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Agenda de 2026 (até agora)

Ainda há muita indefinição, com vários compromissos acordados mas não completamente confirmados. Isso é o que temos até agora.

Janeiro. Fortaleza (CE). Marcenaria Selvagem. Cadeira Anarquista (a cadeira que o Christopher Schwarz desenhou para seu Anarchist’s Design Book), uma excelente introdução aos móveis estaqueados. Dias 16, 17, 18/1. Inscrições com o Emanuel através de mensagem no Instagram. R$2.800.

Fevereiro. São Paulo (SP). Há uma série de atividades previstas em torno dos Shakers, com uma palestra sobre aspectos de sua história e cursos sobre a construção de uma cadeira de balanço e uma vassourinha de mão. Ainda aguardo a confirmação do Sesc, acompanhe nosso Instagram para ficar por dentro!

Março. São Paulo (SP). Mais Shakers! E mais informações que ainda não posso divulgar e vou ficar devendo, mas há uma boa chance de repetirmos o curso sobre o banquinho. Em um Sesc.

Na Forjaria Escola teremos o Caixa e Cravos mais uma vez! É um curso que adoro dar, de manhã forjamos pregos que usamos à tarde para montar uma caixa de ferramentas inspirada nas tradicionais caixas japonesas. Desta vez me acompanhará na instrução El Rey del Cuchillo Vikingo, Felipe Cressoni. Dia 7/3, R$760.

Abril. São Paulo (SP). Banqueta Anarquista na Forjaria Escola. Outro projeto do Anarchist’s Design Book (Schwarz), outra bela introdução a um modo acessível de construir móveis resistentes e bonitos. É diferente da cadeira pois tem só 3 pernas, fazemos as espigas cilíndricas e instalamos travessas nas pernas, o que deixa o curso interessante. Dias 11 e 12/4, R$1.800.

Há espaço na agenda para uma viagem. Mais indefinição e mistério…

Maio. São Paulo (SP). Cadeira Anarquista na Forjaria Escola. Descrição do curso no site da Forjaria. As inscrições são por lá também, é possível parcelar o pagamento e há bolsa disponível para todos os meus cursos na Forjaria. No momento em que escrevo essas linhas restam apenas 2 vagas para esse curso.

Junho. Em aberto… Uma possibilidade é promover o curso de construção de garlopa (com o convidado especial de honra, Hernán Costa), outra é tentar oferecer novamente o curso da poltrona estaqueada (stick chair). Ambos tiveram que ser cancelados em 2025 por inscrições minguadas, o que sempre é delicado para quem vive mês a mês (não, a vida de artesão e professor não é tão glamorosa quanto parece). Se tiver interesse em algum desses cursos me dê um alô. Também estou devendo um curso de baú de ferramentas. E outro sobre objetos cênicos de filmes que gosto. Enfim, sou todo ouvidos…

Julho. Carolina do Norte, EUA. Curso de construção de plainas na John C. Campbell Folk School. Um dos meus lugares preferidos no mundo. Conheci a escola em 2023, quando tive a sorte de ganhar uma bolsa para um curso de tanoaria com Rick Stewart (neto do Alex Stewart). Depois do curso o pessoal da escola me pediu para contar um pouco sobre essa experiência (ver imagem abaixo). Bolsas são comuns por lá, assim como em outras Folk Schools e escolas de ofícios, vale a pena tentar. Agora me convidaram para dar o curso de plainas, uma alegria! De 12 a 18/7, $870.

Colorado, EUA. Vou repetir o curso de plainas na oficina do Robbie O’Brien. Foi onde gravei o curso online em inglês, disponível pela Lutherie Academy. Como o público tende a ser um pouco mais específico por lá, formado por pessoas que se dedicam à luteria, nós vamos fazer o curso em 3 dias, com a possibilidade de construir uma plaina e um corteché (ferramentas feitas artesanalmente são tão legais quanto instrumentos feitos artesanalmente).

Paralelamente, ainda tento organizar minhas pesquisas e produção (há anos tento…), continuo com as aulas nas escolas três dias por semana e no ateliê, em dois dias. Eu e a Giulia estamos organizando uma aula online sobre o olhar que fui constituindo para o trabalho de marcenaria com crianças em diálogo com a perspectiva pedagógica originada em Reggio Emilia, mas isso e os demais desafios previstos para o ano são assunto de outro post, porque mistério sempre há de pintar por aí.

