de madeira usadas especialmente para conferir a torção de um plano. Vamos ver como aplainar peças com precisão para produzir uma ferramenta confiável e durável.

Inscrições diretamente com o Sesc 24 de Maio.

Construção de Guilhermes. Ateliê do Brooklin em parceria com Roger Satoru Nakumo. Em junho, data a definir, R$ 1.500.

Outra ferramenta cujo nome provém do provençal, através do francês guillaume, o guilherme é uma plaina cuja lâmina possui a mesma largura do cepo. É usado justamente para limpar cantos ou mesmo para executar rebaixos os mais variados. No curso vamos fazer um guilherme usando ferramentas manuais, partindo de um bloco de madeira e empregando a técnica de laminação popularizada por James Krenov. É possível escolher entre a lâmina de 20mm ou 30mm de largura, que você pode comprar pronta ou aprender a temperar e revenir no aula extra. O valor do curso é o mesmo se você fizer sua própria lâmina ou se preferir recebê-la já pronta.

Cronograma:

Sexta-feira. Tratamento térmico e discussão sobre demais aspectos relevantes de metalurgia na oficina do Satoru no Bom Retiro. Das 19h às 21h.

Sábado e domingo. Das 9h às 18h. Confecção do cepo de madeira no ateliê do Brooklin.

Aula Regulares. Ateliê do Brooklin.

Todos os percursos didáticos acima foram definidos a partir da minha experiência e sensibilidade como artesão e professor. Acredito que são todos ricos e interessantes. Mas ao ateliê também vêm pessoas interessadas em trabalhar a partir de seus próprios interesses, seja algo bastante pontual como fabricar uma ferramenta ou aprender uma técnica quanto projetos de duração mais extensa, como fazer um móvel. Eu me disponho a acompanhar os processos de cada um, trabalhando lado a lado, algo que a meu ver faz bastante sentido para a transmissão de um ofício. Essa proposta é basicamente a mesma para adultos e também para crianças (neste caso acabo sendo uma espécie de avô profissional, tenho uma oficina cheia de materiais e ferramentas e ajudo nas invenções que pintam). Atualmente apenas dois horários estão disponíveis para as aulas regulares: segunda-feira à tarde e terça-feira à noite. Cada encontro dura duas horas. Maiores informações pelo e-mail sabercomasmaos@gmail.com 

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Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.

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Marcenaria para crianças

O Saber com as Mãos nasceu, de certa forma, do nosso encontro. Meu e do Thiago. Eu, professora de Educação Infantil e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?

Achei legal compartilhar esse tema aqui no blog pois ele é central no nosso trabalho. Acreditamos que levar a marcenaria para dentro da escola tem inúmeros benefícios não só para as crianças, mas para toda a comunidade escolar. As possibilidades são muitas.

Ontem mesmo o Thiago me mostrou um episódio do podcast Path to Learning com a participação do Doug Stowe. O Doug é marceneiro e dá aulas na Clear Spring School há muitos anos. A gente se inspira bastante no trabalho dele e ainda vai ter um post aqui aprofundando mais nisso.

Mas, queria compartilhar algumas ideias que ele expõe no podcast e que ressoam muito com o que a gente também acredita.

Segundo Doug, aulas de marcenaria foram muito comuns nas escolas públicas por um bom tempo nos EUA. Porém, muitas oficinas desapareceram pois habilidades mais técnicas ou ligadas a ofícios não seriam mais úteis na chamada sociedade da informação.

Agora, nos parece que a Educação voltou a perceber a importância de aprender com a “mão na massa”. O aumento dos maker labs e da cultura maker dentro das escolas (privadas, no caso do Brasil) é a prova disso.

A cultura maker é super importante para levantar a bandeira de uma aprendizagem mais significativa na escola, mas, pra gente aqui do Saber com as mãos, isso ainda é um território um pouco camuflado.

Em muitos lugares, vemos que trazer a cultura maker pra dentro da escola está muito mais ligado ao digital e a aprender habilidades de programação, do que de fato desenvolver o que há de mais importante no mundo do fazer com as mãos: encontrar um material natural concreto, dedicar esforço e resiliência ao trabalho e transformá-lo em algo bonito, útil e real.

Doug: There’s a lot that’s magical about woodworking. First of all it’s concrete. It invites the hands. When something is a real substance and you’re able to produce something that’s useful and beautiful and tangible it’s a little different from putting your name at the end of a report.