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Fazendo o mundo – reflexões sobre os fazeres, as crianças e os adultos

Eu aprendi a fazer tricô com a minha vó. A cada inverno, ela presenteava um ou dois netos com um cachecol de lã feito por ela. Eu ficava admirada com a sua proeza. A gente escolhia a cor e o estilo e depois de alguns finais de semana, pronto! Lá estava ele prontinho e quentinho. Não era um cachecol que se encontrava em lojas, ou em qualquer lugar. Mas um cachecol feito pela minha vó. Assim que eu entendi que era possível fazer um também, pedi pra minha avó me ensinar. E eu aprendi… e até hoje é a minha peça preferida de tricotar.

Minha avó sempre fez coisas. Me lembro que antes de aprender a tricotar, ela me ensinou a bordar tapetes de lã. Sabe aqueles que você compra a tela com o desenho pronto e vai preenchendo? Eu ficava maravilhada com os pontos que iam formando um desenho, e depois da peça terminada, lá estava um tapete bonito que eu tinha feito com as minhas mãos. Minha avó também gostava de fazer os enfeites de mesa para as festas de família, arranjos de flores e até hoje ela borda panos de prato.

Já adulta, fiquei fascinada pela técnica do amigurumi. Aprendi com uma amiga da faculdade, na casa de outra amiga. Eu fiquei obcecada, passava qualquer tempo livre fazendo crochê. Tão prazeroso pegar as linhas, sentar no sofá, ou na cama e assistir aquela série favorita, ouvir um podcast ou simplesmente se perder em pensamentos. Mas também, é uma delícia levar o crochê pra fora. Enquanto se locomove no ônibus ou metrô, espera por alguém, ou simplesmente sentar em algum lugar e pegar as linhas. Existe até o “Knit In Public Day”, um dia especial para todas as tricoteiras levarem os novelos para fora. 

Em 2018, fizemos uma viagem muito especial para o Norte da Argentina. Em um pequeno pueblo nas montanhas, sentei na única praça e comecei a crochetar uma boneca. Não demorou muito para uma moradora se aproximar e puxar assunto. Descobri que ela também gostava de tecer. Crochetar em público é sempre uma maneira de se conectar com as pessoas, mesmo que seja por um olhar curioso. 

Logo tive a ideia de levar o crochê para a escola. Na época, eu era professora, e enquanto as crianças brincavam no tempo livre, eu crochetava um pouquinho.

“O que é isso?”, “O que você está fazendo?”, “Você que faz?”, “Como você faz?”, “A minha vó também faz, sabia?”. As crianças são muito mais desinibidas que os adultos. Perguntam tudo. Algumas também só olham curiosas. Mas essa experiência com elas me fez começar a questionar: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

Em outra escola que trabalhei, lembro que era muito comum encontrar o porteiro (que também fazia reparos de manutenção) pela escola fazendo algo. Era um momento muito rico e as crianças de todas as idades sempre demonstraram muito interesse: “O que você tá fazendo?”, “Posso fazer também?”, “Como chama esse (apontando para alguma ferramenta)”. 

As crianças estão descobrindo o mundo, e ao se deparar com esses processos, descobrem como se faz o mundo. Percebem as materialidades e as possibilidades de se construir, reparar, consertar, criar… Percebem a possibilidade do criar humano. Vivendo em cidades grandes, as crianças (e os adultos também) estão cada vez mais afastadas desses processos, tudo está muito pronto, acabado e fácil nas mãos das crianças. Retira-se a possibilidade de se entender o mundo por meio de seus processos mais básicos. Ficamos desconectados, afastados e alienados e as consequências disso começam a ficar cada vez mais perceptíveis. 

Quando comecei a refletir sobre isso, há mais de 10 anos – e quando as redes sociais ainda engatinhavam – já se via alguns sinais dessa desconexão, principalmente nas crianças. Mas passado esse tempo, nós todos temos acompanhado como isso tem impactado as novas gerações de jovens e adultos. Um estudo sobre felicidade apontou que as novas gerações estão mais descontentes, em comparação com as anteriores. É claro que a razão disso não está só nesse processo de desconexão com os processos que citei acima. Para todo problema, existem mil camadas, e nunca existe somente uma resposta. A crise do capitalismo, a questão climática, viver em uma sociedade neoliberal, a ameaça das inteligências artificiais e o crescimento do fascismo no mundo todo contribuem – e muito! – para isso. É urgente estarmos cada vez mais atentos às essas questões e buscar maneiras de resistir – e não sucumbir – em um mundo cada vez mais colapsado.

Para mim, se reconectar com os processos que fazem o mundo é uma forma de resistência e pode apontar uma saída interessante. Sempre que penso nessa sensação iminente de colapso que vivemos todos os dias, eu começo a pensar: a humanidade já passou por outras crises. Diversos povos e grupos sociais já passaram por colapsos e transições, talvez até muito piores do que estamos passando (a gente sempre tende a achar que a nossa situação é a pior do mundo e da história, né), e então: como eles fizeram? Como resistiram? O que os sustentava durante esses períodos? Conhecer as histórias de resistência podem nos apontar caminhos interessantes, e esse tema tem aparecido nas minhas pesquisas com frequência.

“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com o seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse pesadelo e chegar no século XXI ainda esperando, reivindicando e desafiando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desse povos.” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 28

Ailton Krenak diz em seu livro que os povos indígenas estão enfrentando a crise já há muito tempo… nós brancos que estamos desesperados agora, tentando entender… mas eles já entenderam e sabem como sobreviver.

“Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: ‘Como os índios vão fazer diante disso tudo?’. Eu falei: ‘Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa’”. Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak, p. 31

Para mim, os povos originários guardam as respostas para muitas das perguntas que nós estamos vivendo. Não são respostas prontas, nem fáceis… mas são apontamentos, guias, que podem nos fazer refletir qual caminho seguir e quais não. E quando penso nessa conexão com os fazeres, me lembro da educação indígena. Você sabe como uma criança indígena aprende? Ela aprende vendo, observando, estando perto, sendo convidada a participar repetidamente e cotidianamente os fazeres da comunidade. Fazer e plantar a comida, fazer as vestimentas, fazer as tintas corporais, fazer brinquedos, fazer utensílios, fazer mobiliário… fazer, fazer, fazer. Um fazer que é prático, necessário. Um fazer coletivo que gera pertencimento, que preserva conhecimento, que dá sentido à vida social e que gera o próprio sentido criador humano. Em suma, que nos torna humanos.

Agora, eu volto à pergunta: quantas vezes no dia as crianças têm a oportunidade de ver adultos fazendo algo? 

No Saber com as Mãos, a gente tem um pouco essa ideia. Nossas aulas, são esse espaço de ter um adulto, ou par mais experiente, disponível ali para ensinar, guiar, observar. Além de ser um espaço tempo que a gente reserva para fazer, e sair da rotina que nos engole e aliena. Um formato de aula que a gente gosta bastante também é com famílias. Adultos e crianças juntos, fazendo algo, experimentando e vivendo um pouco dessa experiência com as mãos. 

No dia 28 de junho, teremos mais uma edição do curso de banquinho de 3 pés em parceria com o Rodrigo Silveira, na oficina dele, na Barra Funda em São Paulo. Será das 14h às 18h e para se inscrever é só mandar uma mensagem para nós em @sabercomasmaos ou para o Rodrigo em @rodrigoquefez no Instagram. Fazer o banquinho é na verdade só uma desculpa para estarmos juntos… mas levar pra casa um banquinho feito a muitas mãos e depois poder tê-lo em casa também é muito legal! Vamos fazer juntos?

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Volta às aulas, a cidade e as crianças

Amanhã as aulas retornam, começa o ano letivo. Para mim, que sou mãe e educadora, confesso que é um sentimento um tanto ambíguo. Primeiro, porque isso significa que as minhas férias acabaram também e volto a trabalhar. Além disso, encarar o começo de ano na escola é como encarar a arrebentação no mar. É preciso enfrentar ondas fortes e altas, constantes. Quando você está se recuperando de uma, logo vem outra, e outra e outra… até que finalmente você atravessa e dá de cara com a infinitude do mar tranquilo. Algumas ondas mais fortes podem vir, tormentas até, mas com um espaço de tempo um tanto maior. 

É assim que me sinto, sendo coordenadora pedagógica no começo do ano. As ondas, ou as demandas, surgem uma atrás da outra e é preciso dar conta de muito em pouco tempo. Acolher famílias, crianças e professores enquanto eu também tento me equilibrar; estar atenta e forte; é um desafio grande. Mas ano após ano vou sentindo que vou conhecendo um pouco mais desse mar… a textura da areia nos pés, reconhecer quando a onda que se aproxima talvez me derrube, antecipar o caldo, pegar jacaré ou mergulhar profundo quando não é possível enfrentar de peito aberto, ouvir o vento e a temperatura da água. Cada vez mais vou aprendendo a navegar nessas águas. Mas o frio na barriga é sempre o mesmo. Sair debaixo do meu guarda-sol, levantar e enfrentar a arrebentação é necessário coragem e disposição. Por isso, o sentimento ambíguo e a vontade de esticar um tantinho mais essas férias.