Doug: Há algo mágico no trabalho com madeira. Em primeiro lugar, é concreto. É algo que convida as mãos. Quando você lida com uma substância real e é capaz de produzir algo que útil, bonito e tangível, a sensação é um pouco diferente do que colocar seu nome no final de um texto.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

A gente acredita que essa “magia” reside em todos os trabalhos manuais, não só na marcenaria. Ensiná-los às crianças é algo muito valioso. Ver algo ser transformado pelas suas mãos, criar um objeto, errar e persistir até encontrar uma solução para um problema real e concreto, concentrar-se em uma tarefa, ter paciência e entender o tempo de elaboração de uma peça, entender o tempo de crescimento das árvores, conhecer a natureza, preservá-la… são habilidades que transpassam a pura técnica manual. São habilidades que nos fazem olhar para a vida de uma forma integrada. Nos faz mais humanos.

Doug: So there are all these different ways that we can come to a better understanding of the significance of our hands. How they help us learn, but not only how they help us learn, they help us learn how to be human, you know, to connect with broader issues and to be of service to each other.

Doug: Então, existem todas essas maneiras diferentes de chegarmos a uma melhor compreensão do significado de nossas mãos. Como elas nos ajudam a aprender, mas não apenas como elas nos ajudam a aprender, elas nos ajudam a aprender a ser humanos, você sabe, a nos conectar com questões mais amplas e a servir uns aos outros.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Quando o Thiago começou, ele deu algumas oficinas para crianças bem pequenas mesmo, mas nos últimos anos tem se dedicado a dar aulas para faixa etária de 7 a 12 anos. Uma das questões que surgiu no podcast, e que às vezes também nos perguntam, é sobre dar ferramentas afiadas para crianças.

Isso é uma questão super cultural que muda não só de país para país, mas aqui mesmo no Brasil podemos ver essa diferença. Enquanto nas escolas de São Paulo pode ser considerado dar tesouras com ponta algo proibido, crianças mais afastadas da cidade grande fazem seus próprios brinquedos com facas de cozinha e facões da lida na roça.

As crianças precisam aprender a lidar com o risco. Nós, adultos, temos uma tendência a privar as crianças dessas experiências, mas é assim que as colocamos em risco. Como se aprende a ter destreza corporal para brincar no parquinho? Brincando muito no parquinho. Então, como ensiná-las a lidar com uma plaina, serrote, martelo? Deixando que elas usem as ferramentas, orientadas por alguém capaz de apresentar a técnica correta e a maneira segura de usá-las . Doug ainda cita outro argumento ótimo para essa questão:

We live in a world where there are risks involved. So would you rather have your son or your daughter taught to whittle with a knife by someone who is capable of sharing with them the safe technique for using a knife? Or would you rather just wait until later and go to the emergency room and learn in retrospect and you know, I’m personally in favor of training kids how to manage risk.

Vivemos em um mundo onde há riscos envolvidos. Então, você prefere que seu filho ou sua filha sejam ensinados a lidar com uma faca por alguém que seja capaz de compartilhar com eles a técnica segura de usar uma faca? Ou você prefere apenas esperar até mais tarde e ir para o pronto-socorro e aprender em retrospecto e, você sabe, eu pessoalmente sou a favor de treinar crianças como gerenciar riscos.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Por fim, o último ponto que queria trazer aqui é o sentimento. Se você já fez algo com as suas próprias mãos (um almoço gostoso pra sua família, uma colher de madeira, um cachecol de tricô, um vaso de barro, uma boneca de pano…) sabe o que é terminar algo, olhar e dizer: “eu que fiz!”. Esse sentimento mágico, transformador, empoderador e feliz. Tanto os adultos e as crianças sentem.

E pra fechar mesmo, vou deixar aqui um trecho do artigo “The Hand: at the heart of craft” de Bruce Metcalf (que conhecemos por meio do podcast Cut the Craft, do Brien e da Amy) que fala tão bem desse sentimento do fazer com as mãos:

Handwork makes meaning, not just physical things. It offers unalienated labor, a sense of purpose, a community, and an avenue for growth. For those who are not content with the readymade answers that our society offers – being a good consumer; being a good Christian; being a good soldier; or any other prescribed role – handwork opens up a world of meaningful self-actualization, and a path to a life well lived.

O trabalho manual cria significado, não apenas coisas físicas. Oferece trabalho não alienado, um senso de propósito, uma comunidade e um caminho para o crescimento. Para quem não se contenta com as respostas prontas que a nossa sociedade oferece – ser um bom consumidor; ser um bom cristão; ser um bom soldado; ou qualquer outro papel prescrito – o trabalho manual abre um mundo de autorrealização significativa e um caminho para uma vida bem vivida.