Mas, eu também sou mãe, e anseio o retorno pro mar! Rosinha já está crescida, com cinco anos, e mais do que nunca, sentiu muitas saudades das escolas nessas férias. Ela é filha única, e vi o quanto ela desejava brincar e estar com outras crianças no tempo afastado da escola tão querida. Além de demandar bastante nossa companhia para brincar, cada vez que íamos a um parque, praça, ou museu, ela perguntava: mas vai ter crianças? Como é importante esse espaço da escola, do coletivo, do parque, do encontro, do livre brincar. Fico pensando como deve ter sido difícil pras crianças que tinham a idade da Rosa hoje, lá atrás, na pandemia… e fico me imaginando mãe dessas crianças que ficaram isoladas em casa. Bom, os impactos disso eu vejo como educadora, mas não tive essa experiência como mãe. Rosinha tinha cinco meses quando começou o lockdown, e nossa experiência foi diferente.

Essa saudade toda da escola, essa busca incessante da minha filha pelo encontro com seus pares, me faz refletir muito sobre os espaços disponíveis nas cidades para que isso aconteça. Mais de uma vez fomos a pracinha mais perto de casa que tem parquinho, e encontramos a praça esvaziada… não quero ser injusta, já fomos lá outras vezes e já encontramos a praça bem mais povoada, principalmente em dias de sol e finais de semana. Mas, fora essa praça, que até tem um espaço bacana, cuidado e mantido pelos moradores, pras crianças brincarem, tenho muita dificuldade de pensar em outros espaços de brincar livre para levar a Rosa. Existem os SESCs, é verdade, com espaços de brincar muito legais, mas geralmente com horários mais restritos e distribuição de senhas ou marcação de horário. E como tenho essa mania de pensar como tudo pode ser diferente, fico sonhando com parques bem legais, ao ar livre, com desafios motores (subir, pendurar, escalar, balançar, escorregar) para crianças grandes também (muitos espaços de brincar no SESC são destinados para as crianças menores).

Muitas vezes, nessa busca de lugares para ir com a Rosa, acabo me deparando com muitas opções pagas, plastificadas, prontas, acabadas, com muito barulho e pirotecnia para as crianças. Onde tem de tudo, menos chance delas poderem brincar livremente, inventar brincadeiras, se relacionar com outras crianças (aliás, outro tópico importante mas que não vou me aprofundar é: como os adultos ficam em cima das crianças o tempo todo, impedindo que elas possam resolver conflitos, inventar modos de descer, subir, se arriscar nas praças e parques). Sinto falta de espaços de encontro de fato. Onde adultos e crianças possam usufruir de espaços e materiais de qualidade, se encontrar, se relacionar, conviver.

Conviver: “viver em proximidade, compartilhar do mesmo espaço, coexistir”. Tivemos uma experiência nessas férias muito próxima ao conviver.

Passamos 14 dias em Buenos Aires. Thiago deu dois cursos de cadeira no ateliê do Hernán Costa, em Villa Urquiza (em breve faremos um post). Nos dias em que ele estava dando curso, eu e Rosinha exploramos a cidade. Alguns dias em companhia de amigos queridos com filhos pequenos também, e em outros sozinhas mesmo. Mas não tinha dúvida do que fazer: ir para a pracinha. Em qualquer bairro que estivéssemos, era só abrir o Google Maps e localizar uma praça que tivesse Patio de Juegos. Na maioria das vezes, o que encontrávamos era uma praça amigável e um parquinho muito legal, que dava espaço para as crianças inventarem muitas brincadeiras. Além disso, principalmente no fim da tarde, quando o sol quente já tinha baixado um tanto, as praças se enchiam. Adultos e jovens fazendo todo tipo de esporte: basquete, futebol, yoga, dança, patins, bicicleta, ping pong… encontros de casais, amigos, famílias, vendedores de bolas, picolés, bolhas de sabão, músicos, além de uma assembleia de bairro e um ensaio de bloco de carnaval. Muita vida!

Isso me deu um sentimento de pertencimento, de comunidade, de convivência, que nutrem a vida na cidade. E que sinto tanta falta aqui em São Paulo. Talvez eu esteja morando no bairro errado, mas acredito que muitas pessoas também sintam o mesmo que eu… mas voltando às praças de Buenos Aires, recentemente houve um investimento grande do governo da cidade para renovar esses espaços, e hoje são mais de 40 distribuídos nas 15 comunas. Os parquinhos são temáticos e além de bonitos, são realmente pensados para as crianças terem brincadeiras de qualidade. São feitos pela empresa Cruci Juegos e a qualidade é bem bacana também. Parquinhos feitos pra durar. E como sonhar não custa nada, sonho com um grande projeto aqui em São Paulo, que olhe pras crianças e para os espaços públicos de brincar: parques, praças, brinquedotecas públicas, escolas… espaços acessíveis para todos, bem cuidados, pensados, planejados que valorizem a infância e o brincar.

Pra finalizar e também combater a ideia de que pra brincar a gente precisa de espaços esteticamente fofos e bonitos, deixo aqui alguns projetos que usam bem pouco, mas que promovem um brincar de excelente qualidade:

O primeiro é um vídeo produzido pelo maravilhoso e brasileiro Território do Brincar, sobre o The Yard um parque de brincar livre em Nova York que foge da ideia do parquinho, arrumado e planejado, mas que mostra pra gente que pra brincar com qualidade, basta que os adultos organizem, pensem, e cuidem dos espaços, além de promover a utilização deles pelas famílias e crianças. O segundo é outro vídeo do Instituto Alana sobre os parques naturalizados. 

Esses dois projetos dialogam muito com o livro Terreno Baldio do Jader Janer que li ano passado com o grupo do GEP, da Alice Proença. Jader recupera de suas memórias da infância um terreno baldio da vizinhança e as brincadeiras que surgiram dali, do entulho, do que ele chama de “desútil” e as “desimportâncias” desses momentos preciosos. 

Um parquinho belo e bem projetado, um parque de livre brincar, feio e desarrumado, ou um parque natural seja qual for o espaço, é preciso pensar, cuidar e viver esses espaços na cidade. Esses espaços renovam a esperança, a segurança e a saúde da cidade toda. Agora, me contem: aonde vocês tem ido com as crianças?

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Bordado para crianças

Há algum tempo, publicamos aqui um texto sobre Marcenaria para crianças, que fala muito do que está por trás das práticas que temos aqui no Saber com as Mãos e como vemos a importância delas para as crianças. Gosto muito desse texto, pois ele fala muito sobre os valores de qualquer trabalho manual, seja bordado, culinária, jardinagem, cerâmica, etc. Mas hoje eu decidi falar um pouquinho mais sobre o bordado.

Há cerca de um ano fui convidada a dar uma oficina de férias na escola onde eu trabalho para crianças de 6 a 10 anos. Queria muito trazer alguma arte têxtil e o crochê é a que eu mais estava familiarizada. Porém, para aprender o crochê é necessário bem mais do que um encontro, então recorri ao bordado. Pensei que seria uma atividade em que seria possível as crianças saírem do encontro com algo feito por elas. Eu e o Thiago, sempre discutimos bastante sobre isso. Gostamos de dar mais valor ao processo muito mais do que ao produto em nossas aulas, seja para adultos ou crianças, porém, para encontros rápidos de 1 ou 2 horas onde a intenção é mais um contato com aquele trabalho manual e despertar o interesse para isso, é super importante o sentimento de realização, o de “puxa, fui eu que fiz!”. Por isso, pensei no nome: bordando desenhos. Apresentei para as crianças a possibilidade de pensar o bordado como um desenho com linhas e agulhas. Cada um desenhou a lápis no algodão cru já no bastidor e foi bordando com o ponto reto e ponto atrás. A maioria saiu da oficina com o bordado pronto e o resto levou linha e agulha pra terminar em casa. Falei bastante pra eles que o bordado é uma atividade que a gente faz com calma e quando tem vontade, então quem se cansou no meio da oficina, não tinha problema, retoma quando estiver com vontade.

Em 2022, fui convidada novamente. Não seriam as mesmas crianças, mas mesmo assim, eu queria levar algo diferente. Pensei em diferentes suportes, talagarça, papelão e algodão cru com bastidor. Na noite anterior, tentando elaborar um caminho, eu não conseguia ficar satisfeita. Não sei exatamente o porquê. Mas acho que as crianças acabaram me mostraram o caminho que eu não consegui enxergar no meu planejamento. (e isso acontece com muita frequência no meu trabalho como professora e é uma das partes que mais amo).

Os meninos já chegaram dizendo que queriam fazer crochê. Não era a proposta, mas um deles já havia me pedido por aulas na escola há bastante tempo, e resolvi aceitar o desafio. Já fui explicando que aprender crochê em 1 hora não ia acontecer, mas que eu podia ir mostrando e fazendo com eles. Chegamos ao acordo de fazer uma bolinha. Um deles, pegou o desafio e ficou todo o tempo querendo fazer sozinho e se entender com as linhas. Os outros, queriam logo que ficasse pronto e assim fomos fazendo, um pouquinho eu e pouquinho eles. As bolinhas de concretizaram e eles bordaram carinhas nelas. Saíram felizes da vida.

As meninas escolheram desenhar no tecido e depois bordar. Uma paisagem e um gatinho nasceram. Um dos meninos mais novo, de 6 anos, fez um carrinho vermelho com ajuda de outra professora. Quando vi, nosso ateliê tinha se tornado um grande laboratório de experimentação e até aquarela e guache entraram na brincadeira. As professoras assistentes também gostaram da ideia e cada uma fez um bordado.

Ao final estava uma bagunça, cada um fazendo uma coisa, mas todos concentrados e determinados a terminar seu trabalho. Era aquela bagunça boa, um sentimento de experimentação e eu adorei o caminho que se estabeleceu. Não tem jeito, eu e o Thiago adoramos esse caminho. O foco é no processo e não no produto final.

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Marcenaria para crianças

O Saber com as Mãos nasceu, de certa forma, do nosso encontro. Meu e do Thiago. Eu, professora de Educação Infantil e ele apaixonado por marcenaria. Na época, eu trabalhava em uma escola que tinha espaço para projetos bem especiais com as crianças e ele estava em busca de trabalho. Logo, sugeri: por que você não dá aulas de marcenaria para crianças? E não é que ele topou?

Achei legal compartilhar esse tema aqui no blog pois ele é central no nosso trabalho. Acreditamos que levar a marcenaria para dentro da escola tem inúmeros benefícios não só para as crianças, mas para toda a comunidade escolar. As possibilidades são muitas.

Ontem mesmo o Thiago me mostrou um episódio do podcast Path to Learning com a participação do Doug Stowe. O Doug é marceneiro e dá aulas na Clear Spring School há muitos anos. A gente se inspira bastante no trabalho dele e ainda vai ter um post aqui aprofundando mais nisso.

Mas, queria compartilhar algumas ideias que ele expõe no podcast e que ressoam muito com o que a gente também acredita.

Segundo Doug, aulas de marcenaria foram muito comuns nas escolas públicas por um bom tempo nos EUA. Porém, muitas oficinas desapareceram pois habilidades mais técnicas ou ligadas a ofícios não seriam mais úteis na chamada sociedade da informação.

Agora, nos parece que a Educação voltou a perceber a importância de aprender com a “mão na massa”. O aumento dos maker labs e da cultura maker dentro das escolas (privadas, no caso do Brasil) é a prova disso.

A cultura maker é super importante para levantar a bandeira de uma aprendizagem mais significativa na escola, mas, pra gente aqui do Saber com as mãos, isso ainda é um território um pouco camuflado.

Em muitos lugares, vemos que trazer a cultura maker pra dentro da escola está muito mais ligado ao digital e a aprender habilidades de programação, do que de fato desenvolver o que há de mais importante no mundo do fazer com as mãos: encontrar um material natural concreto, dedicar esforço e resiliência ao trabalho e transformá-lo em algo bonito, útil e real.

Doug: There’s a lot that’s magical about woodworking. First of all it’s concrete. It invites the hands. When something is a real substance and you’re able to produce something that’s useful and beautiful and tangible it’s a little different from putting your name at the end of a report.

Doug: Há algo mágico no trabalho com madeira. Em primeiro lugar, é concreto. É algo que convida as mãos. Quando você lida com uma substância real e é capaz de produzir algo que útil, bonito e tangível, a sensação é um pouco diferente do que colocar seu nome no final de um texto.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

A gente acredita que essa “magia” reside em todos os trabalhos manuais, não só na marcenaria. Ensiná-los às crianças é algo muito valioso. Ver algo ser transformado pelas suas mãos, criar um objeto, errar e persistir até encontrar uma solução para um problema real e concreto, concentrar-se em uma tarefa, ter paciência e entender o tempo de elaboração de uma peça, entender o tempo de crescimento das árvores, conhecer a natureza, preservá-la… são habilidades que transpassam a pura técnica manual. São habilidades que nos fazem olhar para a vida de uma forma integrada. Nos faz mais humanos.

Doug: So there are all these different ways that we can come to a better understanding of the significance of our hands. How they help us learn, but not only how they help us learn, they help us learn how to be human, you know, to connect with broader issues and to be of service to each other.

Doug: Então, existem todas essas maneiras diferentes de chegarmos a uma melhor compreensão do significado de nossas mãos. Como elas nos ajudam a aprender, mas não apenas como elas nos ajudam a aprender, elas nos ajudam a aprender a ser humanos, você sabe, a nos conectar com questões mais amplas e a servir uns aos outros.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Quando o Thiago começou, ele deu algumas oficinas para crianças bem pequenas mesmo, mas nos últimos anos tem se dedicado a dar aulas para faixa etária de 7 a 12 anos. Uma das questões que surgiu no podcast, e que às vezes também nos perguntam, é sobre dar ferramentas afiadas para crianças.

Isso é uma questão super cultural que muda não só de país para país, mas aqui mesmo no Brasil podemos ver essa diferença. Enquanto nas escolas de São Paulo pode ser considerado dar tesouras com ponta algo proibido, crianças mais afastadas da cidade grande fazem seus próprios brinquedos com facas de cozinha e facões da lida na roça.

As crianças precisam aprender a lidar com o risco. Nós, adultos, temos uma tendência a privar as crianças dessas experiências, mas é assim que as colocamos em risco. Como se aprende a ter destreza corporal para brincar no parquinho? Brincando muito no parquinho. Então, como ensiná-las a lidar com uma plaina, serrote, martelo? Deixando que elas usem as ferramentas, orientadas por alguém capaz de apresentar a técnica correta e a maneira segura de usá-las . Doug ainda cita outro argumento ótimo para essa questão:

We live in a world where there are risks involved. So would you rather have your son or your daughter taught to whittle with a knife by someone who is capable of sharing with them the safe technique for using a knife? Or would you rather just wait until later and go to the emergency room and learn in retrospect and you know, I’m personally in favor of training kids how to manage risk.

Vivemos em um mundo onde há riscos envolvidos. Então, você prefere que seu filho ou sua filha sejam ensinados a lidar com uma faca por alguém que seja capaz de compartilhar com eles a técnica segura de usar uma faca? Ou você prefere apenas esperar até mais tarde e ir para o pronto-socorro e aprender em retrospecto e, você sabe, eu pessoalmente sou a favor de treinar crianças como gerenciar riscos.

Fonte: https://pathtolearning.us/the-power-of-hands-on-learning-doug-stowe/

Por fim, o último ponto que queria trazer aqui é o sentimento. Se você já fez algo com as suas próprias mãos (um almoço gostoso pra sua família, uma colher de madeira, um cachecol de tricô, um vaso de barro, uma boneca de pano…) sabe o que é terminar algo, olhar e dizer: “eu que fiz!”. Esse sentimento mágico, transformador, empoderador e feliz. Tanto os adultos e as crianças sentem.

E pra fechar mesmo, vou deixar aqui um trecho do artigo “The Hand: at the heart of craft” de Bruce Metcalf (que conhecemos por meio do podcast Cut the Craft, do Brien e da Amy) que fala tão bem desse sentimento do fazer com as mãos:

Handwork makes meaning, not just physical things. It offers unalienated labor, a sense of purpose, a community, and an avenue for growth. For those who are not content with the readymade answers that our society offers – being a good consumer; being a good Christian; being a good soldier; or any other prescribed role – handwork opens up a world of meaningful self-actualization, and a path to a life well lived.

O trabalho manual cria significado, não apenas coisas físicas. Oferece trabalho não alienado, um senso de propósito, uma comunidade e um caminho para o crescimento. Para quem não se contenta com as respostas prontas que a nossa sociedade oferece – ser um bom consumidor; ser um bom cristão; ser um bom soldado; ou qualquer outro papel prescrito – o trabalho manual abre um mundo de autorrealização significativa e um caminho para uma vida bem vivida.